Apaixonado por carros e balada, designer fez parte do grupo nos anos 90 e hoje ganha a vida construindo móveis inspirados no automobilismo e réplicas como a McLaren de Ayrton Senna

Adhemar Cabral em cima de uma réplica da Penske de Emerson Fittipaldi
Brunno Kono/iG São Paulo
Adhemar Cabral em cima de uma réplica da Penske de Emerson Fittipaldi

Adhemar Cabral não tem diplomas para decorar a parede do seu escritório. Ele cursou design em uma instituição especializada na área, mas prefere os pôsteres – improvisados em folhas A4 – de Henry Ford, Michio Suzuki, Louis Chevrolet, Soichiro Honda, Ayrton Senna, Kiichiro Toyoda, Ferruccio Lamborghini e, em um quadro maior, Chip Foose . “Esses caras fizeram nossa história. Sofreram para que a gente andasse em cima de um carro. Tem que ser fã deles”, diz Adhemar sobre os ídolos, reconhecíveis para quem está familiarizado com o mundo automotivo.

Honda, Ford, Lamborghini e os demais fundadores das montadoras – só pelo sobrenome talvez seja mais fácil identificar quais são – não estão sozinhos e dividem espaço com carrinhos, pneus e até uma carcaça de uma McLaren prateada, cor que a escuderia britânica adotou em 1997 e tem usado desde então, no escritório de Cabral, um misto de oficina e galpão na Vila Campestre, zona sul de São Paulo.

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É lá que Adhemar, de 43 anos, e sua equipe de sete funcionários constroem, muitas vezes do zero – é para isso que servem as miniaturas –, poltronas, réplicas de modelos da F1 e de aviões, cofres gigantes em forma de porco, simuladores de corrida e outras peças, quase tudo inspirado em uma das duas paixões do dono da AC Design: carros. “Aprendi a dirigir com meu pai aos 12 anos. A gente morava no interior, em Itaquaquecetuba, as ruas de lá eram tranquilas, ainda mais naquela época. E eu também montava muita coisa, tinha revista de destacar e montar”, lembra o empresário.

A segunda paixão – as baladas – também é cultivada desde a adolescência. “Morávamos em um sítio que tinha um galpão com cozinha industrial. Ela foi desativada e ficou o galpão. Como eu desenhava, fiz o rosto de cada integrante do Kiss nas quatro paredes, coloquei um som e transformei em uma balada. Cobrava um valor para entrar”, conta o designer, aos risos.

“UMA FASE MUITO DIVERTIDA”

Foi na vida noturna que Adhemar diz ter vivido uma das fases mais divertidas da vida. Depois de trabalhar na loja de aluguel de roupas formais, em uma agência de publicidade – os dois últimos negócios pertenciam ao tio –, com venda de carros e em seguida de imóveis, o empresário, com seus 20 e poucos anos, seguiu o conselho de um amigo e foi ser do “Clube das Mulheres” por uma noite.

“Fui dançar um dia, fiquei um ano. Era o auge, tinha a novela ‘De Corpo e Alma’ (cuja trama tinha um stripper masculino como destaque). É o sonho para qualquer cara com 20, 21 anos, todos boa pinta, viajando o Brasil inteiro, mulher se jogando... Foi uma fase muito divertida. Sua autoestima vai lá em cima, tem amigos meus que estão lá até hoje, é um negócio meio viciante. Era diversão pura, não me arrependo de nada”, afirma Cabral, que em cima dos palcos assumia os papéis de Zorro e Almirante.

Adhemar Cabral em sua época de
Arquivo pessoal/Adhemar Cabral
Adhemar Cabral em sua época de "Clube das Mulheres". "Não me arrependo de nada", diz

QUEBRADO

Mas nem tudo é farra. Adhemar empreendeu, teve “quatro baladas”, algumas delas em áreas nobres da capital paulista, e se viu quebrado em 2000. “A [balada] de Atibaia me deu um prejuízo gigantesco, eu não tinha dinheiro nem para pegar o ônibus, literalmente. Entrei em depressão. Minha irmã, morando na Itália, me convidou para trabalhar lá. Não tinha nada a perder mesmo, eu fui.”

Em Bibione, próximo da turística Veneza, ele deixou de ser o dono de balada das noites paulistanas para ser o “faz tudo” das italianas. “É até engraçado, eu fazia bicos às sextas-feiras e sábados, e na primeira vez, o cara mandou eu limpar a mesa, pegar os copos. Vi um filme na minha cabeça quando passei o primeiro paninho na mesa. Foram dois anos indo e voltando da Itália, foi uma experiência legal. Consegui levantar uma grana, voltei para cá e comecei a comprar carro de novo.”

DE VOLTA AOS CARROS

O trabalho que marcou o retorno de Adhemar de vez ao mundo dos carros foi a restauração de um Porsche Spyder 550, “o de James Dean”. Nascia a AC Cars, cujo símbolo carrega uma libélula, “leve, rápida e que ninguém pega”, e rebatiza depois de  AC Design por conta dos projetos do empresário que nada tinham a ver com carros, como pias, luminárias e as esculturas de cachorro da “Dog Art” e as de porco da “CoinC”. “Assim engloba tudo que faço”, explica.

Oficina de Adhemar produz banco para consultório de dentista, poltrona personalizada, cofre gigante de porco, cadeiras, pias, simuladores para jogos de corrida, cães para exposições de arte...
Arquivo pessoal/Adhemar Cabral
Oficina de Adhemar produz banco para consultório de dentista, poltrona personalizada, cofre gigante de porco, cadeiras, pias, simuladores para jogos de corrida, cães para exposições de arte...

No entanto, a menina dos olhos da empresa tem a ver com quatro rodas e está cuidadosamente embalada para viagem. É o simulador desenhado por Cabral e que deixa o jogador em posição parecida com a de um cockpit de F1. O “brinquedo”, vendido por R$ 2,5 mil cada, já chamou atenção da Ferrari e, a pedido dos italianos, chegou a ficar exposta durante o Grande Prêmio do Brasil, em novembro passado. “Fiz pouca divulgação. Vendemos uma média de 15 a 20 por mês, mas a ideia é chegar a 100. Estamos produzindo e estocando”, diz o designer.

E é com pelo menos 20 simuladores que o empresário espera unir suas duas paixões pela primeira vez: “Estou negociando para abrir o primeiro bar realmente temático de automobilismo no Brasil. Nessa grama – ele aponta para a foto do estabelecimento no computador – vai ter uma McLaren, lá dentro vão ter mini bicos, simuladores para campeonatos. Vou entrar com todos os produtos e a experiência de ter tido casa noturna. Estou pensando em ‘Fórmula Bar’, pesquisei de leve e não achei nenhuma lugar com esse nome, mas vou pesquisar direito”.

“VAI REVOLUCIONAR O MERCADO A NÍVEL MUNDIAL”

Outros três projetos ocupam a cabeça do empresário em relação ao futuro. O primeiro é terminar dois Porsches que atualmente estão na oficina, um 917 e um GT1, e correr com um deles nas 12 Horas de Tarumã, em Viamão, na região metropolitana de Porto Alegre; o segundo é pegar todos os modelos com motor e disponibilizá-los para quem quiser dirigi-los – ao custo de um preço, é claro – por algumas voltas em um circuito fechado, serviço que já existe em outros países; já o terceiro é mantido em sigilo.

“Tenho um projeto para esse ano em cima de um Fórmula 3, não posso falar porque é complicado. Aí chega alguém com grana e faz minha ideia em dois palitos. Vai revolucionar o mercado a nível mundial. Vai dar pau em Lamborghini, Ferrari, Porsche e vai custar um terço do preço de uma Ferrari. Vai chamar muita atenção, é para 2014”, se limita a dizer Adhemar.

Hoje eu acompanho [a F1] para pegar detalhes e referências do volante, da parte interna, porque os carros estão horrorosos. É um pior que o outro esse ano. Não tenho a menor inspiração, a Ferrari parece um bagre. A Caterham então, é uma das piores."

PROJETOS ESPECIAIS

Questionado sobre quais projetos o marcaram, o designer responde que a primeira McLaren de Ayrton Senna, elaborada a partir de uma miniatura com cerca de 20 centímetros, e a primeira Ferrari de Michael Schumacher, ambas construídas para decoração – elas costumam ser colocadas na parede ou no teto da casa dos clientes –, são importantes, mas lista dois que foram mais desafiadores.

Um cliente de Alphaville, na Grande São Paulo, encomendou a réplica do caça francês Mirage 2000, com mais de 14 metros de comprimento. O tamanho da garagem do colecionador, no entanto, fez com que o avião “encolhesse” para dez metros. O custo para ter um desses em casa? R$ 90 mil. Cabral até brinca que está em seus planos construir modelos menores, principalmente no caso dos monopostos, de até 1,80 m, porque nem todos os clientes têm espaço dentro de casa para uma MP4/8 em escala real: “Já perdi negócio porque a mulher do cara não queria de jeito nenhum, perdi a venda”.

O segundo projeto foi uma grande coincidência e é pedido de clientes do Rio do Janeiro. Você provavelmente ouvirá falar dele dentro de alguns dias. Fique ligado no iG para ficar por dentro do que vem por aí.

FÓRMULA 1 ATUAL

Se a McLaren de 1993 e as Ferraris de 1996 e de 2006 inspiram Adhemar e sua equipe, o mesmo não se pode dizer dos modelos atuais da F1. “Hoje eu acompanho para pegar detalhes e referências do volante, da parte interna, porque os carros estão horrorosos. É um pior que o outro esse ano. Não tenho a menor inspiração, a Ferrari parece um bagre, cabeçudo e com a boca embaixo. A Caterham então, é uma das piores”, critica o designer.

Ferrari e Caterham da temporada 2014 de Fórmula 1
Getty Images/Mark Thompson
Ferrari e Caterham da temporada 2014 de Fórmula 1

Longe das pistas profissionais, ele afirma admirar as montadoras que não têm medo de ousar. “Gosto de carro com personalidade, que não se parece com outro. Achei legal quando a Hyundai chegou ao Brasil com uma linha diferente, apesar do Veloster depois de um tempo, dá para fazer dois carros com a quantidade de linhas que ele tem. A Lexus é diferente, a Pagani... A BMW não ousa muito, a Mercedes-Benz também não, e não falo em qualidade, falo de desenho mesmo”, diz o empresário, que dirige normalmente um Cruze, mas que promete tirar mais o BMW 850 modificado – “tem 700 cavalos” – da garagem.

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