Criado no século retrasado, acessório representa 35% do faturamento da Victorinox, sua principal fabricante. Executivo e diretor criativo da marca também falaram ao iG sobre relógios inteligentes e o que esperam disso

Canivete representa 35% do faturamento de marca. 60 mil canivetes são produzidos todos os dias
Flickr/Victorinox
Canivete representa 35% do faturamento de marca. 60 mil canivetes são produzidos todos os dias


Aos 122 anos, ele recebeu as devidas atualizações ao longo de mais de um século, mas sua função primordial segue a mesma. Aparentemente alheio aos efeitos do tempo, o canivete suíço, comumente associado ao universo masculino, ainda hoje é o carro chefe da Victorinox, principal fabricante do acessório, e representa entre 30 e 35% do faturamento da marca suíça, de acordo com Karl Kieliger, diretor geral da empresa no Brasil.

Nascido na Suíça, mas a trabalho no Brasil – de onde não espera sair tão cedo – há quatro anos, Kieliger afirma que são produzidos diariamente 60 mil canivetes na região de Schwyz, no coração do país, estimativa que joga a produção anual para mais de 20 milhões de peças. “Temos modelos que vendemos há mais de 20, 30 que ainda estão na linha."

Combinados, um século de existência e uma produção anual de 20 milhões de peças soam como um negócio extremamente bem sucedido, mas há 12 anos, em setembro de 2001, a empresa se viu obrigada a acelerar o processo de diversificação de produtos, não podendo mais ficar concentrada no mercado de canivetes.

11 DE SETEMBRO

“O que aconteceu nos EUA afetou muito nossa venda nos primeiros dois anos. Vendíamos muito em aeroportos, hoje não vendemos quase nada. A empresa tinha começado a diversificar, mas este evento nos mostrou que temos que ter uma marca, não só um produto”, diz o executivo sobre a reação após o 11 de Setembro.

Em entrevista ao jornal britânico Guardian, Carl Elsener, bisneto de Karl, criador do canivete suíço original, disse em 2005 que eles nunca haviam pensado na hipótese de ver seus produtos confiscados e retidos. Viram, além disso, suas vendas despencarem imediatamente em 40%. “Uma absoluta catástrofe”, declarou o herdeiro do negócio à época.

Questionado se a empresa pensou ou pensa em criar canivetes sem lâmina para que fiquem liberados dentro dos aviões, ele responde que não: “Tem que ter, sem ela perde apelo”. Segundo Kieliger, as normas nos aeroportos chegaram a ficar um pouco mais flexíveis – ele diz que seu acessório com uma lâmina de três centímetros passou sem problemas em um voo recente no Brasil –, mas os atentados durante a Maratona de Boston reverteram esse quadro.

Karl Kieliger
Brunno Kono/iG São Paulo
Karl Kieliger

DIVERSIFICANDO

Um dos segmentos que mais recebe atenção da marca é o de relógios, responsável por até 25% das vendas, perdendo apensa para os canivetes. Quem comanda esse setor da Victorinox, em termos de criação, é o espanhol François Nunez, espanhol de nascença e suíço de criação.

Nunez esteve no Brasil pela primeira vez na semana passada e diz que o mercado nacional merece uma atenção especial. “Tenho viajado para Índia e China, posso ver que há uma diferença nos métodos de gastar. As pessoas estão dispostas a se vestir bem, consumir marcas, não é algo que vejo nos países emergentes, não vejo isso aqui.”

Kieliger reforça a posição do diretor de criação: “No momento, o Brasil é o 22° mercado mais importante para nós. Nossa tentativa é elevar a marca para entrar nos primeiros 15 nos próximos três anos”. Os líderes deste ranking são, nesta ordem, EUA, Suíça e Alemanha.

SMARTWATCH

François se diz “empolgado” com a chegada dos relógios inteligentes que tiram fotos e se conectam ao celular, características difíceis de imaginar em um acessório da marca. “Nós iremos nos adaptar, este é exatamente o desafio. Acho interessante que isso esteja acontecendo, a missão é saber que isso está acontecendo. Se recusar a reconhecer é um erro. Pelo o que eu vi, eu poderia fazer [os relógios como são hoje] com a tecnologia disponível hoje na Victorinox.”

Embora não seja fã do design dos modelos já lançados ou divulgados, o diretor de criação comenta que um possível relógio vindo de Cupertino pode facilitar a aceitação e divaga sobre como a marca suíça vai reagir. “Me lembro de dizer que eu não ia entrar na web pelo celular, mas aí a Apple tornou tudo muito conveniente e bonito. Não digo que iremos [fazer] porque é muito cedo, se fizermos, será com uma qualidade que nós não temos ainda”, afirma.

Relógio de François Nunez:
Brunno Kono/iG São Paulo
Relógio de François Nunez: "O mais barato"

O RELÓGIO DE CADA HOMEM

Para o espanhol, “o importante é que esses objetos correspondam com você”. “Não espero que ninguém tenha um relógio, o importante é que ele esteja de acordo com seu estilo de vida, e isso é o mais difícil de conseguir. Meu estilo é mais sobre discrição, sobre funcional. Gosto da ideia de que [o relógio] não é sobre tentar distrair", completa. Já sobre o modelo que usa, ele brinca, antes da cair na risada: “O mais barato”.

EDIÇÕES INSPIRADAS EM BRASILEIROS

Perguntado sobre qual brasileiro o inspiraria a fazer um relógio, a exemplo do que a também suíça Hublot fez recentemente com Ayrton Senna e Gustavo Kuerten, François foge da esfera esportiva. “Infelizmente, ele já morreu. Seria o Oscar Niemeyer, eu quase fiz [quando estava em outra grife], sou obcecado por seu trabalho. E como também sou do design, se pudesse trabalhar com alguém no Brasil, seriam os irmãos [Fernando e Humberto] Campana.”

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