Considerado um dos grandes nomes na moda masculina brasileira, estilista falou sobre o início na alfaiataria a partir da motovelocidade, do começo na SPFW, a estratégia para tornar a marca reconhecida e o estilo do homem brasileiro

Ricardo Almeida piloto de corridas?
André Giorgi
Ricardo Almeida piloto de corridas? "Iria me dedicar bastante que nem me dedico na parte da alfaiataria"

Se não fosse estilista e um dos profissionais mais conhecidos do Brasil quando o assunto é moda masculina, Ricardo Almeida talvez tivesse permanecido no ramo que o levou de vez para a alfaiataria: a motovelocidade. Apaixonado por duas rodas, ele chegou a competir na juventude, mas deixou as pistas ao aceitar a proposta para ser representante de vendas de uma camisaria, justamente quando procurava patrocínios para ficar nelas. Como piloto, sugere que seria um dos bons.

“Quando a moto não quebrava eu chegava bem. Cheguei em segundo, em terceiro, a primeira [corrida] eu não participei, a quarta eu não tinha pneus de chuva, a moto também caiu”, diz Ricardo, quase sempre franzindo o olho esquerdo para se recordar dos detalhes das quatro participantes.

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A carreira como piloto não decolou, mas a paixão por motos sobreviveu, embora o estilista afirme que boa parte delas “está parada”. “Estou andando com a Vespa da minha namorada”, diz Ricardo sobre a pequena moto branca que usou para ir até sua loja no Jardins, zona sul de São Paulo, onde recebe clientes e onde recebeu o iG.

Depois de aprender a modelar e montar peças com “Seu Raimundo” na camisaria, Almeida saiu da camisaria e entrou como sócio em uma fábrica, onde ficou por quatro antes de abrir a marca que leva seu nome, em 1985. Foi em meados dos anos 90 que ele emplacou um terno de três botões no personagem do ator Edson Celulari na novela “Explode Coração”. Ricardo, de 58 anos, não especifica um momento em que passou a ter globais e outras celebridades em sua clientela, mas afirma que o uso de famosos na passarela, visto com maus olhos por parte da imprensa especializada, foi uma estratégia – que deu certo – para chamar atenção.

“Foi uma estratégia que usei para uma marca masculina crescer. Comecei o SPFW (São Paulo Fashion Week), vamos dizer, como o patinho feio, única marca masculina, sem evidência, sem apelo. Aí a gente foi mostrando que nossas salas sempre eram cheias. No mundo da moda o certo é não ter famosos, se você for pensar em moda. Se for pensar em mídia, você precisa de alguém de gancho."

Ele diz que não pagava os famosos, clientes que “viraram amigos”. Amigos famosos aparentemente não faltam. Roberto Justus, Tom Cavalcante, Lulu Santos, Gustavo Borges, Latino e Serginho Groisman, além de Celulari, são alguns dos que foram modelos por um dia no desfile em comemoração aos 25 anos da marca, em 2011.

Sentado na poltrona de seu escritório, Ricardo falou – e atrasou o atendimentos de alguns clientes do interior paulista em alguns minutos por conta da entrevista – sobre a paixão pelas motos, a experiência de trabalhar com o ex-presidente Lula, que “sabia dar nó de gravata muito bem”, com uma companhia aérea, projeto que não faria novamente, do estilo do homem brasileiro e do porquê não joga mais futebol, embora revele que só pratica esportes no seu tempo livre. Veja como foi a conversa:

iG: Você é apaixonado por motos e chegou a competir. Como surgiu a alfaiataria?
Ricardo Almeida:   Eu corria de motocicleta, fui atrás de patrocinador no meio da moda, acabei arrumando um emprego no meio da moda, mas não o patrocínio. Parei de correr de moto, tenho até hoje, faz tempo que ando de moto, estou andando com a Vespa da minha namorada. As minhas estão paradas.

iG: Quando foi isso? Você corria em qual categoria?
Ricardo Almeida:  Tinha uns 19 anos, foi em 74, 75. Corria em uma categoria de 350 [cilindradas]. Quando a moto não quebrava eu ia bem. Corri junto com as 500 [cilindradas], mesmo com as 500, cheguei em segundo, cheguei em terceiro, a primeira [corrida] não fiz, a quarta eu não tinha pneu de chuva, a moto também caiu. Quebrar era um problema, mas eu ia bem.

iG: Acha que teria sido um melhor piloto do que estilista?
Ricardo Almeida:  Acho que se continuasse piloto ia me dedicar bastante que nem me dedico na alfaiataria. Tudo envolve dedicação, se você se dedicar você vai se dar bem. Na época, eu preparava a moto, bancava tudo, não era tão simples. Fiquei um ano quebrando a moto, quando ela ficou boa eu brigava com as 500.

iG: E o primeiro emprego no mundo da moda? Como virou estilista?
Ricardo Almeida:  Na realidade, antes eu trabalhava na loja do meu pai (especializada em cama, mesa e banho) como representante de vendas. Quando virei representante de vendas em uma camisaria, eu já sabia como tinha de agir. Pedi para os patrões da época para comprar tecido e criar porque se eu criasse camisas diferentes, com golas diferentes, eu ia vender e ganhar mais porque era comissionado. Foi uma alternativa para ganhar mais dinheiro.

iG: Quando decidiu abrir o próprio negócio?
Ricardo Almeida:
 Quando saí da camisaria, entrei como sócio em uma fábrica que fazia calças masculinas e femininas, bermudas. Na camisaria aprendi a modelar com o modelista deles, o Seu Raimundo, comecei a ter noção de como montar uma peça. Entrei de sócio nessa outra, tinha 30%, fiquei quatro anos, acabei saindo e montando minha própria marca. Fiz a Ricardo Almeida em 85, as lojas vieram em 91.

André Giorgi
"Comecei o SPFW como o patinho feio, sem apelo"

iG: Foi o trabalho com novelas, em particular com o Edson Celulari, que te tornou famoso?
Ricardo Almeida:  A gente sempre fez figurino de várias novelas, e teve essa, “Explode Coração”, do Edson Celulari. A Marília Carneiro [figurinista da novela] queria um jaquetão, mas falei com ela que se [o personagem de Celulari] era um executivo antenado com o que acontece no mundo, o paletó de três botões, que eu já tinha na minha loja junto com a calça sem pregas, era melhor. Por sorte foram gravar no Japão e chegando lá não existia jaquetão, era tudo três botões. Infelizmente, na época não aceitaram a calça, ela demorou mais dois anos para entrar no mercado brasileiro. As pessoas acreditam muito no que está acontecendo na novela. A mulherada cobrava os maridos.

iG: E foi isso que te tornou mais famoso?
Ricardo Almeida:  Não sei. Toda coleção sempre sobe mais um degrau a cada ano. Foi mais um degrau que a gente subiu, eu enxergo assim. São várias ações, vai formando uma história, uma base sólida, acaba acontecendo por conta disso.

iG: Foi a partir daí que você começou a ter famosos em seus desfiles?
Ricardo Almeida:  Quando eu comecei o SPFW, eu era única marca masculina. As pessoas iam para ver as meninas, dificilmente queriam ver roupa de homem. Meu segundo desfile foi com o Edson, deu retorno na mídia. As mulheres queriam vê-lo, chamavam os maridos, namorados. Foi uma estratégia que usei para uma marca masculina crescer. Comecei o SPFW, vamos dizer, como o patinho feio, sem evidência, sem apelo, aí a gente foi mostrando que nossas salas sempre eram cheias. Fui aumentando o número de pessoas conhecidas, eu não pagava, eram clientes que viraram amigos meus, eu pedia para fazer e eles faziam na maior boa vontade. Um ano eu exagerei. No mundo da moda o certo é não ter famosos desfilando se for pensar em moda, vão falar da pessoa, não da roupa. Se for pensar em mídia você precisa de alguém de gancho. Isso mudou bastante. Pega o desfile da Victoria’s [Secrets], são modelos consagradas, mas é show, tem cantores ao vivo, isso aí eu já fiz antes, depois virou tendência.

iG: E as críticas?
Ricardo Almeida:  Como houve uma crítica muito forte, acabei o desfile [de 2000] e pensei que ia fazer o próximo com todo mundo de rosto coberto. Foi o que fiz. Foi engraçado porque os modelos falaram que iam desfilar, e cinco minutos antes a gente disse para todos cobrirem o rosto. Foi uma choradeira entre aspas, mas somos profissionais. Aí fiz uns dois desfiles sem famosos, só que o retorno de mídia foi muito menor. O pessoal critica, aí você não põe [famosos] eles também não dão espaço. Voltei a usar e ignorei. Não vou ficar dando ouvidos.

iG: Falando de projetos diferentes, você foi estilista do ex-presidente Lula, como surgiu o convite?
Ricardo Almeida:  Não fui o estilista. Fui contratado pelo Duda Mendonça para mudar o figurino dele na campanha. Fiz a pré-campanha e depois que foi eleito, atendi nos oito anos. Ele não era de ficar comprando muito, não comprava dez ternos por mês, até porque eles duram. No final do mandato, ele disse que o terno da posse ainda estava bom.

iG: Acompanha as aparições do Lula após a presidência? Acha que ele manteve o mesmo estilo?
Ricardo Almeida:  Não tenho o encontrado atualmente. Acho que não o ensine, fiz uma roupa na medida dele. A roupa do dia a dia é ele quem resolve, imagina que eu vou falar alguma coisa. Ele tem noção. A não ser que fosse totalmente sem noção, aí eu falaria alguma coisa, mas não era o caso. Inclusive ele sabe dar nó de gravata muito bem.

iG: Você já está sendo consultado para trabalhar na pré-campanha de alguém?
Ricardo Almeida:  A gente faz roupa para vários governadores, deputados, senadoras. Todo mundo que vem, chama, a gente faz. Eu prefiro não falar de quem atendo e quem não atendo. Prefiro que eles falem se quiserem.

iG: Pensando em como você mudou a imagem do Lula, o estilo do homem brasileiro mudou de uns 15, 20 anos para cá?
Ricardo Almeida:  Com certeza, hoje tem muito menos preconceito. Homem pode fazer depilação, implante de cabelo, tirar pelo do peito. O preconceito com o homem que fazia compras não existe mais, há 30 anos o cara saía para fazer compras, as pessoas falavam ‘errrr’. Hoje é importante ter uma boa apresentação.

iG: Baseado no que você ouve dos clientes, o homem brasileiro se inspira em algum estilo?
Ricardo Almeida:  Acho que eles nem falam. Me procuram para eu falar o que eles devem usar, alguns trazem fotos, mas não gosto porque a pessoa pede uma roupa igual ou igual de um famoso que casou, aí todo mundo vai querer roupa de alguém, fica horrível. O book que eu tenho é um problema que não sei como administrar, a pessoa vê e diz ‘quero igual essa’. Lógico, casamento, por exemplo, o terno é cinza ou preto, a gravata é normalmente branca, mas sempre tem um desenho, um riscado, xadrez. Isso me dá a condição de mexer ou de nem lembrar o que fiz para o outro.

iG: Um segundo projeto diferente foi desenhar o uniforme dos comissários da Gol...
Ricardo Almeida:  Isso foi há muito tempo, tem mais de dez anos (foi em 2001). Na época eu e a Glória [Kalil] fomos contratados para fazer o desenho do uniforme, ela no feminino, eu no masculino. A Gol entrou com preços mais acessíveis, usaram isso como marketing, ao meu modo de ver, para dizer que não é porque tem preço acessível que é coisa ruim.

iG: Acha que se aproveitaram do seu nome, já estabelecido, para alavancar o deles?
Ricardo Almeida:  Não, acho que todo trabalho que você faz é legal, senão é melhor você não fazer o trabalho. É uma coisa acertada pelos dois lados. Não é o trabalho que faço hoje porque não tenho esse tempo de ficar pensando em uniforme disso, daquilo. Hoje eu prefiro não fazer, mas na época foi bom. O Constantino [de Oliveira Júnior, fundador da companhia aérea] é amigo meu, para ele a gente faz (risos), para o Joaquim [Constantino Neto, seu irmão].

iG: Sua marca está presente no exterior?
Ricardo Almeida:  Não, atendo clientes do exterior e exporto sapatos.

iG: Tem planos de expandir?
Ricardo Almeida:  Tenho. Vamos montar algo lá fora daqui a dois anos. A gente exporta sapatos. Uso Ricardo Almeida no Brasil, lá fora eu uso Enrico Boaretto, que é meu sócio. Fizemos uma feira lá fora, vendemos 12 mil pares, o que para nós é bom.

iG: Por que usar o nome do sócio?
Ricardo Almeida:  Porque o nome dele é italiano, tem apelo, embora o Brasil esteja em evidência. Talvez a gente monte algo em paralelo, mas por enquanto é melhor investir em uma coisa só.

iG: O que você faz fora daqui, longe do trabalho?
Ricardo Almeida:  Esporte. Costumo fazer esporte nas horas vagas.

iG: Joga o quê?
Ricardo Almeida:  Jogo qualquer coisa, faço qualquer coisa de esporte. Gosto de tênis, wakeboard, que é o que eu mais tenho feito agora. Adoro ping pong

iG: Você quer dizer tênis de mesa...
Ricardo Almeida:  Tênis de mesa, é verdade. É que “ping pong” é mais popular (risos).

iG: E você torce para qual time?
Ricardo Almeida:  Gosto de torcer para jogadores. Um que estou torcendo bastante é o Neymar, como já torci para o Zico, Marcelinho Carioca, aqueles chutes canhões do Roberto Carlos, Falcão, Maradona, Pelé, Sócrates. Não sou muito de time, toda boa jogada é legal de se ver, quero mais gente jogando assim. E eu gosto de jogar, agora não tenho jogado mais para não me machucar. Eu tinha campo em casa, todo mundo jogava três vezes por semana. Agora é melhor não jogar futebol e jogar o restante. Só jogo com os pequenos, os pequenos de dez anos não vão me machucar (risos).

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