Com mais de cinco mil miniaturas, colecionadores têm até quarto separado para guardar as raridades. “Minha mulher não gosta. Chego com o carrinho na bolsa, coloco lá no meio depois que todo mundo dorme e ninguém percebe”, brinca Silvio José Schiavon

Mini Cooper do Mr. Bean feito por George Tutumi. No detalhe, o personagem dirigindo o carro
Arquivo pessoal/George Tutumi
Mini Cooper do Mr. Bean feito por George Tutumi. No detalhe, o personagem dirigindo o carro

O que David Beckham, do alto de sua elegância britânica, faz para aliviar o estresse da vida de ex-jogador, modelo, investidor de um time de futebol de Miami e marido de Victoria, ex-Spice Girl? Brinca de Lego . A revelação foi feita na semana passada, em entrevista ao jornal Sunday Times Magazine. Silvio José Schiavon não bate na bola com o pé direito como o ex-camisa 7 do Manchester United, mas entende os motivos de se distrair. Ele só escolheu outro meio: colecionar miniaturas de carros.

Silvio, de 45 anos, calcula que sua coleção tem cerca de 5.600 miniaturas, adquiridas ao longo de quase quatro décadas e três fases. A primeira veio ainda na infância, quando supervisor de vendas tinha sete a oito anos. “Eu tinha uma tia que era secretária executiva de uma empresa alemã, viajava muito e trazia para mim. Como ela era solteira e não tinha filhos, dava presentes para os sobrinhos.” Schiavon lembra que “abandonou” os carrinhos por volta dos dez anos, retomou aos 20, abandonou de novo, retomando – de vez – em 2003, aos 35. “Essa terceira fase já tem 11 anos. Você está mais maduro, mais ou menos estabelecido, tem uma coisa para tirar o estresse”, diz o supervisor.

O colecionismo fez com que Schiavon fosse convidado para trabalhar na Semaan, empresa especializada em revenda de brinquedos no varejo e que promove encontros mensais entre entusiastas de miniaturas – o 70º acontece amanhã, das 9h às 15h, no centro de São Paulo –, onde está até hoje. Os encontros, que já reuniram mais de quatro mil pessoas em seis anos, contam com promoções e sorteios. “Muitos colecionadores não tinham coragem de se identificar. O evento foi uma forma de mostrar que tem um monte de gente assim. O pessoal traz carrinhos que não querem mais, vem com mochila, é uma coisa bem interativa, bem divertida”, afirma Marcelo Mouawad, diretor comercial da companhia.

“MERCADO DEMOCRÁTICO”

Mouawad, de 43 anos, também é um colecionador, mas se diz mais comedido. “Não pode se envolver sentimentalmente”, explica, alertando a si mesmo de que é complicado misturar negócios e paixão. Há 20 anos com a Semaan, o empresário, que ainda tem alguns “carrinhos e bonecos”, conta que eles decidiram entrar no mercado de colecionáveis porque “ele não era muito explorado”.

Para o diretor, o segmento de die-casts é “legal” por ser “democrático”. “O carrinho é barato, um Hot Wheels colecionável vai custar por volta de R$ 6,99, é um produto que não machuca o orçamento. O que acontece é que tem muitos modelos, tem para todas as idades, e o pessoal acaba escolhendo, foca nos carros antigos, nos esportivos.” Ele não sabe precisar quantos carrinhos vende ao ano no Brasil, mas estima em algumas boas dezenas de milhões: “É um número bom”.

COLEÇÃO SEGMENTADA

Com mais de cinco mil miniaturas em casa, Silvio conta que “comprava de tudo” no começo, mas que passou a focar algumas categorias com o passar do tempo: “Esportivos, superesportivos, modelos da Volkswagen, de Nascar, aqueles carros de arrancada, de serviço”.

No caso de Reno Rocco, o foco é um só: Mustangs. Ele revela que o esportivo da Ford, ícone no mundo automotivo norte-americano, sempre teve sua admiração, mas que a coleção focada nele foi “descoberta” por acaso. “Há uns dez anos, uma empregada levou, infelizmente, algumas miniaturas, inclusive um Mustang que ganhei do meu primo. Tive que repor, e quando vi, tinha vários modelos. Pensei ‘vou começar um tema’. Comecei a procurar por todos os modelos de todos os fabricantes, com variações de cor, de pintura. Fiquei conhecido por isso, aí o pessoal também me oferece, me ajuda.”

O acervo de Rocco já passa das seis mil miniaturas – mais de mil delas, segundo suas contas, são Mustangs – e ocupa praticamente um quarto inteiro de 12 m² em sua casa em Santo André, na Grande São Paulo. A esposa, com quem está na metade do caminho rumo às bodas de ouro, e o filho, de 19 anos, sempre apoiaram seu hobby, embora o garoto, agora na faculdade, esteja mais interessado em outras coisas, brinca o gerente de desenvolvimento de produtos de 54 anos. A companheira só não o presenteia com miniaturas como antes porque não dar uma repetida é tarefa complicada. Na casa de Silvio, a estratégia é outra. “Minha mulher não gosta. Chego com o carrinho na bolsa, coloco lá no meio depois que todo mundo dorme e ninguém percebe”, se diverte o supervisor de vendas.

ABRIR OU DEIXAR NA CARTELA?

Quem vê uma coleção, seja de carrinhos ou bonecos, pode se perguntar: por que não tirar da caixa? “Com a embalagem, lacrado, o valor é maior. O que eu vejo muito é que existe um mercado de segunda mão, e esse mercado é para embalagens fechadas. A miniatura pode custar R$ 100, mas se estiver aberta, o valor despenca, vai vender por R$ 20”, explica Marcelo.

Tutumi trabalha na customização de uma miniatura
Arquivo pessoal/George Tutumi
Tutumi trabalha na customização de uma miniatura

Silvio é do tipo que abre sem dó: “Porque eu não pego carrinho para vender, pego para mim. Quando eu morrer é do meu filho. Tem gente que guarda por causa da história, eu acho que cartela só serve para juntar barata”. Reno também costuma expor sua coleção fora de caixas, mas, ultimamente, não tem feito isso. “Por falta de espaço e porque em alguns casos a cartela faz parte. Tenho quatro Mustangs do KISS, um de cada membro da banda. Se você tirar, vai aparecer o logo, mas não vai ser tão chamativo.”

PERSONALIZAÇÃO DE MINIATURAS

Nada enriquece mais uma coleção, seja ela do que for, do que ter algo exclusivo. George Tutumi, de 43 anos, tem um número de carrinhos modesto – cerca de 1.200 – perto de Silvio e Reno, mas seu trabalho em termos de colecionismo está focado na personalização de miniaturas. E a procura é grande: “Vamos supor que o cara é colecionador de Mustangs. Uma hora não tem mais o que comprar, ele comprou todas as variações, aí ele se volta para customização”.

Ilustrador, Tutumi afirma que sempre teve muita facilidade com trabalhos manuais como pintura e detalhamento. O “marco zero” da customização para ele foi um Fusca lilás com tons de rosa – pintado com esmalte – e adesivos de flor que fez para a filha, atualmente com 19 anos, e que guarda até hoje. “Depois fui aprendendo, com aerógrafo, com tinta automotiva, fui progredindo e adquirindo mais técnicas.”

A julgar pelas fotos de seu arquivo pessoal, Tutumi é capaz de recriar todo tipo de carro imaginável, como viaturas – muito requisitados pelos próprios policiais –, ambulâncias, o famoso Mini Cooper do Mr. Bean, o Ecto-1 dos Caça-Fantasmas e as duas versões do Camaro amarelo do primeiro “Transformers”. Encomendas e restaurações também são aceitas, e ele se lembra especialmente de uma. “Teve um projeto que fiz para um colecionador que curte carros de corridas nacionais dos anos 70, e o Emerson Fittipaldi fez um Fusca para correr com características bem específicas. Esse eu tive que modificar muito, criar artes, alterar várias coisas.” O preço cobrado? “Eu não lembraria exatamente, mas hoje eu cobraria uns R$ 150, R$ 200.”

Quando a encomenda não é tão complexa, como foi o caso do Fusca de Fittipaldi, George costuma levar oito horas corridas. O processo de personalização inclui desmontar o carro, retirar a tinta, passar uma base, pintar com aerógrafo, desenhar os gráficos e logotipos e imprimi-los em um papel decalque, aplicar na miniatura e fechar com verniz. “Faço aos finais de semana”, diz o ilustrador.

Reno e parte da sua coleção de Mustangs
Arquivo pessoal/Reno Rocco
Reno e parte da sua coleção de Mustangs

ESSES ELES NÃO VENDEM POR NADA

Ter um die-cast personalizado é sinônimo de exclusividade, então talvez seja por isso que Rocco elege o Mustang customizado pelo “vizinho” Tutumi como um dos exemplares preferidos. “Inclusive já comprei um caminhão e pedi que ele pintasse com as mesmas cores”, acrescenta o gerente. Outro modelo que ele não abre mão completa 50 anos em breve: o “Batmóvel” e a “Batlancha” que ganhou em 66, quando era uma criança. Estas foram as primeiras miniaturas da sua vida.

Os xodós de Schiavon são dois: “As duas miniaturas do Colecon Brasil, o primeiro evento independente de colecionadores. É um Dodge Charger de 69 e um Shelby GT500 de 67. Já cheguei a ver a edição especial deles, a ‘Green Machine’, sendo vendida por US$ 199”.

Apesar do valor que uma raridade pode ter, nenhum deles está disposto a gastar uma fortuna por uma miniatura. “Existe uma série muito limitada que a Ford fez, em 96, para os funcionários da Mattel. Essa daí atinge R$ 2 mil a R$ 3 mil. Eu não pagaria, seria um exagero, é fora da realidade”, analisa Rocco. “Os primeiros modelos da Hot Wheels, do final dos anos 60, em condições boas e na embalagem, custam numa faixa de até US$ 20 mil. Se eu pagaria isso? Não vou exagerar e forçar a boa vontade da patroa”, completa Tutumi.

SERVIÇO:

70° ENCONTRO DE COLECIONADORES SEMAAN
Quando: 
15/02/14
Onde: Rua Cavalheiro Basilio Jafet, 138 (próximo ao Metrô São Bento) 
Horário: das 9h às 15h
Tel.: (11) 3313-7487

1ª OFICINA DE CUSTOMIZAÇÃO PARA MINIATURAS DIE-CAST DO ABC
Quando: 15/02/14 
Onde:  Centro de Referência da Juventude - Estação Jovem 
Endereço:  Rua Serafim Constantino, Piso Superior Módulo II, em São Caetano do Sul
Horário: a partir das 15h
Vagas: contato@minimaniacos.com.br 

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