Seguido por mais de 250 mil pessoas no Instagram, norte-americano de 55 anos diz ser uma das pessoas "mais medrosas" do mundo, menos quando o assunto é a roupa que vai vestir

Nick Wooster
Karsten Moran/The New York Times
Nick Wooster

Com mais de 256 mil seguidores no Instagram  e até blogs dedicados a falar sobre o seu estilo pessoal, o varejista e conhecedor de moda Nick Wooster costuma ter fotógrafos em seu encalço por onde quer que vá.

Isso fica claro durante feiras de moda masculina como a Pitti Uomo, na Itália, e em desfiles realizados recentemente em Londres, Milão e Paris, onde não importa o que Wooster escolha vestir, seu visual aparece em toda a internet na manhã seguinte.

E quando isso acontece, as escolhas que Nick faz – calças cuidadosamente rasgadas ou calças saruel cáqui; sapatos estilo Oxford da Grenson Triple Welt ou velhos tênis Adidas Stan Smiths; uma jaqueta de cintura justa de alguma marca japonesa obscura ou uma camisa branca toda abotoada e com as mangas enroladas, revelando as tatuagens em seus braços – serão analisadas e discutidas em detalhe.

"Como você se sente em saber que é adorado por homens heterossexuais?", perguntou certa vez Lawrence Schlossman, da dupla de blogueiros conhecida como Fashion Bros , ao homem que ele disse ter causado "uma paixonite digital em uma geração inteira de desengonçados, que determinam a própria masculinidade com base no comprimento das calças que vestem".

A resposta de Nick, repetida quase sempre quando as pessoas o questionam sobre sua celebridade inesperada, é notável pela autodepreciação típica dos caipiras do Meio-Oeste norte-americano.

"Fico extremamente lisonjeado com tudo isso, sabe, mas não entendo muito bem", afirmou Wooster, de 55 anos, que é de Salina, no Kansas, a um repórter recentemente. "Tenho plena consciência de que, para muitas pessoas, não devo passar de uma figura caricata."

A verdade é que Wooster talvez tenha se transformado no ideal de beleza de uma era egocêntrica: uma marca de um homem só. E, embora o currículo do experiente varejista seja uma impressionante colcha de retalhos de empregos em grandes marcas – comprador na Barneys, diretor de design na Ralph Lauren, diretor de moda na Neiman Marcus, presidente da John Bartlett, diretor de desenvolvimento de tendências na J.C. Penney –, o fato de que ele quase nunca dura nos empregos (raramente por escolha própria) sugere que ele está sempre em busca de algo que fuja do padrão. E é aí que as mídias sociais entram.

"O Instagram é o que paga a minha aposentadoria", diz Wooster. No ano passado, os mais de 200 mil seguidores na rede social chamaram a atenção do Lardini Group , marca italiana que o contratou como embaixador e também para desenvolver uma coleção especial: quatro estilos de jaquetas e calças, bermudas e uma variedade de acessórios. Wooster, no entanto, nega o rótulo de criador ou designer. "Sou mais um amalgamador, uma espécie de DJ, que pega duas coisas que não combinam e as mistura."

Foi Nicolas Bourriaud, estudioso e fundador do centro de artes Palais de Tokyo, em Paris, que identificou os DJs como as figuras culturais dominantes de nossa geração. Por trás de uma certa hipérbole, há uma observação bastante aguda, já que não restam dúvidas de que as técnicas usadas pelos DJs acabaram se infiltrando em praticamente todas as formas de expressão cultural, incluindo artes menores, como a moda.

"Eu sempre digo que Nick é a Cher da moda masculina", diz Ed Filipowski, presidente da KCD, a gigante da publicidade e produção de moda, referindo-se a Wooster, cujo primeiro nome na verdade é Nickelson.

Assim como a Cher, Wooster está sempre atento ao saco de retalhos culturais na busca por inspirações, transformando incansavelmente seu estilo. Assim como a Cher, ele obviamente não sofre com questionamentos como outras pessoas, menos confiantes, que não sabem se estão bem vestidos. Para Filipowski, "Nick sempre está bem, não importa com que roupa".

Nick Wooster durante o Mercedes-Benz Fashion Week Fall, em Nova York, em fevereiro deste ano
Getty Images/Astrid Stawiarz
Nick Wooster durante o Mercedes-Benz Fashion Week Fall, em Nova York, em fevereiro deste ano

Quando ele ainda era adolescente no Kansas nos anos 1960, contou Wooster, seus pais muitas vezes o proibiam de sair de casa depois que ele havia se arrumado. "Acho que sou uma das pessoas mais medrosas do mundo, mas não quando o assunto é a roupa que vou vestir", contou. "Meus pais costumavam perguntar se eu tinha certeza de que ia sair vestido daquele jeito, mas minha resposta era sempre afirmativa."

Mais do que qualquer outra coisa, é a confiança de Wooster que tanto atrai fãs e seguidores, sem falar nas constantes transformações que ele faz em seus pelos faciais. Usando a internet como passarela e fórum de discussão, ele dá aos que o seguem um tutorial de estilo, sempre oferecendo aos fabricantes uma ligação encantadora entre comérico e bom gosto.

"Agora todo mundo sabe que isso é parte do processo criativo, assim como temos os estilistas que se conectam com o mundo dos tapetes vermelhos, os 'style-makers' tem um papel fundamental no Pinterest e no Instagram", explica Tom Julian, do Doneger Group, em New York. "Esses formadores de opinião afetam as tendências e podem ajudar qualquer marca ou empresa varejista que esteja em busca de um espaço em branco."

É justamente nesse espaço em branco que pessoas como Wooster e blogueiros extremamente influentes ganham cada vez mais espaço, formando parcerias lucrativas com empresas como a Lardini (ou, no caso de Doré, com a L’Oréal, a Christian Dior, a Net-a-Porter e a Kate Spade) ansiosas para conseguir mais fãs e seguidores.

"Pessoas como o Nick são fundamentais para o progresso das empresas de hoje", elogia Julian, do Doneger Group. "A questão central é: 'Onde é que as transações acontecem?' Em algum momento isso precisa se transformar em um negócio. A fantasia da internet só chega até determinado ponto."

Ainda assim, "jovens ligados em moda masculina idolatram o cara", revela John Jannuzzi, editor digital sênior da GQ. "É esse tipo de dedicação dos fãs que faz as marcas quererem tanto colaborar com ele."

Felizmente para os seus seguidores, Wooster é um consumidor experiente de roupas e, surpreendentemente, pragmático. Depois de aprender as bases do negócio na adolescência, quando era assistente de um camiseiro local, ele se formou em Jornalismo na Universidade do Kansas, chegou a Nova York, passou a trabalhar com moda varejista, foi um baladeiro alucinado nos anos anteriores à pandemia da Aids, largou as drogas e continuou a refinar seu senso de estilo inato.

"Algumas pessoas nascem desse jeito", disse Wooster, que afirmou ter pedido um terno xadrez ao estilo Príncipe de Gales para a mãe quando tinha apenas cinco anos. "Eu já nasci de blazer." Para ele, se vestir todos os dias é um ato existencial, uma oportunidade de se renovar todas as manhãs, não importa se Tommy Ton esteja ou não esperando por ele com uma câmara nas ruas.

Embora ele defenda que precisa de quatro horas entre o instante em que o despertador toca até o momento em que sai pela porta da frente, ele só passa 20 minutos se vestindo. "Não gasto muito tempo pensando nisso. Me visto de acordo com o clima. Quem manda em mim é o homem do tempo."

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