Ex-piloto da Fórmula 1, brasileiro cobra entre R$ 100 mil e até R$ 1,5 milhão para personalizar carros, motos, barcos e até aviões. Ao iG, ele falou de como nasceu a TMC, da amizade com Alonso, para quem fará uma moto, do que esperar de Massa em 2014 e mais

O que era um hobby virou negócio para Tarso Marques, ex-piloto de F1
Brunno Kono/iG São Paulo
O que era um hobby virou negócio para Tarso Marques, ex-piloto de F1

Quando Tarso Marques guiava profissional pelas Fórmulas 3000, 1 e Indy, entre 1994 e 2005, seu maior hobby também envolvia carros, mas personalizá-los. No entanto, foi com uma moto que ele deu início à TMC, seu estúdio de customização de veículos, montada quase que por acaso. “Eu corria de 3000, gostava muito de Harley [Davidson, famosa marca de motos], mas não tinha no Brasil, em 92, 93. Comprei a Harley fora, importei as peças, fui fazendo pouco a pouco e montei aqui”, conta o ex-piloto de F1 de 37 anos.

CURTA A PÁGINA DO DELES NO FACEBOOK

Após a primeira moto, veio o projeto da segunda e outras dificuldades. “Ninguém conseguia fazer a moto que eu queria, fiquei cinco anos me batendo para fazer os dois (ele personalizou também seu primeiro carro, um Bel Air de 59), passei em 10, 15 oficinas no Brasil, ninguém fazia direito. Me irritei, contratei um pessoal e comecei a fazer no meu escritório. Terminei os dois em seis meses, mas não queria mandar as pessoas embora porque os tirei de outros empregos.”

Começava a nascer ali, no final de 99 e começo dos anos 2000, a Tarso Marques Concept. A bordo do seu Bel Air laranja de teto rebaixado – que realmente é chamativo –, o piloto começou a chamar atenção e receber propostas para vendê-lo. “Eu não queria vender, aí falei para um amigo que se ele quisesse, eu fazia um para ele, mas que não ia vender o meu”, diz, e não adianta tentar, ele não vende o Bel Air nem por “R$ 1 milhão, R$ 1,1 milhão”, valores que já foram oferecidos, segundo seu dono. O primeiro carro para terceiros foi um Mercury 51. As encomendas aumentaram. “Tive que montar uma estrutura e virou negócio.”

ENTRE R$ 100 MIL E R$ 1,5 MILHÃO

Um carro customizado pelo ex-piloto, que diz ser “100%” responsável pelo desenho, leva entre três meses e até dois anos para ficar pronto e pode chegar a custar R$ 1,5 milhão. “O que varia muito é o modelo, a gente procura fazer mais carros antigos, agrega mais valor, a quantidade de horas trabalhadas na modificação da carroceria e as peças. Tem jogo de rodas que pode custar mais de R$ 50 mil, tem jogo que custa R$ 3 mil. Esse (Tarso aponta para um dos veículos desenhados por ele) tem chassi de corrida, suspensão estilo de Fórmula 1, motor com 600 cavalos, freios de competição, blindagem. São carros que acabam ficando com valor muito mais alto”, explica.

O perfil do cliente, de acordo com Tarso, varia, mas todos querem exclusividade. “A maioria procura um carro para passeio, para os finais de semana, com um visual agressivo e potência”, afirma. Questionado sobre um projeto que o tenha marcado, ele fala sobre o que está prestes a terminar: “É um carro bem popular, está pronto, está acabando a blindagem, é uma [Ford] Rural branca e laranja. Tem 600 cavalos, chassi feito de competição, freios enormes, rodas aro 24 polegadas, teto de vidro blindado. Parece um Hammer, tá ficando bem legal”.

“CONTINUO NO MESMO RITMO”

Da experiência de três temporadas e 26 corridas na F1, todas pela Minardi, o ex-piloto diz aplicar “muita coisa” no negócio de customização: “A parte de design, aprendi muito em aerodinâmica, também na parte de mecânica, toda a experiência de construção de chassi. Os engenheiros depois definem os materiais, mas eu que passo o básico para eles. Tenho uma boa noção”.

Questionado se a rotina agora é bem mais calma quando comparada à que tinha na época, Tarso responde que nem tanto. “Olha, eu diria que não é calma porque tem tanta coisa que a gente faz, continuo no mesmo ritmo, viajando duas, três vezes por semana. Faço evento, palestra, coisas das motos dos clientes, gravações... Hoje mesmo (na quinta-feira) eu gravo com o [Fernando] Alonso em Interlagos. O tempo inteiro é uma correria, não fico três dias parado no mesmo lugar.”

Motos personalizadas são as maiores encomendas
Brunno Kono/iG São Paulo
Motos personalizadas são as maiores encomendas

AMIZADE COM ALONSO

Alonso, aliás, é um dos pilotos da F1 com quem Marques mais conversa. “Não falo toda hora, mas falo bastante. Ele vai ver se consegue ficar aqui depois da corrida, se pega uma praia, tenho casa em Florianópolis. Ano passado a gente ia, mas ele perdeu o campeonato na última corrida, pegou e foi embora. Agora já está definido, então talvez ele fique”, conta o brasileiro, que foi companheiro do espanhol em 2001, ano estreia do bicampeão da categoria, na Minardi.

Embora afirme que evita ir às corridas, Marques revela que os pilotos sabem da nova profissão. “Não sei se sabem, estou fazendo uma moto para o Rubinho [Barrichello], já fizemos para o [Luciano] Burti. Alguém comentou, acho que foi o Geraldo Rodrigues (empresário) que o [Jenson] Button perguntou. Parece que ele queria um carro antigo, que tem um Mercury. O Alonso sabe, a gente deve fazer uma moto para ele. A do Rubinho é uma Triumph inteira modificada, para o Alonso ia ser uma Triumph que seria entregue no GP do Brasil, mas não consegui fazer", comenta.

“SE MASSA NÃO TIVER RESULTADO, ACABA A F1 PARA O BRASIL”

Apesar do tetracampeonato consecutivo de Sebastian Vettel, Tarso vê Alonso como o piloto mais completo da atualidade, seguido do jovem alemão e do inglês Lewis Hamilton, campeão em 2008. Perguntado sobre o que espera de Felipe Massa, parceiro de Fernando nas últimas quatro temporadas pela Ferrari, em 2014, com a Williams, ele afirma que a situação é crítica para o Brasil.

“Acho que é uma situação crítica para o Brasil. Não dá para comparar Williams com Ferrari, não vai ser um ano fácil. Espero que ele tenha uma condição boa de primeiro piloto e que a Williams comece o ano com o carro certo. F1 tem muito disso: começou errado, não vai de jeito nenhum. Se ele não tiver resultado, acaba a F1 para o Brasil. Não vejo ninguém com chance de estar na F1 logo e ser competitivo”, avalia.

Tarso sobre Felipe Massa, piloto da Williams em 2014:
AP Photo/Darron Cummings
Tarso sobre Felipe Massa, piloto da Williams em 2014: "Se ele não tiver resultado, acaba a F1 para o Brasil"

O ESTILO DE VIDA DE UM PILOTO DE F1

Foram três anos na categoria máxima do automobilismo. Mesmo sem nunca ter pontuado – sua melhor colocação foi 9º lugar, que lhe renderia pontos, em duas etapas de 2001 –, o brasileiro comentou que o assédio existe, mas que hoje já não há espaço para cenas como as retratadas no filme “Rush”, focado em James Hunt e Niki Lauda.

“Não cabe como tinha no filme. Hoje todo mundo é sério, profissional. Não tem bobo. Sim, acho que tem uma aura, como tem na maioria dos esportes, mas é um esporte que envolve muito glamour, dinheiro, status, então é normal ter essa coisa, essa curiosidade. É uma coisa muito seleta, pouca gente chega lá, acho normal, assim como no futebol, nas seleções. Os pilotos não comprometem uma corrida por causa de uma bagunça. Nem o [Kimi] Raikkonen”, afirma. Curiosamente, o finlandês, conhecido por seu comportamento festeiro fora das pistas e pelos diálogos inusitados pelo rádio, chegou a usar neste ano um capacete idêntico ao de Hunt.

Após deixar a Fórmula 1, Tarso Marques passou pela Indy, Gran Turismo e Stock Car. Hoje ele corre eventualmente. “Virou meu hobby, meu trabalho agora é com os carros, as coisas se inverteram”, brinca. Um novo retorno às pistas e ao cockpit deve acontecer em 2014: “Estou negociando para correr o Mundial de Endurance pela Oak Racing, uma equipe francesa. Era para ter corrido no Brasil, acabou não fechando, mas eles estão tentando viabilizar para que eu corra lá ano que vem."

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.