Em cinco expedições, Rodrigo Raineri conquistou a montanha mais alta do planeta três vezes, o que o torna o brasileiro que mais pisou no "teto do mundo". À frente de sua agência, criada quando estava na faculdade, ele leva clientes para escalar em nove países. Everest custa a partir de US$ 55 mil

Rodrigo Raineri conquistoy o cume do Everest, pela terceira vez, no dia 21 de maio deste ano
Arquivo pessoal/Rodrigo Raineri
Rodrigo Raineri conquistoy o cume do Everest, pela terceira vez, no dia 21 de maio deste ano

Ninguém sai de casa com 100% de certeza de que irá voltar vivo ou inteiro. No caso de Rodrigo Raineri, não é um exagero dizer isso. Alpinista desde os tempos de faculdade, Raineri, hoje com 44 anos, partiu em dezembro de 2001 ao lado do amigo e parceiro de escaladas Vitor Negrete rumo ao Aconcágua, na Argentina, onde tentaria o cume pela face sul, um das subidas mais difíceis no mundo e que vitimara três brasileiros três anos antes: Mozart Catão, Othon Leonardo e Alexandre Oliveira.

Questionado sobre a maior dificuldade que já passou em 25 anos de montanhismo, Raineri não hesita. “O pior perrengue foi na parte sul do Aconcágua, começou a nevar, caiu um monte de avalanche. Essa escalada é muito difícil. Por que morre pouca gente lá? Porque pouca gente vai”, conta Rodrigo, em entrevista ao iG por telefone. Sabendo das dificuldades que teria pela frente, ele deixou uma carta para o filho, batizado com seu nome e à época com quatro meses de vida, às vésperas de completar cinco, caso o pior acontecesse.

“Às vezes penso que é egoísmo dedicar-me a expedições tão longas e sinto-me péssimo, mas sei que viajando terei muitas histórias para contar e muitos lugares para lhe mostrar um dia. Acho que você entenderá quando crescer. (...) Não imagine que seu pai é louco, maluco ou qualquer outro adjetivo que talvez venha a escutar, porque não é verdade. (...) Se eu não voltar, gostaria que você continuasse pensando em mim e tendo a certeza de que seu pai nunca quis que isso acontecesse. Eu nunca o abandonaria, em hipótese alguma! (...) Se algo der errado, foi porque ele (Deus) ou Ela (a montanha) quis assim. Estarei sempre junto de você! Se não for assim, perdoe-me.”

A gente brinca que quando a pessoa contrata um guia, não contrata alguém para dizer que tem que subir, contrata alguém para dizer que hora tem que descer, é ‘desce’ e acabou.”

A carta nunca chegou às mãos do filho porque Raineri chegou ao topo do Aconcágua no dia 2 de janeiro de 2002 e voltou para contar a história, conforme escreveu, mas não sem antes passar por um momento inesperado. Ele e Negrete encontraram, sem querer, os corpos dos colegas Othon e Alexandre. Rodrigo não gosta de falar sobre isso: “Já faz mais de 10 anos, já conversei com o pai do Othon, faz muito mal para a família. Prefiro não falar mesmo”.

Em seu livro, “No Teto do Mundo”, o encontro é descrito em poucas linhas. “Fui escalando pelo obstáculo com muito cuidado e, quando cheguei perto do fim, visualizei uma corda fixa na aresta. Movimentei-me para a esquerda e avistei os corpos congelados de Othon e Alexandre. Na queda, a corda pela qual estavam conectados um ao outro enroscou em uma grande pedra, e eles ficaram pendurados, um de cada lado, o Othon em cima e o Alexandre bem mais abaixo. Eles estavam sentados, ainda apoiados pela corda, virados para o horizonte. O corpo de Mozart não estava lá. Provavelmente ele não estava conectado aos outros dois companheiros quando a avalanche os atingiu. (...) Meus olhos se encheram de lágrimas, e, por alguns minutos, não consegui mais escalar. Fixei vários pinos de segurança no gelo e aguardei Vitor me alcançar. Depois continuamos a escalada, emocionalmente abalados.”

SEVEN SUMMITS

Apesar das expedições longas o deixarem longe da família e do filho, atualmente com 12 anos, Rodrigo parte na madrugada deste sábado para mais uma, de onde retorna apenas na terceira semana de novembro. O destino? Papua Nova Guiné, lar da Pirâmide Carstensz, ponto mais alto da Oceania (4.884 metros) e integrante dos Seven Summits, grupo das maiores montanhas de cada continente e sonho de consumo de diversos alpinistas desde que Richard Bass conseguiu o feito, em 1985.

Raineri será o guia da expedição ao lado de Carlos Santalena, seu sócio na Grade6, empresa especializada em turismo de aventura, e dos sete clientes, dois, além dos guias, já escalaram o Everest: Ana Elisa Boscarioli, a primeira brasileira no ponto mais alto do mundo, e Eduardo Keppke, que busca na Oceania fechar os Seven Summits. Já Rodrigo espera fazê-lo em dois anos. “Acabei de montar meus próximos projetos. Em maio vou para o Monte McKinley (EUA), em agosto vou guiar uma expedição para o Monte Elbrus (Rússia) e provavelmente em dezembro ou janeiro vou para o Maciço Vinson (Antártica)”, diz o alpinista, que já conta com visitas aos cumes do Everest (três vezes), Aconcágua (seis vezes) e Monte Kilimanjaro (duas vezes), na Tanzânia (África).

“CRIADO NO MATO”

Nascido em Ibitinga, no interior de São Paulo, Rodrigo cresceu em sítios, de forma que sempre foi muito ligado à natureza. “Fui criado no mato. No colégio, a gente fazia várias viagens para a região de Brotas (cidade conhecida por seu turismo de aventura), fui para o Petar (Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira). Minha primeira escalada com corda mesmo foi no Pico das Agulhas Negras, no Parque Nacional de Itatiaia, com 19 anos. Foi no dia 7 de setembro de 88”, lembra.

Foi também em 88 que ele entrou na Unicamp, de Campinas, para cursar Engenharia de Computação. Na universidade ele criou dois grupos, o Gaia e o GEEU (Grupo de Escalada Esportiva da Unicamp), para depois abrir sua própria empresa, em 94, a Grade6, focada em turismo de aventura. “Projetos de escalada, segurança de trabalho em altura, tirolesa, parede de escalada, tudo está intimamente ligado à engenharia”, afirma o alpinista, que fez estágios no Brasil e na Holanda em sua área propriamente dita. “Hoje já não manjo tanto, mas já fui bom nisso”, brinca, aos risos.

No cume do Aconcágua, em 2004, para testar roupas e equipamentos que seriam usados na expedição do Everest, no ano seguinte
Arquivo pessoal/Rodrigo Raineri
No cume do Aconcágua, em 2004, para testar roupas e equipamentos que seriam usados na expedição do Everest, no ano seguinte

O PREÇO PELO EVEREST

Dos sete cumes, seis deles têm pacotes na agência de Rodrigo – o único ausente é o da Antártica. Quem quiser chegar ao Monte Kilimanjaro, que não exige habilidades técnicas de escalada, paga US$ 3,9 mil (cerca de R$ 8,5 mil), enquanto uma viagem para o cume da Pirâmide Carstensz custa US$ 12 mil, em uma expedição com um mínimo de seis integrantes. “Eu me empolgo muito mais em guiar pessoas a fazer o cume do que fazer os cumes em si. Curto ajudar, compartilhar, organizar, estar junto”, diz o engenheiro.

Assim como o Everest tem alguns bons metros de altura a mais que o Kilimanjaro e o Carstensz, o preço do pacote também é mais elevado. “Muita gente sem experiência me procura. Se você quiser me contratar para te levar, [o preço] é a partir de US$ 55 mil. A gente vai te ajudar a se desenvolver para que você possa ir e curtir a montanha. É bom estar preparado para aproveitar”, afirma Rodrigo.

Perguntado se os clientes respeitam os guias, uma vez que acima de 8 mil metros, região conhecida como “zona da morte”, eles podem não raciocinar direito por conta do ar rarefeito, ele diz que já foi pior: “Hoje em dia a gente conversa mais, passa um ‘briefing’ maior, as pessoas entendem. Elas falam que treinaram, gastaram uma grana, mas você analisa velocidade, condição física, não vale a pena arriscar. Pode ser que dê certo, mas e se não der? Não é para chegar no limite, se tiver perto do limite desce”.

“A gente brinca que quando a pessoa contrata um guia, não contrata alguém para dizer que tem que subir, contrata alguém para dizer que hora tem que descer, é ‘desce’ e acabou”, completa. Raineri, no entanto, confessa que passou duas horas no cume – a maioria dos alpinistas inicia o processo de descida minutos após atingi-lo – na última vez em que esteve lá, em maio passado. “É uma eternidade. Eu me sentia bem, fiquei duas horas curtindo.”

EVEREST: CINCO EXPEDIÇÕES, TRÊS CUMES, UM AMIGO

Em 19 anos de alpinismo, Raineri foi ao Everest cinco vezes e alcançou o cume em três oportunidades, o que o credencia como o brasileiro que mais vezes pisou no “teto do mundo”. A primeira conquista foi em 2005, ao lado do amigo Vitor Negrete, que morreria no ano seguinte após chegar ao cume sem ajuda de oxigênio suplementar. 2006 também foi o ano da morte de David Sharp, infelicidade que se transformou em polêmica pelo fato do alpinista inglês ter morrido enquanto colegas passavam por seu corpo, escondido em uma pequena caverna.

“O cara não tinha mais condições de descer. Não estava lá, mas estava no acampamento base, sabia de tudo. O próprio David assumiu uma série de coisas que eu não sei como a imprensa não divulgou. Ele não tinha rádio, estava sozinho, não usava oxigênio, não tinha nenhum equipamento eletrônico a não ser uma câmera, ele era meio minimalista. Tive conversas com ele – Sharp aparece com Raineri em uma fotografia do livro “No Teto do Mundo” – e disse que ele estava se arriscando demais. Ele já tinha tentado uma vez antes, não conseguiu, já havia tido uma amostra do quanto a montanha é agressiva. Por mais que não seja difícil tecnicamente porque tem apoio e corda fixa, o ambiente é agressivo. Nunca se deve esquecer isso. No caso do David, ele acabou entrando em uma caverna para se proteger do frio, deve ter dormido, acabou congelado, não tem como. É irreversível, você não tem energia para esquentar o corpo”, explica. Sobre um possível código de conduta entre os montanhistas de que não há o que fazer com quem sucumbe na “zona da morte”, Rodrigo diz que isso não existe: “Cada pessoa pensa de um jeito”.

Vitor Negrete e Rodrigo Raineri, na expedição do Everest de 2005
Arquivo pessoal/Rodrigo Raineri
Vitor Negrete e Rodrigo Raineri, na expedição do Everest de 2005

As outras duas conquistas vieram em 2011 e 2013, e em ambas ele tinha planos de descer da montanha em um parapente, e em ambas não conseguiu. A neblina impediu na primeira vez, a burocracia falou mais alto na segunda. “Se não tem autorização, não tem projeto. Falaram que iam me dar [a autorização], fui para lá tranquilo. Aí o documento não vinha, a gente movimentou a Seleção Brasileira de Parapente, ministro do Esporte, Itamaraty. Mandaram ofício para o governo do Nepal, mas infelizmente não adiantou. Não tem vontade política, esquece.”

Apesar das tentativas frustradas, a ideia segue de pé. “Tenho o projeto de descer voando de parapente. Ao mesmo tempo que as pessoas reclamam que tem que controlar [o número anual de alpinistas na montanha], fui no Mont Blanc (entre a França e a Itália), desci voando, subi de teleférico, ninguém perguntou meu nome, não paguei nada. As pessoas são educadas para usufruir o ambiente, em outros lugares é um milhão de taxas. Se descesse [do Everest] voando era lindo, em meia hora eu estava lá embaixo, mas é complicado. O burocrata é uma coisa, o atleta é outra”, afirma, fazendo referência à taxa obrigatória de US$ 10 mil que todo montanhista tem de pagar ao governo nepalês se quiser se aventurar no Chomolungma, ou “Deusa Mãe do Mundo”, como os sherpas chamam o monte de 8.848 metros.

“O MOLEQUE ADORA”

“Às vezes penso que é egoísmo dedicar-me a expedições tão longas e sinto-me péssimo, mas sei que viajando terei muitas histórias para contar e muitos lugares para lhe mostrar um dia. Acho que você entenderá quando crescer”, dizia a carta que Ranieri escreveu para o filho, em dezembro de 2001. Mais de 12 anos se passaram desde então e Rodrigo, o filho, aparentemente agora entende.

“O moleque adora, já escalou o Pão de Acúcar, passamos o carnaval escalando o [vulcão] Vila Rica, no Chile. Outro dia ele falou que queria escalar o Everest, se ele quiser eu vou com ele sem problema algum, mas eu não faço planos. Não está descartado, a gente só não fica viajando em coisas que estão muito longe. Antes do Everest tem Bolívia, Argentina, Kilimanjaro.”

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