Motivados pelo calor e por reclamações no Facebook, publicitários cariocas pedem a adoção da bermuda em ambientes corporativos. Para administrador, áreas mais tradicionais dificilmente vão mudar a política

Movimento
Bermuda Sim/Christopher Hernández
Movimento "Bermuda Sim" começou no Rio de Janeiro, mas acabou se expandindo para outras cidades

Foi com ares de contratação de futebol que a agência do publicitário Washington Olivetto confirmou ontem, pelo Facebook, a chegada de seu “novo reforço na criação”, Ricardo Rulière. Aos 26 anos, Rulière é um dos criadores, ao lado dos também publicitários Guilherme Anchieta e Vitor Damasceno, do “ Bermuda Sim ”, movimento que defende o uso da peça em ambientes corporativos.

Criado no Rio de Janeiro, onde a temperatura máxima pelos próximos dias está prevista para variar entre 38°C e 40°C, o movimento manda e-mails anônimos para empresas, a pedidos dos funcionários, e pede que a bermuda seja liberada durante o verão. Rulière conta que ele, Guilherme e Vitor tiveram a ideia a partir das reclamações dos amigos no Facebook – onde mais? – e que a ideia é promover uma “mudança cultural”: “Queremos provar que não é a roupa que faz o profissional. Usar bermuda ou não usar gravata não interfere no rendimento, a pessoa fica mais confortável”.

Apesar do berço carioca, o “Bermuda Sim” surpreendeu os criadores aos migrar para outras cidades, igualmente quentes nesta época do ano. “A gente sabia que ia fazer um barulho, mas achava que ia ser só no Rio. Começamos a ter uma adesão maior em São Paulo, aí passamos a fazer posts para outros lugares”, diz Ricardo. O publicitário afirma que eles recebem cerca de dois mil e-mails por dia, reencaminhados automaticamente para as empresas. Os “chefes”, no entanto, não recebem o pedido duas vezes “senão fica chato, querer ganhar pelo cansaço não vale”.

“PESSOAS MAIS SATISFEITAS ATENDEM MELHOR”

Para Luiz Edmundo Rosa, diretor da Associação Brasileira de Recursos Humanos, “tudo que puder ser feito para descontrair o ambiente pode ter reflexos no bem estar das pessoas”. Desta forma, “pessoas mais satisfeitas atendem melhor”. Ele defende que é preciso “modernizar as vestimentas de trabalho” e cita o turismo, setor que deve ser movimentado com a chegada de estrangeiros para a Copa do Mundo e Olimpíadas, como exemplo: “Os clientes são todos descontraídos. O garçom precisa estar de terno para atender o turista à beira da piscina? Temos vários setores no Brasil que são conservadores, quando o Brasil deveria ser um exemplo”.

Rosa só pede que a bermuda não seja vista como solução para tudo. “Não pode generalizar porque grande parte dos ambientes é refrigerada, tem temperaturas baixas, outro dia peguei avião com um cara que estava morrendo de frio ao meu lado. Acho que a bermuda, sem dúvidas, serve para vários ambientes de trabalho, mas não para qualquer coisa. Não é adequada para ambientes industriais, por razões de segurança, ou hospitalares, por exemplo.”

BERMUDA SIM, MAS COM REGRAS NÃO ESCRITAS DE CONVIVÊNCIA

Situação comum para quem trabalha de social
Reprodução
Situação comum para quem trabalha de social

Cofundador da startup Geekie, em São Paulo, Eduardo Bontempo diz que sempre deu liberdade aos funcionários desde o começo, há cerca de dois anos. Além do espírito descontraído que uma startup traz consigo, o administrador revela que as “dificuldades de uma empresa pequena” também influenciaram. “O ar condicionado não é o mais potente possível, então até como tentativa de minimizar os efeitos da estrutura, que não é a ideal, adotamos essa política. As pessoas vêm de bermuda, chinelo. Nunca tivemos problemas.”

A única preocupação de Bontempo é que a liberdade não seja confundida com bagunça. “Existem algumas regras de convivência, a gente não deixa escrito na parede, é regra de bom senso. Não chegamos a proibir, mas acho que as pessoas, de certa forma, vão se adequando com base no grupo. Camisetas de times, por exemplo, são evitadas. E fato é que a gente recebe clientes no escritório, não podemos passar uma imagem que possa ser ruim.” Questionado se os clientes, alguns da área de educação, reclamam, Eduardo diz que não e que eles até fazem piada: “Falam que gostariam de poder trabalhar assim. Vai muito na brincadeira”.

De olho nisso que os criadores do “Bermuda Sim” também elaboraram os dez “Bermudamentos” do movimento. “É uma maneira de criar um bom senso. Você se diverte lendo. É um país quente, tropical, mas também não é para chutar o balde”, brinca Ricardo. Veja abaixo quais são:

1. Bermuda só a partir dos 29,8°C.
2. Tamanho da bermuda: 3 dedos acima ou abaixo do joelho.
3. Short de surfe não é bermuda.
4. Uniforme de time não é bermuda.
5. Samba-canção... Ah toma vergonha na cara.
6. É proibido usar floral. Proibido! Em qualquer lugar!
7. Dia de reunião, nada de bermuda!
8. Não é porque está de bermuda que pode usar regata.
9. Se mais de 2 pessoas zoarem sua bermuda, é porque ela não é apropriada.
10. Não repetir a bermuda mais de 2 vezes na semana. Não força, vai

A VISÃO DE QUEM É E ESTÁ LÁ FORA

Movimento rendeu até emprego novo para criador
Reprodução
Movimento rendeu até emprego novo para criador

“Grande parte do time que temos aqui já trabalhou em empresas de tecnologia no próprio Vale do Silício, e as empresas de lá têm muito essa questão de liberdade. Sempre admiramos isso, ainda mais no país em que vivemos, com as temperaturas que enfrentamos. É uma coisa pequena para se criar problemas, os americanos julgam muito bem a capacidade intelectual sem ser pela aparência”, diz Eduardo.

“Na maioria das empresas em que eu já fui a roupa casual é permitida. Não sei muito bem como funciona em ambientes formais aqui”, diz Irineu Strenger, há dois anos nos EUA, onde estudou gestão de projetos na cidade de Los Angeles, na Califórnia. Do outro lado do país, Diego Lecuona, atualmente em um escritório de advocacia em Nova York, acredita que o cenário na Big Apple é muito parecido com o do Brasil: “É um tabu. Eu não vi ninguém trabalhando de bermuda durante o verão, que também é muito quente. Dificilmente, para não dizer nunca, você vai ver um funcionário público, advogado ou alguém de uma profissão mais formal usando bermuda. É mais ou menos como aí”.

Vice-cônsul da Turquia em São Paulo, Yildiz Atlan desconhecia o movimento pró-bermudas, mas se disse, pessoalmente, a favor da ideia. Yildiz conta que, em seu país, a maioria dos homens está acostumada com o terno e gravata e dificilmente adotaria uma mudança como essa logo de cara. Já o marido, francês e professor de matemática em uma escola da capital paulista, “usa a roupa que achar melhor”.

“PARA LIBERAR A PERNA TEM QUE USAR A CARA”

Não é todo mundo que se anima com a ideia dos publicitários cariocas. “Tivemos poucas respostas negativas. As empresas ou ignoram ou respondem dizendo que é um absurdo, que não condiz com o perfil, que para liberar a perna tem que usar a cara. São respostas curtas”, diz Ricardo, fazendo referência ao anonimato garantido pelo site.

Ele revela que o site mandou e-mails para bancos e montadoras de carros tradicionais, mas que não obteve resposta. Na avaliação de Bontempo, áreas mais tradicionais não vão mudar. “Trabalhei muito tempo com bancos de investimentos, sempre de terno e gravata. Acho muito difícil conseguir mudar essa realidade, esse movimento tem um tom de uma geração mais jovem, pessoas que valorizam outras coisas na carreira profissional. Opinião minha, mas não vejo a força e capacidade para fazer essa mudança em grandes instituições.”

MUDANÇAS

No Rio de Janeiro, o prefeito Eduardo Paes autorizou o uso de bermudas e calças na altura dos joelhos para servidores municipais, motoristas de táxi, de ônibus e cobradores. O decreto é válido até o final de março, quando acaba o verão. A pedidos da OAB no Rio e no Espírito Santo, o uso do paletó e gravata para os advogados tornou-se facultativo. Em Goiás, a entidade já solicitou o mesmo.

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