"As mulheres gostam de vestidos legais em ocasiões especiais. Por que os homens também não deveriam?", pergunta Christian Sonne, presidente da Sociedade Histórica do Smoking. E, nesta tendência, o tom azul é o que está em alta

É a roupa que homem nenhum sequer pensa a respeito até precisar usá-lo, o terno que aterroriza o coração de um rapaz comum. Assunto de arcaicos códigos de etiqueta da moda, composto de curiosos componentes, aparentemente muito caro para ser comprado para usar apenas uma vez e ainda vagamente abandonado quando é alugado, ele é o smoking.

Houve um tempo, em um período distante que chamaremos de Era de Astaire, em que homens usavam ternos para trabalhar e chapéus na cidade, e cresciam absorvendo códigos de vestimenta que, por mais que pareçam indecifráveis atualmente, tinham um propósito útil. As regras estabelecidas ao longo dos séculos tornaram fácil para os homens decidirem o que vestir e quando.

"A primeira coisa que os rapazes perguntam é 'quais são as regras?'", revela Nick Sullivan, diretor de moda da Esquire e autor da coluna Ask Nick Sullivan, ou "Pergunte ao Nick Sullivan", presente na revista. "Quanto mais me perguntam, mais eu quero responder que eu não poderia me importar menos."

Sullivan naturalmente não pretende fazer isso em termos literais. Afinal, se você não se importa com regras, você não redige uma coluna chamada Ask Nick Sullivan. O que ele quis dizer, ao prosseguir com a explicação, é que regras estão aí para serem quebradas.

Existe um padrão. Uma vez que os homens o aprendem, estão livres para ignorar o conhecimento, uma verdade esclarecida na Costume Institute, baile de gala no Metropolitan Museum of Art, em Nova York, em que famosos convidados e os designers que os vestiram interpretaram um código de vestimenta puritano dos trajes formais com liberalidade.

Eles vestiram smokings da Gucci (Ryan Reynolds) e blazers brancos da Calvin Klein para usar à noite com gola em formato V (Bryan Cranston). Avançaram no tapete vermelho trajando versões tailcoats (fraques com as abas traseiras partidas em dois) de Thom Browne que soavam a Ringling Bros. e Barnum & Bailey (Neil Patrick Harris e David Burtka). Eles experimentaram o cinza da Band of Outsiders (Andrew Garfield).

Muitos, entretanto, fizeram como Chiwetel Ejiofor e apareceram em trajes noturnos em tom azul-escuro, uma cor bastante ubíqua na temporada de infinitas premiações e que se tornou o novo preto. Driblando a convenção, esses homens também souberam fazer o vestir-se para a noite parecer divertido. "As mulheres gostam de colocar vestidos legais em ocasiões especiais. Por que os homens também não deveriam?", questiona Christian R. Sonne.

Smoking da Brunello Cucinelli
Andrew Giammarco/The New York Times
Smoking da Brunello Cucinelli

Presidente da Sociedade Histórica do Smoking - Tuxedo Historical Society, em inglês -, em Tuxedo Park, em Nova York, Sonne sabe "um pouco" sobre smokings, visto que é frequentemente requisitado para esclarecer as consideráveis desinformações em circulação sobre o nome do vestuário.

"Há muitas teorias" sobre como o smoking recebeu esse nome, conta Sonne, antes de citar uma explicação gravada por "um já falecido membro de longa data" da sociedade histórica local, que a conseguiu de um dos fundadores originais do clube, Grenville Kane.

Foi no verão de 1886 que James Brown Potter, um residente de Tuxedo Park, e sua bela esposa, Cora Potter, foram para a Inglaterra para conhecer o príncipe de Gales. O príncipe, indiferente a alpinistas sociais norte-americanos, mas apaixonado por mulheres bonitas, convidou os Potter para passar o fim de semana em Sandringham.

Os dilemas relativos a códigos de vestimenta não são nenhuma novidade, e, quando Potter perguntou sobre o que usar em um jantar no campo, na propriedade de 8 mil hectares no estado de Norfolk pertencente à família real, o príncipe o enviou para seu alfaiate em Londres, Henry Poole & Co.

Potter retornou a Tuxedo Park vestindo a nova versão dos já requisitados tailcoats, que foi rapidamente adotada por outros membros do clube para jantares informais. Por fim, o novo terno passou a ter maior circulação e veio a ser conhecido como o estilo que os cavalheiros preferem atualmente para um jantar "lá em Tuxedo". E da forma mística e orgânica que os neologismos têm de entrar na linguagem, a cunhagem pegou.

E, embora haja muitos que questionem essa versão do mito da criação do smoking, há uma pequena disputa sobre o que classicamente constitui um smoking ou dinner jacket: um terno escuro com cetim ou gorgorão nas lapelas e nos botões, uma listra similar na extensão lateral das calças, uma camisa branca, gravata-borboleta preta, sapatos pretos e uma gama de acessórios que está em constante mudança que pode incluir (ou não) abotoaduras, brilhantes cravejados, suspensórios e a agora praticamente esquecida faixa.

O que é frequentemente ignorado em relação aos smokings é que, conservadores como parecem, são fundamentalmente uma versão casual de trajes ainda mais formais. Há aqueles que, como Jake Gallagher, um rapaz de 22 anos que escreve sobre roupas masculinas no site A Continuous Lean , acham que os elementos tradicionais funcionam tão bem que quase não há necessidade de alterá-los.

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The New York Times/Isak Tiner
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"Eu tendo a acreditar que o traje deve ser mantido o mais clássico possível", diz Gallagher em um almoço recente no restaurante Da Silvano, promovido pela feira de comércio de Florença Pitti Immagine. E o que constitui o clássico, de acordo com Gallagher?

"A meu ver é um blazer com um botão, gola arredondada e gorgorão na parte lateral das calças. Se não for preto, é azul-escuro, e o mais clean e simples possível, com bem poucas mudanças e adições", responde.

É necessário ter muita convicção, ele disse, para fazer alguma mudança em uma fórmula infalível. "Se você for a um evento formal e usar uma gravata-borboleta vibrante ou um par de sapatos muito chamativo, é melhor que tenha a segurança necessária para levar até o fim. Os designers que vestem celebridades os estão utilizando, de certa forma. Frequentemente vemos celebridades vestidas por designers e elas não parecem 100% à vontade, e isso é completamente trágico".

Obviamente, designers veem a questão por uma ótica diferente.

"Assim como as garotas interpretam um tema à sua maneira, por que os rapazes também não podem fazer o mesmo?", pergunta Italo Zucchelli, designer de moda masculina da Calvin Klein. "Por que ser tão literal? Se você sabe as regras, você pode driblá-las e interpretá-las à sua maneira", completa.

As regras não são assunto de concordância universal, menos ainda entre pessoas como Zucchelli, que, reagindo ao aumento nas vestimentas formais, ajustou agressivamente o uniforme tradicional.

Considere, por exemplo, o elegante terno azul-escuro que Christopher Bailey, designer e executivo-chefe da Burberry, projetou para a Burberry Prorsum, com suas estreitas calças em formato de tubo; ou o smoking trespassado de cashmere cinza-carvão criado pela Brunello Cucinelli, marca italiana que durante a década passada encontrou um lugar especial no mercado de roupas esportivas de luxo, tornando-se uma espécie de GAP para bilionários.

Até mesmo nos mais altos escalões dos bem-vestidos, os designers têm percebido um interesse renovado em vestimenta formal. "Os rapazes estão prontos para se vestir mais formalmente, mas com suas próprias condições", afirma Frank Muytjens, chefe de design masculino na J. Crew.

Na J. Crew, isso significa produzir uma linha completa de smokings com acabamentos e fabricações não convencionais. "Anteriormente, se você precisasse de um smoking, você o alugaria e teria algo quadrado, com costura brilhante. Deixá-lo mais simples, tornando-o um terno com melhor caimento e um pouco mais curto, ajudou a ensinar os rapazes como se vestir."

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