Na Aclimação, posto de combustível de 1929 segue em funcionamento; na Luz, estabelecimento de 1926 funciona hoje como estacionamento e aparece à venda em site de imobiliária por R$ 1,2 milhão. Condephaat estuda o tombamento de ambos

Posto de combustível na Aclimação, em São Paulo, foi construído em 1929, de acordo com o dono
Brunno Kono/iG São Paulo
Posto de combustível na Aclimação, em São Paulo, foi construído em 1929, de acordo com o dono

É quase impossível andar pela Avenida da Aclimação, entre as zonas sul e central de São Paulo, sem prestar atenção ao dono do número 11. É ali, na esquina com a Rua Pires da Mota, que um minúsculo pedaço da história da capital paulista segue em pé, aberto sete dias por semana. Cláudio diz, com orgulho, que colunas, paredes, janelas e telhas são as mesmas da época da inauguração, há mais de 80 anos.

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Dono do pequeno Auto Posto Dansa desde 2009, Cláudio Sérgio Lopes afirma que ele existe desde 1929, à época com a bandeira da Anglo-Mexican Petroleum Company, atual Shell, e que era um desejo antigo seu. "Eu vinha almoçar aqui perto, passava em frente, achava uma graça, mas nunca tinha entrado", diz o empresário de 56 anos, que chegou a ter uma rede de postos quando era mais jovem.

"Fiquei 25 anos fora do ramo. Quando eu voltei, conversei com um corretor sobre um na Aclimação, a família da minha ex-esposa era daqui. Fui dar uma olhada e quando vi qual era, falei que tinha que ser meu. Deu certo", comemora. Agora, com o desejo realizado, ele fala sobre o negócio quase que em tom fraternal: "Meu sonho era ter um posto. Vir aqui, ter meu 'negocinho', para quando for mais velho ficar batendo um papo. Esse é o grande objetivo".

Sobre os proprietários que vieram antes dele, Cláudio sabe pouco. Conhece apenas a pessoa que vendeu o estabelecimento para ele e ouviu falar que o "avô do Mário" – sem piadas – lembra de sua construção. Segundo o empresário, o tal avô tem mais de 100 anos e vive em Manaus, no norte do Brasil. Até agora ele não sabe se liga ou não liga para ele: "Não quero ficar incomodando, mas depois que morrer, não tem como". E também preferiu não passar o contato para a reportagem.

JAPONESES FASCINADOS

Para ter lembranças da construção do posto é preciso ter os seus 100 anos ou por aí, mas Cláudio já se acostumou a receber pessoas interessadas com menos da metade disso. "Tem muito estudante de arquitetura, pede para desenhar, fazer trabalho."

Turistas também marcam presença. "Já aconteceu uma vez com um ônibus com japoneses. Eles desceram, todo mundo com câmera, tirando fotos", conta o empresário, sem antes perguntar, com um largo sorriso no rosto, se o caixa da loja de conveniências também se lembrava. Para amanhã à noite, o compromisso está marcado. Uma equipe vai ao local gravar algumas cenas de um longa-metragem. "Vamos aparecer em um filme."

NA LUZ E NO ESCURO

Não muito longe do "negocinho" de Cláudio, a cerca de 7 km, na região da Luz, um posto de construção e arquitetura praticamente idênticas está no escuro e parece não receber visitas, a não ser dos carros que utilizam seu espaço como estacionamento há um bom tempo.

Na esquina da Avenida Tiradentes com a Rua Porto Seguro, em frente à Praça Bento de Camargo Barros, fica o Auto Posto Alferes Tiradentes, cuja inauguração, de acordo com Douglas Nascimento , editor do site São Paulo Antiga e membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP), foi em 1926, o tornando assim o mais antigo posto de combustível preservado da cidade.

A construção original está de pé, mas o lugar parou no tempo entre o passado e um presente remoto. Duas bombas são eletrônicas, uma tem contadores analógicos em real, e a quarta e última ainda carrega o símbolo do cruzado novo – Cz$ –, moeda do final dos anos 80. Porta, janelas e as tampas dos tanques parecem ser originais. A casa, que na Aclimação virou, convenientemente, uma loja de conveniências, na Luz é uma casa de verdade, com móveis, televisão e um colchão no chão.

Após algumas batidas na grossa porta branca de madeira, um senhor que descansava no colchão atende a reportagem do iG . Ele diz morar em Guarulhos, que fica ali apenas durante o dia – um segundo homem cuida do lugar à noite – e que cobra R$ 50 mensais de quem estaciona o carro, mas que já pensa em aumentar o valor. Dos fundos da sala ele resgata uma faixa amarela com nome e telefone da imobiliária responsável pela venda do imóvel.

Apesar do estilo arquitetônico idêntico, postos da Aclimação (à esquerda) e da Luz vivem situações opostas
Brunno Kono/iG São Paulo
Apesar do estilo arquitetônico idêntico, postos da Aclimação (à esquerda) e da Luz vivem situações opostas

À VENDA: R$ 1,2 MILHÃO

No site da imobiliária, o "posto desativado em ótima localização" aparece à venda por R$ 1,2 milhão, valor "abaixo da avaliação", diz a consultoria. Mas, por telefone, um dos funcionários afirmou que o imóvel, com 273,5 m², não pode ser vendido por ser tombado e que o dono lamenta.

O proprietário, na verdade, não lamenta tanto assim, até porque o imóvel não está tombado e, mesmo se estivesse, poderia ser vendido, contanto que fosse oferecido antes ao Estado, explicou a assessoria do Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo), órgão que atualmente estuda o tombamento de ambos – Aclimação e Luz –, pedido aberto em 2012, mas que continua sem "nenhum parecer conclusivo".

"NÃO PODE DEIXAR ABANDONADO"

Um dos proprietários do Auferes Tiradentes é Mathias Androvic Filho , em sociedade com a viúva e os filhos do ex-sócio. Aos 74 anos, o aposentado revela que poucos interessados aparecem, mas que recebeu, no último dia 10, uma proposta de R$ 800 mil. Ele ainda não respondeu, mas não está propenso a aceitar a oferta. "Vale mais. Não vamos jogar dinheiro fora", diz. Ao ser informado sobre o estudo de tombamento e que seria preciso oferecer ao Estado antes, ele responde que o advogado de sua sócia é quem está verificando o andamento do estudo.

Androvic, que diz ter ingressado no ramo em 1973, conta que comprou o posto da Shell, em junho de 1991, por 20 milhões de cruzeiros. Ele funcionou normalmente durante um tempo, mas a falta de pagamento do aluguel – que não era de sua responsabilidade, se defende o aposentado – fez com que uma ordem de despejo fosse emitida, em 2008, desativando o estabelecimento, que está parado desde então, mas não abandonado.

"Tem inclusive uma pessoa que está tomando conta", diz Mathias, citando o senhor que cobra R$ 50 por mês no estacionamento improvisado. "Ele ganha uns trocados, a gente não faz questão. Como a gente não paga nada, ele tem o direito de cobrar alguma coisa e tocar sua vida. O que não pode é deixar abandonado."

Foto de arquivo obtida por Cláudio mostra posto da Aclimação, provavelmente nos anos 80
Arquivo pessoal
Foto de arquivo obtida por Cláudio mostra posto da Aclimação, provavelmente nos anos 80

POSTOS QUE CONTAM HISTÓRIA

Apenas com os endereços, a Junta Comercial do Estado de São Paulo não consegue levantar o histórico das empresas que já gerenciaram os postos e assim verificar a data exata em que iniciaram suas operações, mas, através da arquitetura, é possível identificar o momento que o Brasil vivia, de acordo com Joana Mello , arquiteta e Doutora em História e Fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo pela FAUUSP.

Antigo posto na região do Glicério: acabou demolido
Reprodução/Google Street View
Antigo posto na região do Glicério: acabou demolido

"Não posso afirmar, com certeza, que é da década de 20, há outros postos de estilo neocolonial no interior, dos anos 30, anos 40. A linguagem dessa arquitetura, chamada por historiadores como neocolonial, é uma manifestação arquitetônica que começa a surgir como proposta dos anos 10, mas as primeiras construções se dão de fato na década de 20, época do centenário da Independência (em 1922). Isso se dá justamente nesse contexto das comemorações, há a importância de uma linguagem nacional na arquitetura, literatura, artes plásticas, e as primeiras manifestações são essas. É um movimento que não se dá somente em São Paulo, tem no Rio de Janeiro, tem em outros estados", explica Joana.

"E essa manifestação, essa preocupação em constituir uma linguagem nacional, vai querer recuperar elementos do período colonial e atualizar no presente. Ela se dá em vários programas, tem muitas residências neocoloniais, e outros programas começam a assimilar essa linguagem. Chega a programas mais utilitários como postos de gasolina", completa a arquiteta. "Esses postos contam um pouco dessa história, da discussão da arquitetura nacional, faz todo o sentido tombá-los."

"TEM GENTE QUE NÃO ESTÁ NEM AÍ, NEM PERCEBE"

Cláudio recebe visitas e equipes de filmagem, mas também há o outro lado da moeda, "gente que não está nem aí, nem percebe". Para o empresário, seu negócio está ali só porque o terreno é pequeno: "Se fosse grande, tinha virado prédio".

Com quatro filhos, ele lamenta que nenhum seja "muito ligado" como ele. "É uma dó. Tenho filho engenheiro civil, é outra cabeça, se demolir aqui e construir um prédio, por ele tudo bem." Além do estudo de tombamento, ainda sem previsão para ser concluído, Lopes planeja criar uma página no Facebook para "interagir com moradores do bairro e clientes, e ver se as pessoas têm fotos antigas".

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Flickr/Andre Deak

"A importância de conservar é porque conta um pouco a história da cidade, fala do período da constituição de uma arquitetura brasileira em que isso foi muito intenso e mostra como a discussão não ficou restrita ao campo disciplinar, fala desse momento de certo ufanismo, nacionalismo que extravasava o campo político e esteve presente nos campos das artes e da arquitetura. Fora que, do ponto de vista afetivo, várias pessoas lembram, têm um carinho. A gente tem uma certa empatia", observa Joanna Mello.

Uma das formas que Douglas Nascimento encontrou para ajudar a preservar o posto de 1929 foi abastecer o tanque sempre que vai à Aclimação com seus carros antigos, sua outra paixão, além dos postos: "Nem que seja R$ 10, R$ 20, é uma forma de apoiar". Pesquisador, ele afirma que soube, por meio de um leitor, que existe um estabelecimento, também da década de 20, mas mais descaracterizado, na região do Socorro, zona sul da capital paulista. Havia um terceiro posto da mesma época, este já conhecido, na Rua do Glicério, entre a Rua São Paulo e a Radial Leste, mas acabou demolido.

RESTAURAÇÃO

Uma das dúvidas dos "caseiros" da construção histórica na Luz era se daria para restaurá-la. Joanna afirma que, no caso do Auferes Tiradentes, seria como uma reforma daquelas que se faz em casa. "É fácil de restaurar. Todo mundo sabe fazer telha, tijolo de barro. Nos elementos ornamentais, usaríamos argamassa, nada muito completo. É quase um processo de reforma. Não seria complicado."

Cláudio não acredita que o lugar volte a ser o que era antes. Mathias espera vender sua parte, provavelmente em cima do valor de R$ 1,2 milhão. À Douglas, resta imaginar: "Se eu tivesse grana, comprava e transformava em um restaurante".

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