Calçado relegado ao ambiente da academia agora é visto em passarelas e tapetes vermelhos. "Tão elegante como um sapato oxford, e dez vezes mais confortável", diz especialista

Quando Christopher Tennant, editor da revista Man of the World, foi conhecer os futuros sogros, meses atrás, em um restaurante de Nova York, ele optou por um blazer azul-marinho da Barneys New York, calça verde-oliva e ‒ o que mais poderia ser? ‒ tênis da Common Projects. "Eu só uso tênis", explicou.

Quando Jian DeLeon, um dos editores de estilo da revista Complex, foi ao balé, em maio, combinou o terno xadrez com um tênis branco da ETQ, e garante que se sentiu "tão elegante como se estivesse usando um oxford, e dez vezes mais confortável".

E quando o editor-chefe do Gilt Groupe, Tyler Thoreson, esteve recentemente no programa "Today", da NBC, para falar de moda, usou terno azul Calvin Klein, camisa branca e um tênis azul-marinho da Common Projects. "Meu guarda-roupa é tão voltado para o tênis que quando vou vestir terno tenho que pensar duas vezes."

O tênis, que já foi considerado pouco elegante, parece ter sido descoberto pela moda. A diferença entre o sapato social e o esportivo desapareceu para quem gosta de ser vestir bem, visto que o calçado de academia superou sua origem moda de rua e cultura jovem para se tornar acessório fashion ‒ além de presença garantida nas passarelas, tapetes vermelhos e escritórios, onde não é mais considerado o cúmulo da esquisitice quando combinado com o terno.

O limite da aceitação do sapato casual está mudando tão rápido que até o próprio Cary Grant, se estivesse vivo, não pareceria nem um pouco deslocado com um par de Adidas Stan Smith combinado com os ternos Kilgour que costumava usar.

"Em algum momento dos últimos dois anos, todos os homens fotografados por The Sartorialist e Tommy Ton desistiram das botas Alden e dos sapatos sociais de tira dupla para usar Roshes da Nike e New Balance retrô. A impressão é a de que saiu um decreto para a elite da moda de Nova York", diz Brad Bennett, do blog de estilo masculino Well Spent .

Para Valerie Steele, diretora e curadora do museu do Fashion Institute of Technology, a mudança na vestimenta masculina é cultural, da mesma forma que John F. Kennedy serviu de inspiração para uma geração inteira por não usar chapéu. "O fato de tantos homens terem tornado o tênis a sua primeira opção de calçado se compara ao fenômeno semelhante, nos anos 60, quando eles desistiram dos chapéus."

Após o
The New York Times/Isak Tiner
Após o "metrossexual", marcas da moda masculina agora miram o "Yummy"

O domínio do tênis talvez fique mais óbvio em escritórios norte-americanos modernos, onde não só é aceitável como, em alguns casos, padrão obrigatório, principalmente para quem trabalha com criação.

"Geralmente quem usa são caras como eu, como Jack Dorsey, empresários com trinta e poucos anos", afirma Jon Buscemi, da grife Buscemi, referindo-se a um dos fundadores do Twitter. "Não quero passar o dia todo usando uma Alden ou um John Lobb (ambas marcas de sapato) apertado."

Com uma relação estreita e histórica com a cultura teen e o hip-hop, o tênis carrega uma ideia de juventude e, no contexto do local de trabalho, é como se o usuário, na brincadeira, dissesse: "Sou parte da nova espécie, esperto, descolado, ágil. Estou pronto para a revolução".

O falecido Steve Jobs não ligava para moda, mas ajudou a ditar o tom, no fim dos anos 90, ao criar o conceito "Pense Diferente" a bordo de um New Balance. Entretanto, profissionais que são fãs do calçado fazem questão de caprichar no estilo, ao contrário do próprio Jobs ou Mark Zuckerberg, que podem burlar a regra usando jeans e tênis de corrida por causa de 28 bilhões de razões.

Não é um visual que fica bem para todos, tornando-se um atrativo a mais para aqueles em que cai bem. "É como usar chapéu: você tem que ter a atitude certa", comenta o fotógrafo de moda, Ben Watts, que usa tênis até em evento black-tie.

De certa forma, o fenômeno equivale à transformação do jeans nos anos 70, quando a famosa "calça rancheiro" renasceu como uma peça de estilista e virou símbolo de status para a elite disco da época. Há pouquíssimos lugares hoje em dia ‒ talvez só na sala da diretoria da Goldman Sachs ‒ que não aceitam um tênis de grife.

"Há alguns anos, se você chegasse a um certo tipo de restaurante do Upper East Side de tênis e não conhecesse o maître, ele o colocaria em uma das mesas do fundão. Hoje isso não rola mais", conta Dirk Standen, editor-chefe do Style.com.

Em sua ascensão rumo ao ápice do estilo, era inevitável que acabasse também no tapete vermelho, onde celebridades jovens como Justin Bieber, Ne-Yo e Joe Jonas o transformaram na versão descolada do slipper de veludo, usado com ternos e até smokings sem causar choque nem surpresa.

Da mesma forma que passou a ser comum ver o tênis em eventos da elite da moda, como a festa à fantasia do Museu Metropolitano de Arte, em Nova York, e a cerimônia de entrega dos prêmios do Conselho de Estilistas Norte-Americanos. Será que esses homens o usam para provar sua influência na moda ou simplesmente porque cresceram calçados assim? Isso é o que eles conhecem.

"Tenho 33 anos e, como vários caras da minha idade, cresci na era do Air Jordan, na explosão dos tênis anunciados por nossos heróis. Quando tinha dez anos, eu e meus amigos ficávamos comparando tênis; essa relação ilógica permanece até hoje", diz Will Welch, editor de estilo da GQ. "Mulher tem esse lance com bolsa; para nós, homens, é a mesma coisa com o tênis", conclui.

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