Propaganda de lâminas de barbear com suposto "preconceito contra homens peludos" chegou a parar no Conar e foi alvo de protestos, mas donos de clínicas de estética dizem que clientela masculina é grande e quase sempre vai para depilar pelos do corpo

Sabrina Sato com as gêmeas Bia e Branca Feres em publicidade que pedia o fim dos pelos do peito masculino
Reprodução/Facebook
Sabrina Sato com as gêmeas Bia e Branca Feres em publicidade que pedia o fim dos pelos do peito masculino

Não faz muito tempo que uma propaganda de lâminas de barbear foi parar no Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) por conta de um suposto “preconceito contra homens peludos”. O processo acabou arquivado, assim como a campanha, estrelada por Sabrina Sato, as gêmeas Bia e Branca Feres e o cantor sul-coreano Psy, alçado à época ao status de estrela mundial por conta da música “Gangnam Style”.

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No vídeo da campanha, que foi tirada pela Gillette, responsável pela peça, de seu canal oficial no YouTube, Sabrina, Bia e Branca criticam os homens peludos na praia e têm a ideia de trazer Psy, com “peito liso”, para servir de exemplo, fazendo ainda um desafio: “Pra me beijar, pra me abraçar, pra me pegar, quero ver raspar”. Parte da ala masculina não gostou de ver um padrão estético sendo imposto e logo se manifestou, mas se a marca de lâminas de barbear saiu no prejuízo, clínicas de estética aparentemente não têm do que reclamar de falta de procura.

“Se a gente pegar o banco de dados, tem unidade onde a porcentagem de clientes masculinos é bem considerável”, diz Lia Leardini, coordenadora técnica da Não + Pêlo no estado de São Paulo. Em junho passado, a clínica adotou uma campanha parecida com a condenada pelos consumidores meses antes, mas com um tom menos agressivo. “Foi para o Dia dos Namorados, a campanha dizia ‘sua namorada adota um ursinho de pelúcia, desde que não seja você’.” Entre os serviços mais buscados, a fisioterapeuta dermatofuncional destaca a depilação no peito e nas costas: “São muito procurados, seguido da região dos ombros. É questão de estética, de uma maneira geral eles não gostam dos pelos”.

“O cara mais jovem vem pela estética ou por causa dessa onde de musculação, de que sem pelo mostra melhor o músculo. Agora, chegando na minha faixa de idade, de 40 a 45 anos, o cara está incomodado com o pelo, olha para as costas. Eu olho para as minhas costas, no peito não me incomoda, mas nas costas incomoda, às vezes o cara não vai para a praia”, descreve Manoel Brandão, de 47 anos, empresário e dono de duas franquias de clínicas de depilação em São Paulo – a unidade do Jardins, área nobre da cidade, é a que mais tem homens na rede Não + Pêlo, “até 40%”.

“ESPÉCIE EM EXTINÇÃO”

“Com a proximidade do verão, a procura tem aumentado, o pessoal volta a fazer academia e verão aqui no Rio, todo mundo anda nu. Por causa da academia, piscina, praia, os rapazes procuram bastante a depilação”, diz Rober Borsato, dono da Red Salon Homem, espaço na capital fluminense com serviços estéticos voltados para público masculino.

Embora destaque algumas características do Rio, o empresário de 44 anos diz ter vários clientes de São Paulo, oriundos da ponte aérea. “O paulista é muito ligado nessa de cuidar do corpo, de malhar. Temos até várias solicitações para abrir um salão lá.” Ele opina que a vaidade e a opinião feminina são os fatores que fazem homem ir ao salão: “Acho que é uma combinação de se sentir melhor e porque a namorada prefere”. O próprio afirma ser adepto do tratamento no peito e no abdômen, “aprovado” pela esposa e vê nos peludos uma “espécie em extinção”.

“MÉDIA DE 35% DO MEU PÚBLICO É MASCULINO”

Ribeirão Preto, no interior de SP, não tem praia como o Rio, mas basta conhecer um ribeirão-pretano que ele fará piadas com o calor de “Hellbeirão”, brincadeira com “hell”, inferno em inglês. Proprietária de uma franquia de clínica de estética na cidade há dois anos, Letícia França conta que em média 35% do seu público é composto por homens na faixa entre 25 e 40 anos. “Geralmente o [tratamento de depilação] mais procurado é peito, abdômen, costas. Acho que mais por estética.”

Formada em Hotelaria, a agora empresária não dá tantos créditos ao forte calor do interior paulista. “Acho que é um pouco ditado. É minha opinião, não tem nada comprovado, mas o Neymar está ditando muita moda pela falta de pelos, está virando ícone. Outra coisa que acho é que esportes como corrida e bicicleta estão em alta, e quanto menos pelos, melhor.”

Clientes de Letícia, Aguinaldo e Cassiano depilam o peito há alguns anos. O primeiro, estudante de publicidade e propaganda de 26 anos e autor do blog Manual Masculino, optou pela fotodepilação, especialidade da clínica em que vai, após tentativas não muito bem sucedidas em casa. “A cera me incomodava muito, irritava a pele, agora não afeta tanto. Escolhi porque é menos dolorido”, relata Aguinaldo Pedreschi, que diz nunca ter sido fã de pelos.

A aversão de Pedreschi é compartilhada por Cassiano Nascimento. “Comecei a fazer academia, acabei gostando, e por ser verão, coisas assim, achei melhor deixar liso. Resolvi tirar”, conta o empresário de 30 anos. Questionados se viraram alvo de piadas dos amigos, ambos dizem que não. “Ninguém acha que é frescura, tenho amigos que fazem [depilação] de outros tipos, mas fazem”, rebate Aguinaldo. “Todo mundo gostou”, completa Nascimento.

Hugh Jackman, em
Divulgação
Hugh Jackman, em "Wolverine: Imortal": pelos aparados, mas não completamente depilados

MAIS MITO DO QUE ADESÃO

Para Leonardo Filomeno, criador do site Manual do Homem Moderno, a ideia do homem ter o peito completamente depilado não vai muito de acordo com o que ele observa. “Pelo nas costas pode incomodar, mas no peito, essa coisa de raspar geral, acho que é mais mito do que adesão das pessoas em si. Vejo o retorno que os leitores dão, conversando com amigos, nesse universo que eu ando não tem essa preferência. Se for para perguntar, a maioria realmente acha que pelos nas costas é demais, mas no peito acredito que não tenha muita rejeição.”

Aos 29 anos, o jornalista confessa que já raspou algumas partes do corpo por conta do esporte – natação – que praticou “há uns dez anos”, mas que hoje recorre às aparadas “nos pelos das axilas”, nada de máquina zero. “Raspar geral? Não, não sou adepto.” Ele brinca ao dizer que “ninguém quer ser um Tony Ramos da vida”, mas critica o fato da imagem masculina ser tratada, pelo menos neste aspecto, como “8 ou 80”: “Se você tem pelo é nojento, porco, ninguém te quer. Você tem que raspar, usar os mecanismos para eliminar isso da sua vida”. Filomeno classifica uma propaganda recente de espuma de barbear – assista aqui – como mais “emblemática” e “sem preconceitos”.

SEM VERGONHA

Embora diga que os clientes homens são reservados, Lia afirma que eles se “cuidam tanto quanto as mulheres” e gostam de ser depilados. “O homem está perdendo o preconceito. Poucos vêm por causa da namorada, eles só falam que vêm por causa delas quando é uma depilação mais íntima, da virilha, aí dizem que elas que sugeriram”, completa Manoel.

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