Apaixonado pelo Japão e por artes marciais desde pequeno, Rick Kowarick entrou tarde no mercado de trabalho, mas, em pouco tempo, chegou ao cargo de executivo. Com a proposta de ganhar mais, ele abriu mão do emprego para manter vivo o legado e conhecimento de uma linhagem de samurais

Rick Kowarick em seu dojo, na zona sul de São Paulo
Brunno Kono/iG São Paulo
Rick Kowarick em seu dojo, na zona sul de São Paulo

Sentado no escritório de seu dojo (local onde artes marciais são ensinadas), na região de Moema, em São Paulo, ou andando pelo tatame, o tom de voz de Richard Kowarick quase não se altera. Em três horas de entrevista, foi possível notar uma alteração em apenas dois momentos: quando ele conta um dos maiores “perrengues” que passou na vida, no Japão, e ao reforçar que não é um samurai.

“Samurais não existem mais. Sou de uma escola – Takeda Ryu Nakamura Ha – cuja linhagem vem de samurais, e dessa escola eu sou o representante mais graduado no Brasil. Esse conhecimento é passado para não se perder a tradição. O meu mestre é descendente direto de samurais”, diz Rick, como é chamado, querendo evitar ver seu nome atrelado a alcunhas como “samurai brasileiro”. Até porque nem brasileiro direito ele é.

Embora tenha vindo para o Brasil ainda pequeno, Rick é natural de Chicago, no norte dos EUA, e carrega em sua aparência o visual estereotipado do “gringo”: alto, loiro e de olhos claros. Ele tem um pé brasileiro – graças ao avô, ex-piloto da Pan Am, que decidiu se estabelecer por aqui após se aposentar da aviação – e outro norte-americano, mas a mente tem forte influência de um terceiro país, do outro lado do mundo.

Kowarick é apaixonado pelo Japão – e demonstra isso ao falar com propriedade sobre samurais, Japão feudal, estrutura da sociedade japonesa durante sua Idade Média, transições de governos – desde pequeno, quando ouvia as histórias contadas pelo professor de judô Yasuichi Ono, no começo dos anos 70. Desde então são 41 anos – ele tem 45 – dedicados às artes marciais, um caminho que não tem fim. Ao longo de quatro décadas, Rick conquistou a faixa preta em seis modalidades: jiu-jitsu brasileiro (4° Dan), aikido (4° Dan), iaido (4° Dan), jukenpo (3° Dan), jodo (3° Dan) e kendo (1° Dan). “Dan” é uma espécie de graduação após a última cor de faixa.

“ACORDAVA CEDO PARA VER PROGRAMA JAPONÊS”

“Eu passava horas na biblioteca, vendo fotos, lendo histórias, sonhando em um dia ir ao Japão. Minha mãe ficava maluca, dizia que eu tinha problema. Eu acordava cedo no sábado para ver um programa japonês na [TV] Gazeta, os desenhos animados dos anos 70 e 80, seriado de kung fu”, lembra Rick. Fora de casa, os desenhos e programas davam lugar a aulas de judô, caratê e aikido.

Após se formar no colegial, em São Paulo, Rick foi estudar na Penn State University, uma das faculdades mais tradicionais dos EUA, com uma bolsa de estudos para jogar vôlei pelo Nittany Lions, como são conhecidos os times da instituição. Uma pausa nos estudos permitiu que ele visitasse a terra do sol nascente pela primeira vez, em 1990: “Quis fazer algo diferente, mais clássico, voltado para a arte do samurai. Fui procurar lugares para treinar, achei um prédio de três andares, com madeira quebrada e buracos no tatame, aí você sabe que ali o pessoal treina sério. Vi uma aula, vi meu mestre conduzindo uma espada com graça e habilidade. Era ali”.

Na época eu tinha um salário de R$ 25 mil por mês mais os benefícios como bônus, auxílio de despesas, carro da empresa, almoços, mas não nasci para ser executivo."

A experiência no Japão, no entanto, tinha prazo para acabar: três meses. Por treinar em três horários, sete dias por semana e ter um condicionamento físico bom – “eu era atleta” –, Kowarick recebeu de seu mestre o convite de retornar ao país com a possibilidade de ter um visto cultural. “Naquela época, se você fizesse pelo menos 15 horas semanais de estudo da cultura local, o governo deixava você trabalhar 30 horas por semana”, explica o mestre de artes marciais, que se lembraria do convite alguns anos mais tarde.

400 DÓLARES NO BOLSO

Com o diploma de arte e ciência da comunicação, e especialização em filosofia e cultura asiática, em mãos, Kowarick se mandou para o Japão de novo, agora com um visto cultural. “Me mudei para lá no começo de 92, eu tinha US$ 400, era o dinheiro que eu juntei. Fiz a inscrição na academia e dos US$ 400, sobraram US$ 200.”

Rick lembra que esta foi uma das fases mais difíceis da sua vida. “Achei um emprego no primeiro dia, mas você só recebe depois de um tempo. Eu tinha teto (um apartamento de alguns metros quadrados que dividia com dois colegas), mas não tinha dinheiro para comer. A gente colocava grana na caixinha para comprar comida. Acabava a grana da caixinha, acabava o dinheiro (ele levanta o tom da voz pela primeira vez)! O pessoal ajudava, mas a gente passava fome. Eu fazia uma refeição por dia.”

Ao longo de um ano e meio, a rotina de Rick era treino, treino e mais treino durante o dia, enquanto à noite ele trabalhava como segurança de balada. Depois disso ele decidiu voltar para os EUA, agora para Nova York, onde viveu o segundo maior “perrengue” da sua vida. “Trabalhava como assistente de fotógrafo em NY e dava aulas na Filadélfia. Ficava na casa de amigos, uma semana aqui, uma semana ali. Quando não tinha onde ficar, dormia na rua, no metrô. Andava com cinco dólares no bolso”, conta.

“NAPOLEÃO E HITLER NÃO CONSEGUIRAM”

A vida dura nos EUA terminou em 94, quando Kowarick decidiu voltar ao Brasil. Por dois anos ele deu aulas em academias particulares, mas logo viu que seu desgaste físico não estava de acordo com a remuneração, de forma que assim ele nunca conseguiria juntar dinheiro para abrir sua própria academia. “Decidi começar a trabalhar com a área em que eu me preparei, representação de empresas internacionais, aos 28 anos”, diz.

Kowarick ajudou uma empresa estrangeira a entrar no Brasil, cuja operação – de gerenciar frotas terceirizadas de carros de outras multinacionais – no País acabou sendo comprada mais tarde, em 2001, pela General Electric. Com pouco mais de 30 anos e tendo Jack Welch como exemplo a ser seguido, Rick teve uma ascensão profissional meteórica, e embora diga que os ensinamentos obtidos no Japão foram fundamentais, ter a fluência ou entendimento de seis idiomas pode ter ajudado bastante também.

Mesmo com a entrada na “batalha entre empresas”, o professor ainda tinha tempo para as artes marciais, usando o tempo entre 18h e 22h para dar aulas. “Eu não abria mão desse horário. Meu chefe falava que nem Napoleão e Hitler venceram a guerra em duas frentes e que ia chegar a hora que eu teria que escolher. Falei que ia tomar a decisão que achasse melhor quando essa hora chegasse.” Com um cargo executivo e a opção de ser transferido para ganhar mais, a hora chegou para Rick.

Ficava na casa de amigos, uma semana aqui, uma semana ali. Quando não tinha onde ficar, dormia na rua, no metrô. Andava com cinco dólares no bolso."

SEPPUKU CORPORATIVO

“Na época eu tinha um salário de R$ 25 mil por mês mais os benefícios como bônus, auxílio de despesas, carro da empresa, almoços”, conta Rick. Apesar da estabilidade financeira, ao se ver obrigado a escolher um de dois caminhos, ele optou pelo das artes marciais: “Não nasci para ser executivo”. Ele ri e concorda ao ser questionado se sua decisão de deixar a GE foi um “seppuku (suicídio do samurai por não suportar a desonra de uma derrota) corporativo”.

Parece absurdo sair de uma posição como a que Kowarick tinha, mas ele expõe sua decepção com os rumos que a empresa tomou pouco antes de sua saída. “Nosso segmento estava bem, mas por ser uma empresa global, quando a GE perdeu dinheiro na Itália e na Austrália, eles poderiam reaver parte da perda se fechassem a operação no Brasil. Já que é uma empresa de capital aberto, quem manda são os números no final do ano. Era uma jogada financeira para não deixar o valor do papel cair."

“Por eu ter sido o cara que montou a empresa, contratou todo mundo e prometeu que era o melhor lugar para se trabalhar, era como um filho para mim. Vesti a camisa. A lealdade é essencial ao samurai. O que faço é baseado nessa cultura. Uma vez que vi que os números eram muito mais importantes que as virtudes, me decepcionei. Não posso mais servir a esse lorde feudal chamado GE. Cortei meus laços com eles”, completa.

Kowarick recebendo o certificado de representante de sua escola no Brasil das mãos do grão-mestre
Reprodução/Facebook
Kowarick recebendo o certificado de representante de sua escola no Brasil das mãos do grão-mestre

PROMOÇÃO NAS ARTES MARCIAIS

A saída do mundo corporativo veio antes do planejado, mas já era planejado. Com o dinheiro que juntou como executivo, o brasileiro decidiu fazer o que muitos fazem e abrir seu próprio negócio, não sem antes ir ao Japão por 40 dias para reencontrar e treinar com seu mestre, Mayasuki Toyoshima. “Nesse meio tempo apareceu uma oportunidade de trabalho que seria a representação de equipamentos que tenho aqui embaixo (no primeiro andar de seu dojo). Foi interessante virar empresário, começar a trabalhar para mim e com algo relacionado à saúde, que era o que eu queria.”

A promoção de Kowarick acabou vindo nas artes marciais, não em uma companhia. “Em 2007 eu voltei ao Japão para uma audiência com o grão-mestre Hasashi Nakamura (entenda como CEO da escola) e ser promovido a representante (da escola) no Brasil. A minha representação saiu em 2009. Sou o responsável por difundir a Takeda Ryu Namakura Ha aqui. Tive o reconhecimento do grão-mestre depois de 17 anos.”

Quase que ao mesmo tempo veio a realização do sonho do dojo próprio. Na parte de baixo do sobrado em Moema, Simone, fisioterapeuta e esposa de Rick, comanda a parte de fitness da academia. Nos fundos, em um amplo tatame azul, Rick ensina o que aprendeu nos últimos 41 anos. A ideia para o futuro? Ensinar muito mais, segundo Rick: “Formar uma base de professores, levar as artes marciais para crianças carentes, introduzir essas virtudes do samurai dentro da sociedade brasileira por meio de projetos sociais”.

LIÇÕES DO SAMURAI PARA O EMPRESÁRIO

Rick Kowarick diz que aplica as sete virtudes do samurai em sua vida. São elas, na seguinte ordem: Gi (ser íntegro e agir de forma correta), Yuu (agir com coragem e dominar o medo), Jin (ter compaixão), Rei (polidez e cortesia), Makoto (ser sincero e verdadeiro), Meiyo (honra) e Chuu (cumprir seu dever e manter a lealdade). O faixa-preta deu recentemente uma palestra na Universidade Quantum sobre a aplicação destas virtudes na sociedade e no mundo empresarial.

Embora esteja afastado de um escritório convencional há mais de dez anos, Rick afirma que acompanha o mercado “para ver quais as tendências e para onde vai a economia”, e embora não pareça que tenha um “chefe”, cumpre à risca seus deveres com Nakamura, seu grão-mestre.

“Eu sigo ordens. O que ele fala para fazer eu faço. O que eu tenho que fazer? Tenho os meus deveres. Não posso falhar em nada. Preciso mandar lista de alunos, registro de todos eles, relatório de crescimento da academia. Cortei relações com meu mestre que me ensinou tudo, que me acolheu e tratou como filho, para mostrar lealdade a ele [Nakamura]. Ele é o CEO, o daimiô, o lorde feudal da escola.”

Na hierarquia da escola, Kowarick é atualmente um Chuden Kyohan, um degrau acima do Shoden Kyohan, primeiro nível do samurai. Ele espera ser Joden Shihan em breve, para depois, em cerca de 20 anos, virar Okuden Shihan. “Me tornarei descendente direto, com nome de samurai (ele passará a ter também um nome japonês). Os samurais não existem, mas a tocha continua, e são poucos os que chegam neste nível.”

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