Dados mostram que o número de homens que adotaram sobrenome das esposas saltou de 9 mil em 2002 para 43 mil em 2013 em SP. Já as mulheres estão abrindo mão do sobrenome do parceiro

Levantamento mostra que mais homens adotam o sobrenome da mulher e elas seguem o caminho inverso
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Levantamento mostra que mais homens adotam o sobrenome da mulher e elas seguem o caminho inverso



Quando Marcel Tavares Batista decidiu abrir mão do sobrenome do pai pelo Duz, da família de Vanessa, sua esposa, os protestos foram grandes dentro de casa. “Comentei com minha mãe, ela ficou brava, seca, nem queria falar comigo. A gente conversava, ela voltava no assunto, alfinetava, dizia que eu ia desistir do nome do meu pai, da minha família”, diz o estudante de Farmácia de 28 anos.

Ele foi em frente e quando se casou, em setembro passado, passou a se chamar Marcel Tavares Duz, enquanto Vanessa, de 22 anos, agora é Vanessa Regina Tavares Duz. A mãe dele não gostou, mas os sogros aprovaram.

“Ele me chama de filho, e ela sempre foi a favor das nossas atitudes. Ela também adora que eu pense dessa forma porque o marido dela, por mais que considere o que fizemos, não concorda com algumas situações, não se adapta facilmente à mudança dos tempos. Ver que o marido da filha tem uma cabeça diferente do dela a faz pensar que nosso relacionamento vai dar certo”, conta.

Marcel faz parte de uma estatística que está se tornando cada vez mais comum. Segundo levantamento feito pela Associação dos Registradores de Pessoas Naturais do Estado de São Paulo (Arpen-SP) em 836 cartórios paulistas, o número de homens que passaram a usar o sobrenome das esposas registrou um crescimento de 178% de 2002 para cá. Há 11 anos, dos 178.172 casamentos registrados, 15.506 noivos (8,7%) mudaram os nomes. Este ano já são 43.073 de homens “rebatizados” em 178.172 matrimônios, o que corresponde a 24,8%. As mulheres seguem o caminho inverso.

Números de casamentos e de homens e mulheres que adotaram nome do parceiro*:

2013: 173.581 casamentos – 43.073 homens (24,8%) x 137.376 mulheres (79,1%)
2012: 277.407 casamentos – 68.789 homens (24,7%) x 224.315 mulheres (80,8%)
2011: 266.192 casamentos – 65.711 homens (24,6%) x 217.884 mulheres (81,8%)
2010: 255.432 casamentos – 62.120 homens (24,3%) x 211.219 mulheres (82,6%)
2009: 249.494 casamentos – 56.681 homens (22,7%) x 209.607 mulheres (84,01%)
2008: 252.385 casamentos – 58.653 homens (23,2%) x 215.148 mulheres (85,2%)
2007: 234.273 casamentos – 54.755 homens (23,3%) x 208.417 mulheres (88,9%)
2006: 233.793 casamentos – 51.671 homens (22,1%) x 201.181 mulheres (86,05%)
2005: 225.822 casamentos – 45.294 homens (20,05%) x 195.582 mulheres (86,6%)
2004: 212.791 casamentos – 37.269 homens (17,5%) x 183.449 mulheres (86,2%)
2003: 195.232 casamentos – 27.171 homens (13,1%) x 169.193 mulheres (86,6%)
2002: 178.172 casamentos – 15.506 homens (8,7%) x 156.332 mulheres (87,7%)

* Dados referentes ao Estado de São Paulo.

“Em 2002 houve a promulgação do Código Civil, tornando expressa essa possibilidade, que antes era apenas um raciocínio que se fazia a partir do princípio da igualdade previsto na Constituição Federal de 1998. Com a clareza da lei, os cartórios passaram a orientar os noivos dessa possibilidade”, explica Marcelo Salaroli de Oliveira, Oficial de Registro Civil de Jacareí, no interior de São Paulo, e diretor de assuntos jurídicos da Arpen-SP. Por mais de 60 anos as mulheres foram obrigadas a adotar o sobrenome do esposo após o casamento, obrigação que deixou de existir em 1977, com a Lei do Divórcio.

Vanessa e Marcel não sabiam que ele poderia adotar o sobrenome dela
Arquivo pessoal
Vanessa e Marcel não sabiam que ele poderia adotar o sobrenome dela

“A GENTE FICOU ATÉ ASSUSTADO”

Marcel e Vanessa, que estudam Farmácia em uma universidade particular na zona oeste de São Paulo, dizem que sempre quiseram compartilhar os sobrenomes, mas não sabiam se isso seria possível. “Questionamos no cartório, eles disseram que não tinha problema nenhum. A gente ficou até assustado, não esperava que pudesse ser feito. A gente queria, mas não achava que ia ser dessa forma, tão livre e aberta”, relata Duz, o marido.

Duz, a esposa, acredita que o crescimento no número de homens adotando o sobrenome das companheiras é uma mudança normal: “Os homens estão apreciando mais a capacidade da mulher, sabem que não são só eles que podem prover uma família, muitas vezes é a própria mulher quem faz esse papel. Nós dois entramos de cabeça aberta no relacionamento, não tinha nada de machismo, de provedor, decidimos que se fosse possível, faríamos desta maneira”.

“QUERENDO OU NÃO, É ELA QUE MANDA NA CASA”

Willians Luiz Duarte Ribeiro, de 36 anos, casou com Leila Miranda Duarte dois dias depois que Marcel e Vanessa, em 14 de setembro, e fez o mesmo. “No cartório, eles deram a opção, achei melhor adotar o nome dela. É uma questão de amor, honrar a família dela, fazer parte da família. Meus pais disseram que é estranho, mas acharam legal no final”, afirma o técnico de manutenção. “Querendo ou não, é ela quem cuida e manda em casa”, brinca Willians sobre Leila, confeiteira e 13 anos mais jovem, com quem mora na zona sul da capital paulista.

Vizinhos de bairro de Willians e Leila, o casal Douglas e Jéssica também não sabia que era possível adotar o sobrenome da esposa. “No cartório eles falaram, eu não sabia. Ele quis, eu também. Eu acho bonito nome grande”, diz a dona de casa de 23 anos. O resultado? Douglas de Araújo Moura dos Santos e Jéssica Vieira dos Santos Moura.

Willians adotou o
Arquivo pessoal
Willians adotou o "Duarte" de Leila: "É uma questão de amor, honrar a família dela"

DOCUMENTAÇÃO

A mudança no sobrenome pede outras, mais burocráticas e menos amorosas, como a alteração nos documentos pessoais (RG, CPF, carteira de motorista, passaporte, carteira de trabalho, título de eleitor são alguns deles).

“Muitos têm medo de fazer a alteração e já pensam em refazer os documentos no caso de uma possível separação. Como eu falei que ia entrar de cabeça no relacionamento e não teria receios de que acabasse algum dia, não ia importar”, afirma Marcel.

Curiosamente, dar entrada na papelada foi uma das razões que levou Marcelo Salaroli a não adotar o sobrenome da esposa. “Reconheço que é um gesto muito bonito, mas ao ponderar a necessidade de alterar todos os documentos já obtidos anteriormente, sinto que não vale a pena. É muita coisa.”

NOVOS LEVANTAMENTOS

Os dados foram recolhidos pela Central de Informações do Registro Civil (CRC). A assessoria da Arpen-SP informa que nem todos os cartórios do País são informatizados, de forma que um levantamento em âmbito nacional ainda não existe. Na Arpen-RJ, uma das que fazem uso do sistema, o secretário-geral Eduardo Corrêa declarou que eles devem ter esses dados em breve.

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