Site "Olga" adverte: 83% das brasileiras odeiam ser cantadas. Será? Não odiei quando, caminhando pela praia, passei por dois homens pescando e ouvi um dizer para o outro: “A gente pode não pegar nem um peixe, mas em compensação vê cada sereia!” Quem deve cantar? O homem ou a mulher? Vote na enquete

Pesquisa do site
Getty Images
Pesquisa do site "Olga" mostra que 83% das mulheres brasileiras não gostam de ouvir uma cantada

O que quer uma mulher?, perguntou o dr. Freud. A Olga sabe. Ou pelo menos sabe o que as mulheres odeiam. Segundo pesquisa realizada por esse site, 83% das mulheres brasileiras o-dei-am ser cantadas. Sim, senhores.

No Brasil do século XXI Leila Diniz já estaria com sua faixa na manifestação: “Você não me representa”. E a "Garota de Ipanema", você acredita mesmo que ela preferiria ter sido abortada em vez de se transformar na cantada mais tocada no mundo?

Sei não. Será que essas mulheres vivem no mesmo mundo que deu fama e cama à cantada sem-vergonha “Ai se eu te pego” do Michel Teló? “Sábado na balada / A galera começou a dançar / E passou a menina mais linda / Tomei coragem e comecei a falar / Nossa, nossa / Assim você me mata / Ai se eu te pego, ai ai se eu te pego / Delícia, delícia."

Não odiei nem fiquei ofendida quando, caminhando pela praia, passei por dois homens pescando e ouvi um dizer para o outro: “A gente pode não pegar nem um peixe, mas em compensação vê cada sereia!”.

Adriano, meu filho, escolheu a campeã. Estava com uma amiga quando um cara falou: “Oi, você é vizinha da minha avó". Ela disse não, nem morava ali, era de outro Estado. Vencida, enfim, a moça perguntou onde morava a avó do galanteador. O mancebo levou a mão ao coração dizendo: “Aqui”.

A sábia Miss Corações Solitários já suplicava aos novos Adões e Evas que andam usando aplicativo para marcar seus encontros: não deixem a cantada morrer. Foi uns meses atrás, quando o escritor e jornalista Xico Sá saiu em defesa da “sagrada arte da cantada”, dos “fragmentos do discurso amoroso”, da “dramaturgia da conquista”, do “suspense Hitchcock do xaveco”, da “incerteza que instiga e aumenta a fissura, a fome de tudo”.

Pesquisei com um amigo que fez questão de enfatizar: a “maioria” dos homens prefere dar cantada a receber
Getty Images
Pesquisei com um amigo que fez questão de enfatizar: a “maioria” dos homens prefere dar cantada a receber

NOVO ADÃO NÃO QUER LEVAR CANTADA, NÃO

Mas não é só a cantada que hoje provoca tumulto entre as filhas de Eva e os donos da costela originária, privilegiados pela parcialidade do Altíssimo na Criação. A cantada da dama, mesmo sendo comum, ainda é um tabu. O novo Adão não quer levar cantada, não.

É científico. Pesquisei com um amigo que fez questão de enfatizar: a “maioria” dos homens prefere dar cantada a receber. Nem adianta a cantora ser bela. “O homem se assusta em geral quando recebe cantada; no mínimo, perde o sabor. Fica fácil demais.” A velha Eva que habita o âmago do meu ser antiquado entendeu o que ele dizia.

Uma coisa puxa a outra e lá estava eu lembrando do Ulisses, um homem apaixonado pelas mulheres meio à la Bertrand do filme de Truffaut, “O Homem que Amava as Mulheres”. Mas Ulisses não era desse tipo de homem que ciscava uma transa e bye my love. Não, Ulisses queria o banquete completo, sonhava com o amor por inteiro, com suas dores e alegrias.

Com os olhos nas donzelas e a mão no interruptor da luz da razão, o moço bonito e romântico sabia da atração que sua figura – e seu poder – exerciam sobre o sexo frágil. Sempre alerta, remoía a sabedoria do nosso político defunto: “Eu não sou ministro, eu estou ministro”.

Se o poder era afrodisíaco para ele, imagina para a filha de Eva que o dr. Freud disse padecer da “inveja do pênis”. Passada a fervura provocada por essa definição das mulheres e do bate-boca com os feministas, é chegada a hora da serenidade.

Em vez de julgar o doutor, meditemos sobre suas palavras. Não foi pelo “roubo” ou apropriação indébita, digamos assim, que muitas resolveram o problema e que outras tantas continuam a vislumbrar o caminho? É sabedoria milenar, tá lá na Bíblia: foi a cabeça do profeta iluminado que Salomé pediu em troca de sua dança sedutora.

Mas como a luz da razão tem lá suas sombras, nosso Ulisses se esqueceu do truque do seu xará homérico e avançou pelo mar das Sereias sem tampar os ouvidos com a cera da prudência.

Deu no que deu. Quero você, disse sua princesa, mas vamos ficar no ora veja, porque se eu brincar com fogo vou me queimar. Traduzindo: ai se eu te pego, delícia. Então neca de pitibiriba, a gente não vai nem provar o couvert. O canto fascinante, a declaração de amor velada enfeitiçou Ulisses de vez.

Perguntei: isso não se chama sedução? Se a donzela guardasse a verdade no seu cofrinho nada aconteceria. Bertrand alforriado do cativeiro amoroso focaria outros pares de pernas.

O macho atraente, moreno de modos elegantes, inteligência aguçada e humor afiado ficou mega surpreso quando soube que havia caído no canto da Sereia. Pois não era ele o cantor?

EVA SEDUZIU ADÃO, SALOMÉ EXIGIU A CABEÇA DE JOÃO BATISTA

No nosso imaginário cultural é sempre um ela que canta e encanta. A Sereia, com seu canto mortífero, arrasta os homens para a morte. Sua parente, a Esfinge de Tebas da lenda de Édipo, era um monstro fêmea “ávido de sangue e de sexo” que cantava seus enigmas. Os antigos a chamavam de A cantora e A Angustiante. Ela tinha o péssimo hábito de comer os moços tebanos até que Édipo a levou a se matar.

A mulher-maçã seduziu Adão. Salomé, a dançarina bíblica, exigiu a cabeça de João Batista. A mãe da princesa, Herodíades, largou o marido para ficar com o cunhado. Para os psicanalistas todo filho comete parricídio (o complexo de Édipo). Para onde a gente olha não tem jeito: o homem é sempre a vítima da eterna Salomé.

* Marcia Neder é psicanalista, doutora e pós-doutora em psicologia clínica, escritora, autora de "Déspotas Mirins. O poder nas novas famílias", entre outros.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.