Loja especializada em Fuscas tem um conversível de 1970 que custa mais que um Novo Fusca 0 km. Há opções mais baratas, a partir de R$ 5,5 mil. "Muitos estudantes vêm comprar", diz dono

Dono deste Fusca instalou uma miniatura do próprio carro atrás do banco traseiro
Brunno Kono/iG São Paulo
Dono deste Fusca instalou uma miniatura do próprio carro atrás do banco traseiro

Os bancos de couro e o painel de madeira entregam o cheiro de antiguidade assim que você se acomoda no banco, sem encosto para cabeça, do motorista. Alguns vão dizer que é cheiro de coisa velha, de coisa de museu, mas não se engane. É um cheiro camuflado de sentimentos de nostalgia, principalmente para quem tem avôs ou avós já bem idosos ou que não estão mais vivos.

Não é cheiro de coisa velha, é cheiro daquele passeio de mais de uma década atrás com seu avô pelas vielas da cidade de interior onde ele morava ou por uma ruazinha de terra rumo à pescaria. E não foi preciso pegar estrada para sentir isso novamente. Bastou ir até uma movimentada avenida no bairro do Brooklin, zona sul de São Paulo.

Entre tantas lojas de carros usados e borracharias, uma se destaca. Nenhum veículo ali tem muitos cavalos de potência ou foi lançado recentemente. A maioria data dos nos 50, 60 e 70, não possuem ar-condicionado, motor flex e nem direção hidráulica. É uma loja de Fuscas. Só de Fuscas.

“VENDI POR UM VALOR ACIMA DO QUE GASTEI”

“Eu comprei um Fusca há muito tempo porque sempre gostei de carro antigo. Comecei a mexer e restaurar aos poucos, e aí quando ficou praticamente pronto, vendi para um amigo por um valor muito acima do que gastei. Achei um negócio interessante, não pensava em nada disso. Comprei outro depois, mexi em algumas coisinhas e vendi também. Falei ‘olha como tem mercado, vou abrir um negócio’”, conta Igor Mansberger, dono da loja Só Fuscas.

O empresário de 33 anos já havia trabalhado na venda de carros, mas na de “carros normais”, e fala sobre o início da loja, em 2010: “Começamos em um terreno, não tinha nem escritório. A gente vendia carro embaixo de um guarda-sol, quando chovia a gente ia embora. Era bem precário, depois fomos nos estruturando. Hoje tem até setor de peças”.

Aparentemente, os negócios foram bons. Além do escritório e da área de peças, algumas delas originais, um toldo protege os exemplares alemães do sol e da maior parte da chuva, mas maiores relíquias automotivas não ficam ali. É o caso de um Fusca de 1970 versão 1600. “Mesmo não sendo nosso, não dá para deixar exposto, tem que ter um cuidado especial. É um conversível alemão original, importado pela Dacon em 71”, explica Mansberger. O preço pela originalidade germânica é alto: R$ 85 mil, mais do que o Novo Fusca em sua versão de entrada.

Apesar do Fusca conversível de R$ 85 mil e um “última série de 86, número 226, com 40 quilômetros rodados”, vendido por R$ 53 mil, Igor revela que a rotatividade da loja acontece mesmo com modelos de até R$ 15 mil: “É o que gira”. Já o tempo de exposição até a venda se concretizar vai de uma semana a três meses. “Não dá para dizer com precisão”, afirma o empresário.

Fusca de 1959 está à venda por R$ 20 mil
Brunno Kono/iG São Paulo
Fusca de 1959 está à venda por R$ 20 mil

QUEM COMPRA?

De acordo com Mansberger, o público que compra um Fusca é variado, com colecionadores, pessoas comuns em busca do mesmo modelo de um carro que tiveram no passado e estudantes entre eles. “A manutenção é muito barata, a revenda depois é fácil, não paga IPVA (veículos com mais de 20 anos de fabricação não pagam o Imposto Sobre a Propriedade de Veículos Automotores no Estado de São Paulo)”, explica.

Em sua loja, o modelo mais barato, um Fusca 1300 branco de 1976/77, custa R$ 5,5 mil, enquanto o mais caro, um Fusca 1200 bege de 1959 extremamente bem conservado, sai por R$ 20 mil. O fanático por rodas pode agradecer o ator Henri Castelli, dono do 1200, pela ótimo estado do carro.

SEM APEGO POR FUSCAS

Igor se diz apaixonado por carros, em especial dos alemães, mas conta que não se apega aos modelos que vende. “Aprendi ao longo do tempo a não ter um xodó para não criar laços. Sou comerciante, não posso criar apego ou é difícil vender depois. Já criei, mas aí vem um amigo, gosta e você acaba vendendo pelos negócios.” O carro dos sonhos do empresário não é um Fusca, mas não está muito longe em termos de origem. “Gosto muito do Porsche”, responde. Foi o fundador da marca, Ferdinand Porsche, quem desenhou o carro queridinho do Brasil.

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