Principal competição do ciclismo permite que amadores encarem os mesmos desafios que os profissionais durante uma etapa. Se você planeja pedalar em montanhas francesas um dia, saiba como é a experiência de quem acabou de passar por ele

É uma paisagem nova a cada curva, conta Nicole sobre a L'Etape du Tour, na França
Arquivo pessoal/Nicole Lopes Moura
É uma paisagem nova a cada curva, conta Nicole sobre a L'Etape du Tour, na França


O Tour do Rio, maior prova de ciclismo da América Latina, termina hoje, com chegada prevista na capital fluminense. Ao longo de quatro dias, 16 equipes de nove países pedalaram por quase 800 km do estado carioca. Quem não é profissional teve a oportunidade de percorrer um trecho no último dia 18, no Desafio Tour do Rio.

A experiência deve voltar a se repetir em 2014, mas se você é daqueles que já se empolgou para pegar a bibicleta e não gosta de trabalhar com possibilidades, um desafio maior está à sua espera: a "Volta da França para amadores".

Na prova para profissionais, são 21 trechos em 23 dias, totalizando mais de três mil km distribuídos pela França. É a mais importante competição da categoria, e apesar dos escândalos de doping, incluindo o de Lance Armstrong - ex-heptacampeão que teve seus títulos cassados -, o prestígio do Tour de France parece inalterado. 

Para que os amadores tenham uma ideia do que os profissionais encaram em um torneio que já foi apontado como impossível de ser vencido sem doping, existe a L’Etape du Tour, cujo trajeto varia a cada ano e inscrição custa 90 euros (cerca de R$ 264).

Em 2013, mais de 11 mil ciclistas, entre homens e mulheres, de 50 países diferentes pedalaram por 130 km em um trajeto praticamente idêntico ao da 20ª etapa da Volta da França. Dos 11.475 inscritos, 10.624 (92% dos participantes) passaram pela linha de chegada no topo da montanha Semnoz, a 1.655 metros de altitude, saindo de Annecy, cidade no leste da França.

Quem tem uma “magrela” como companheira de estrada há algum tempo e se empolgou com a ideia de subir as mesmas ladeiras que o britânico Chris Froome, atual campeão da Volta da França, precisa tomar alguns cuidados antes.

“Cinco a seis meses de preparação seria o ideal, dependendo do nível de cada ciclista. Experiência em treinos de longa distância, andar em grupos e estudar o percurso em detalhes, tentando buscar exercícios específicos de montanha para estar adaptado, são imprescindíveis”, diz Roberto Toscano, professor de Indoor Cycle da Bodytech e 4163° colocado na L’Etape du Tour deste ano, a primeira de sua vida.

“Vi alguns exemplos de pessoas que começaram a treinar três meses antes e terminaram. Dá para concluir, mas a pessoa não vai fazer na melhor das condições físicas. Tem que ter trabalho mental, não vai ser como ela gostaria em tempo, mas ela consegue”, afirma Nicole Lopes Moura, que também participou da L’Etape e é professora na mesma academia que Roberto.

CAMPO DE GUERRA

Além das dificuldades do terreno, que conta com quatro “ascensões de peso” no percurso, Toscano alerta que é preciso ficar atento aos participantes em volta. “Não se fica sozinho em nenhum momento. Uma queda ou um simples toque no câmbio da bicicleta pode representar o fim da prova. Senti isso nas descidas, onde mesmo em velocidade alta, a 60 km/h, muitos ciclistas me passavam e nem sempre como ‘manda o figurino’ (a prioridade da curva é de quem está na frente, quem está atrás deve fazer por fora). Uma queda nessas horas acaba com a prova e pode causar um acidente grave.”

Das quase sete horas de prova de Roberto, pouco mais de quatro foram gastas nas montanhas. Para ele, a subida final, nos últimos 20 km, foi a pior. “Foram mais ou menos duas horas para subir. Lembrei do Ironman (maior evento de triathlon do mundo) nessa hora. Nunca tinha feito uma inclinação hour concours (designação usada para classificar ladeiras extremamente difíceis). Cheguei tão exausto que após trocar a roupa ensopada, deitei ao lado de uma van e ronquei por uns 20 minutos antes de descer para pegar a medalha.”

“Corpos” deitados ao final e durante a prova são comuns, segundo Nicole. “Muita gente desceu [da bicicleta]. Parecia um campo de guerra, com gente deitada nas laterais, carregando a bicicleta nas mãos... Você olha aquilo, pensa que é tudo bem descer, mas aí você diz que não vai. Aquilo te motiva mais, até porque tinha mais gente torcendo na última subida, os franceses ficavam em maior volume.”

Nicole participou da L'Etape du Tour, etapa para amadores da Volta da França, pela primeira vez
Arquivo pessoal
Nicole participou da L'Etape du Tour, etapa para amadores da Volta da França, pela primeira vez

"DESCIA ATENTO, MAS AOS PRANTOS E SOLUÇOS"

O cenário descrito até agora parece devastador e desencorajador para os amadores, mas ele também traz suas recompensas. “Estar lá, mesmo que em apenas uma das etapas, é um sonho para quem aprecia a modalidade. É a prova mais dura e ‘chique’ na categoria”, conta Roberto, que confessa ter “desatado a chorar” em uma das descidas. “Descia atento, mas aos prantos e soluços.”

Não deixa de ser uma conquista, diz professora
Arquivo pessoal
Não deixa de ser uma conquista, diz professora

“Já fiz muitas provas, inclusive a Ironman, mas esta foi a mais especial. A cidade é exuberante, a cada curva é uma paisagem nova, os franceses saem de casa para ficar torcendo, nós nos sentimos como profissionais. E também vale pela energia, de ver aquele monte de ciclistas, de nunca pedalar sozinho. É emocionante, muita gente chora no final. Não deixa de ser uma conquista, até em função do investimento”, lembra Nicole. Parar no meio do caminho para tirar fotos é outro diferencial da etapa, lembra ela.

PLANEJAMENTO

Por conta do fuso horário e consequente adaptação, é aconselhável chegar na região da prova com alguns dias de antecedência.

A inscrição custa 90 euros, mas o preço do pacote inteiro pode chegar a 3 mil euros (cerca de R$ 8,8 mil), uma vez que a etapa acontece durante a alta temporada, em julho, o que inflaciona preços de passagens e hospedagem.

ONDE TREINAR E COMPETIR AO AR LIVRE?

Enquanto os corredores iniciantes têm provas e 5 km e 10 km para se aventurarem nas ruas, os ciclistas não têm a mesma variedade à disposição. “A dica é se inscrever em etapas abertas para os amadores e participar sem muitas preocupações com o desempenho”, diz Toscano.

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