Com dicas desse tipo, programas fogem do padrão e buscam desmistificar as dificuldades de cozinhar, apesar dos erros acontecerem. "Cozinhar é como aprender a nadar", diz diretor do "Larica Total"

Paulo Tiefenthaler como Paulo de Oliveira, do
Débora 70
Paulo Tiefenthaler como Paulo de Oliveira, do "Larica Total". A panela preta tem até vinheta própria

Macarrão instantâneo que fica pronto em, teoricamente, três minutos – sempre leva mais tempo que isso –, lasanha congelada ou um disque-entrega qualquer? A dúvida costuma pairar na cabeça de muitos homens em uma noite qualquer de um dia qualquer, mas entre se debater entre opções sem charme e pouco saudáveis ou cozinhar a própria comida – e o macarrão instantâneo não entra nessa conta! –, não há dúvida de que a maioria escolhe a primeira alternativa.

Muitos dirão que, com tantos programas de culinária na TV, não tem desculpa para não se aventurar na cozinha. Mas quantos deles não afugentam os amadores com seus pratos que nunca dão errado, fornos que estão sempre na temperatura ideal e aqueles utensílios imprescindíveis que não existem em gavetas mal equipadas? Sem mencionar quando há um ou mais ajudantes de prontidão para fazer todo tipo de trabalho sujo.

Nessa distância entre as cozinhas da televisão e a da sua casa, três programas (dois no YouTube e um no Canal Brasil) tentam desmistificar a culinária e ajudar o homem a se virar na hora de comer. Em comum, todos têm “chefes” sem experiência. Aliás, a própria falta de desenvoltura na cozinha foi o ingrediente inicial para que alguns desses programas existissem. Foi assim, por exemplo, que nasceu o “Larica Total”.

O macarrão com linguiça e cerveja: receita de um fã
Débora 70
O macarrão com linguiça e cerveja: receita de um fã

Caito Mainier, um dos diretores do programa – ao lado de Felipe Abrahão e Leandro Ramos –, lembra que a ideia partiu de um amigo, Terêncio Porto, que havia acabado de se casar e não sabia cozinhar, assim como sua esposa. Sem habilidades no fogão, o casal se virava com o que tinha na geladeira, e Porto enviou um e-mail para Mainier com a sugestão de transformar toda essa situação em uma série de TV, tendo o próprio diretor como protagonista.

A ideia de ter Mainier diante das câmeras não foi adiante, mas as outras sim. “A gente queria fazer uma culinária de guerrilha, aquilo que você faz na madrugada, que você faz com o mínimo de ingredientes”, diz o diretor e professor de multimídia de 35 anos. Após testes de elenco, que contaram com a participação de nomes como o de Marcelo Adnet, Paulo Tiefenthaler foi o escolhido.

Ao longo de três temporadas, ele deu vida ao personagem Paulo de Oliveira, sujeito que vive em Santa Teresa, na zona central do Rio de Janeiro, e que não sabe cozinhar, mas se arrisca mesmo assim. O primeiro nome igual e o fato do programa ser gravado na própria casa do ator fazem com que muitos confundam os Paulos quando Tiefenthaler é reconhecido nas ruas. “O cara acha que conhece ele mesmo, já passa uma receita”, conta Mainier.

Em princípio, o “Larica Total” se propôs a fazer pratos básicos como arroz, feijão e macarrão. Conforme o tempo e os episódios foram passando, receitas mais elaboradas como moqueca de ovo – Caito destaca que esta ficou “muito boa” –, bobó de camarão e a até a cebola frita de uma famosa steakhouse entraram para o cardápio da série. Experiências enviadas por espectadores também ganharam espaço, como o estrogonofe de salsicha, o “frango flex turbo rápido” (feito no micro-ondas) e o macarrão com linguiça e molho de cerveja.

Apesar da produção contar com a “supervisão” de um chef profissional – o sushi de feijoada é sugestão dele –, os erros acontecem. Mainier cita a “cebola australiana”, que tinha “um quilo de páprica” e ficou tempo demais no óleo, e o frango estragado em uma das primeiras receitas, o “frango total flex”, como alguns dos mais clássicos. “Tudo era roteirizado, mas o Paulo botava aquele brilho na hora. Sua inabilidade tornava o programa engraçado. Se algo dava errado na comida, a gente deixava [na edição final]. Não tem ‘take 2’ na hora de cozinhar.”

DA INSPIRAÇÃO, A CRIAÇÃO

Fã do “Larica Total”, Otávio Albuquerque sempre acompanhou as receitas de Paulo de Oliveira, mas hoje divide bancada com outro Paulo, o PC Siqueira. Há pouco mais de um ano, o produtor multimídia aceitou o convite do amigo para fazer um programa de culinária. “Basicamente, foi uma ideia de filmar, cozinhar e ficar bêbado”, brinca. Os dois apresentam o “Rolê Gourmet”, gravado na casa de Siqueira e disponibilizado no YouTube.

Otávio Albuquerque e PC Siqueira apresentam o
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Otávio Albuquerque e PC Siqueira apresentam o "Rolê Gourmet"

Otávio não estava propenso a aceitar a proposta de PC por temer que fosse ser xingado, mas, ao mesmo tempo, viu que não havia muitos programas práticos de culinária na internet ou na TV. “Tinha basicamente o [Ana Maria] Brogui. O Paulo [Tiefenthaler] é uma exceção. O Olivier [Anquier] fala que não é chef, mas o cara é francês, é profissional. Você só vê profissionais na televisão."

O passado de Albuquerque no fogão envolve muito macarrão instantâneo e hambúrguer congelado, cenário que mudou depois que ele passou a ter “dinheiro para comprar ingredientes”. O gosto pelo ambiente considerado hostil por muitos homens e o costume de publicar fotos de comida em redes sociais foram alguns dos fatores que levaram PC a chamá-lo para o projeto, o que não evita erros, técnicos ou práticos.

Chocotone
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Chocotone "sentido da vida": "Você perde a esperança, aí dá certo, aí dá errado, aí dá certo de novo"


LIÇÕES DA COZINHA PARA A VIDA

“Várias coisas deram errado ao longo desse um ano. Aprendi a abraçar o erro na cozinha, na vida, onde for. A gente fez um lombo de Natal no ano passado e perdeu 10 minutos do áudio. Fiz uma narração em cima como se fosse um documentário, ficou melhor. Não gostei da coxinha que fiz no meu aniversário de 30 anos (ele confessa que parte da infelicidade se devia ao fato de chegar aos 30) e o yakisoba que fizemos ficou uma merda, virou o ‘yakizica’”, conta o produtor. As reviravoltas na hora de fazer um chocotone foram tantas que o doce ganhou o apelido de “sentido da vida”. “É como viver sua vida. Você perde a esperança, aí dá certo, aí dá errado, aí dá certo de novo. A vida é isso aí.”

"MINHA MÃE FALECEU. TIVE QUE ME VIRAR"

Caio Novaes comanda o
Reprodução / YouTube
Caio Novaes comanda o "Ana Maria Brogui"

Caio Novaes não recebeu um e-mail ou um convite. Em 2009, a mãe do empresário faleceu, e ele teve que morar sozinho. Sem saber cozinhar “nem arroz”, Novaes decidiu pegar um arquivo de receitas famosas que havia baixado na internet e colocar em prática o que estava no papel, gravando tudo em sua própria casa.

A primeira receita, de lentilha, em homenagem à mãe, não foi muito popular. O “Ana Maria Brogui” ganhou popularidade com a segunda, a esfiha aberta de queijo de uma cadeia de fast-food árabe. “Teve muito acesso, foi algo desproporcional para um vídeo”, lembra. Desde então, Caio, de 28 anos, coleciona mais de 100 pratos em seu canal no YouTube, que vão de guacamole ao lanche número 1 do palhaço Ronald.

Graças ao canal, cujo nome é uma clara alusão à apresentadora Ana Maria Braga, Novaes recebeu o convite para participar de um reality show de culinária do programa "Mais Você", mas acabou não sendo selecionado por morar muito longe do Rio de Janeiro, onde seriam as gravações, e por ter uma cozinha pequena.

HOBBY VIRA TRABALHO. TRABALHO VIRA HOBBY

Ex-zeros à esquerda em termos culinários, Caito e Caio comemoram que aprenderam a domar panelas e fogões devido aos seus respectivos projetos. “De tanto fazer, ensaiar e perguntar, você acaba aprendendo. Economizo uma grana cozinhando em casa”, diz o diretor do “Larica Total”.

Já para Otávio, não foi bem assim. “Sou obrigado a aprender um número considerável de receitas. O que mudou, infelizmente, é que cozinho cada vez menos. Quando eu paro, já não é mais um hobby, é trabalho. Minha namorada reclama que parei de cozinhar. Prefiro comer a comida de alguém quando estou relaxado.”

E no caso de Otávio, o “Rolê Gourmet” trouxe outros trabalhos. Além de conduzir o programa com PC Siqueira, ele também atua como diretor para o Brasil da Tastemade Network, rede que visa agregar diversos canais de culinária do YouTube ao redor do mundo. “A ideia é pegar esses canais bacanas e fazer com que as pessoas interajam entre si.”

DICAS DE UM NÃO-CHEF: "COZINHE COM FOME, ELA TORNA TUDO BOM"

Os três são unânimes em dizer que não existe qualquer tipo de mandamento para o homem que começa a ver a cozinha de casa como um ambiente integrado e não mais como um campo minado. Bem-humorados, eles dão dicas do que você pode fazer ao abrir a geladeira.

- Abrace seu erro, ele faz parte do acerto. Cozinhar é isso.
- Se eu (Otávio Albuquerque) faço bêbado, você faz sóbrio.
- Cozinhe com o que tem. Só tem ovo? Vai com ovo.
- Tenha sempre em casa: água, cerveja, alho, cebola e sal.
- Se aventure. Cozinhe com coragem e fome. Ela torna tudo bom.
- O sal transforma tudo em comida.
- Mistura, bota fogo, aprende. Queimou? Não tem problema.
- Compre "o negócio" com as medidas certas. Você não é ruim, só pode ter errado nas medidas.
- Cozinhar é como aprender a nadar.

Caito Mainier explica a última dica com uma passagem da própria juventude: “Na aula de natação, eu estava aprendendo a nadar borboleta e dei o meu melhor para o professor ver. Ele falou para esquecer isso e perguntou se eu nadaria borboleta para fugir de um naufrágio. ‘Não, você vai de crawl’, ele falou”. Ou seja, vá com calma. Treine o arroz e feijão primeiro, literalmente.

Débora 70
"Se o Paulo consegue cozinhar, você consegue", afirma Caito Mainier


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