A briga contra os ternos industriais e vendidos prontos para usar parece complicada, mas marcas napolitanas vão indo bem. Criada em 56, a Kiton registrou 105 milhões de euros de vendas no ano passado

Alfaiate trabalha no paletó em uma fábrica de Arzano, nos arredores de Nápoles
Gianni Cipriano/The New York Times
Alfaiate trabalha no paletó em uma fábrica de Arzano, nos arredores de Nápoles

Em um porão numa rua onde motocicletas e buzinas abafam até mesmo os insistentes sinos da igreja, Davide Tofani está trabalhando num típico paletó napolitano. "Quando faço um terno, é como se estivesse moldando uma segunda pele para meu cliente", afirmou o alfaiate. "Não consigo pensar em fazer um terno sem conhecer o corpo que irá usá-lo."

No último século, o alfaiate pessoal, trabalhando cara a cara com o cliente, tornou-se tão símbolo de Nápoles, na Itália, quanto suas esculturas romanas e igrejas barrocas. Muitos homens socializando com amigos nas ruas da cidade ou sentados em bancos da praça vestem paletós elegantes, de tweed ou linho, leves – e indiscutivelmente feitos sob medida.

E os alfaiates napolitanos parecem mais bem-sucedidos em adentrar o século 21 do que a própria cidade. Como as águas da baía que sobem e descem ao longo da costa, eles tiveram anos bons e ruins. Hoje, porém, o terno sob medida está de volta e indo bem, mesmo contra o desafio dos ternos industriais e prontos para vestir.

Para mostrar que a maré da alfaiataria mudou, os grandes nomes em Nápoles abriram lojas no mundo todo. Eles também mandam especialistas até seus clientes, ou lhes oferecem uma recepção do tipo "lar longe de casa" na Itália.

Rubinacci é um desses nomes. A loja aqui fica acima da Via Chiaia, em parte do Palazzo Cellamare – com sua imponente escadaria e o histórico de acomodar o artista Caravaggio. Os alfaiates, que trabalham manualmente em salas acima da loja, têm vista para o amplo edifício de pedra até o mar na baía.

Antonio De Matteis, presidente da Kiton, na sede da empresa, em Arzano
Gianni Cipriano/The New York Times
Antonio De Matteis, presidente da Kiton, na sede da empresa, em Arzano

Mariano Rubinacci, sentado sob o sol de abril num banco em frente à loja, parece um alfaiate da velha guarda num paletó impecável e uma das mesmas gravatas à venda na loja, abaixo de uma foto de seu pai. Mas ele e sua família estão sempre viajando. Seu filho Luca é o diretor criativo da marca, e "está sempre num avião do Cazaquistão a Nova York, Coreia ou Cingapura", diz o pai. Sua filha Chiara complementa seu irmão gêmeo administrando a loja de sete anos em Mount Street, em Londres.

Fora do centro da cidade, na área industrial de Arzano, fica a casa da Kiton. A marca é reconhecida por sua alfaiataria, fundada em um conjunto de edifícios conectados por um corredor de vidro que exibe peças formais do guarda-roupa do Duque de Windsor, o rei britânico que abdicou por amor.

A Kiton foi fundada em 1956 por Ciro Paone, um vendedor de tecidos da quinta geração que deu um passo visionário em alfaiataria, de acordo com seu sobrinho, Antonio De Matteis, atual diretor executivo da empresa. Outro sobrinho, Antonio Paone, é o presidente e comanda o negócio nos Estados Unidos.

Na cantina dos funcionários, Paone, que usa uma cadeira de rodas como resultado de um derrame, almoçava com outros membros da família, incluindo sua filha Rafaella e os primos dela.

Alfaiates trabalham na fábrica da Kiton, na Itália. São cerca de 350 funcionários
Gianni Cipriano/The New York Times
Alfaiates trabalham na fábrica da Kiton, na Itália. São cerca de 350 funcionários

A empresa encontra-se num elegante palazzo decorado com móveis históricos e arte moderna, comprada para celebrar cada ano lucrativo. Por trás desses floreios, ligada à parte traseira do prédio, fica a ampla oficina para os 350 alfaiates da Kiton, que criam painéis frontais, costas, colarinhos, bolsos ou lapelas na fábrica artesanal (um alfaiate sob medida tradicional faria o paletó inteiro com as próprias mãos).

Quanto a todos esses alfaiates napolitanos, não existe computador à vista, embora Tofani promova seu trabalho no Facebook e Rubinacci mantenha registros online de seus clientes internacionais. Antes esses dados ficavam no livro-caixa, criado em 1934, exposto na loja de Nápoles para que os clientes possam admirar os pedidos do Rei Umberto II ou do Conde Leonetti, um nobre local. Os aristocratas de hoje costumam ser oligarcas russos ou da realeza malaia.

De Matteis disse que sua "fábrica de pessoas" precisa mais de mãos humanas do que de alta tecnologia, embora o trabalho napolitano seja complementado por uma fábrica de malhas em Fidenza e outra para roupas esportivas em Parma. No lado do varejo, a Kiton possui 45 lojas na Europa, Estados Unidos, Oriente Médio e por toda a Ásia, incluindo Azerbaijão, Cazaquistão e China.

Um novo projeto é uma sede em Milão, no palazzo da Via Pontaccio que o estilista Gianfranco Ferré usou antes de sua morte. Esse centro funcionará como o eixo da Kiton para clientes internacionais, onde eles poderão tirar medidas para ternos, comprar acessórios e, eventualmente, jantar num restaurante onde alimentos frescos serão trazidos diariamente de Nápoles.

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A equipe da Kiton está constantemente em movimento, tentando voar até qualquer cliente do mundo em até 24 horas. Eles treinam suas novas gerações numa escola perto da fábrica. A cada ano, seus 12 alunos entram para a empresa ou encontram empregos em outros lugares. Segundo De Matteis, a meta é ter um alfaiate jovem e recém-treinado em cada loja da Kiton no mundo.

Você não precisa ser um bilionário para comprar um terno Kiton (a menos que seja em vicuña branca). Mas são principalmente milionários, alguns do Vale do Silício na Califórnia, que compram sob medida, por um custo médio de 7 mil euros (R$ 21,1 mil) por um terno básico – mais os ornamentos, como gravatas e camisas artesanais. Um paletó de terno leva 26 horas para ser feito, e uma camisa exige cinco horas. Hoje, a Kiton também produz sapatos sob encomenda.

A alta qualidade geral, tanto dos ternos sob medida quanto dos prontos para vestir, parece satisfazer os consumidores. Quando De Matteis entrou na empresa, em 1986, as vendas anuais eram de 4 milhões de euros; em 2010 foram 60 milhões de euros, e no ano passado, 105 milhões de euros.

A última palavra na filosofia da alfaiataria napolitana fica com Tofani. Atualmente com 47 anos, ele começou seu aprendizado com o pai, quando tinha 13 anos, e trabalha com seu irmão Enea, especializado em calças. Juntos, produzem um terno por semana, dependendo do tipo e das exigências do cliente.

"Você precisa entender que a alfaiataria napolitana é uma arte, e não um emprego", explica Tofani, que espera que seu próprio filho resolva aprender o ofício. "Meu pai me dizia que 'não há motivo para abrir uma grande loja, mas é importante ser um grande alfaiate numa loja pequena'. Para mim, seria um pesadelo criar uma grande empresa. Não penso em ganhar muito dinheiro. Eu sou um artista", completa.

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