Criada por biomédico paraense, Amazon Beer, de Belém, usa bacuri, cumaru, taperebá e priprioca em suas cervejas. Arlindo Guimarães, o dono, espera fechar o ano com faturamento de R$ 17,5 milhões e diz que marca já está licenciada para ser produzida na Inglaterra

Amazon Beer usa ingredientes como bacuri, cumaru e açaí em suas cervejas
Reprodução/Facebook
Amazon Beer usa ingredientes como bacuri, cumaru e açaí em suas cervejas

A arte do rótulo é assinada por Randy Mosher, cultuado designer norte-americano, e o nome parece obra de algum empresário estrangeiro que quer ganhar dinheiro à custa da Floresta Amazônica, mas a Amazon Beer, cervejaria eleita a melhor do País por uma revista especializada, é brasileira, de Belém do Pará, assim como alguns dos ingredientes usados para dar sabor e aroma às receitas: IPA Cumaru, Forest Bacuri, Witbier Taperebá, Red Ale Priprioca e Stout Açaí.

“Estamos na Amazônia, rica em aromas, sabores, raízes, madeira, frutas, sementes, então tudo isso é usado no processo de fabricação. Tem que ter uma identidade com a floresta, não adianta copiar cervejas de mais de mil anos da Bélgica, Alemanha Inglaterra. Tem que criar uma cerveja que não se encontra em nenhum outro lugar do mundo, a gente se inspira na matéria-prima que a floresta nos oferece”, diz Arlindo Guimarães, dono do negócio.

A tarefa de misturar raízes, frutas e sementes com malte e lúpulo ficou com Reynaldo Fogagnolli, mestre cervejeiro formado na Alemanha “após largar tudo”, em 86, quando cursava o último ano de Engenharia Elétrica no Brasil, e com 17 anos na Brahma, de onde saiu para trabalhar com microcervejarias e eventualmente abrir a sua. “Cerveja todo mundo faz. Estamos ali, na boca da floresta, a gente vai se aventurando por essas bandas, sempre buscando uma coisa nova. A Amazônia é um nome fortíssimo lá fora, então a gente sempre procurou, de uma certa forma, ficar atrelado a ela”, explica Fogagnolli.

“EU NUNCA TINHA OUVIDO FALAR EM BACURI”

Reynaldo, hoje dono da Cervejaria Universitária, em Campinas, interior de São Paulo, conta que ao ser questionado se seria capaz de fazer uma cerveja com frutos locais, respondeu que era “óbvio que conseguiria”, mas que não deixou de ser um desafio.

“A [Forest] Bacuri começou assim. Eu estava em Belém, e o arquiteto da Amazon na Estação das Docas (ponto turístico da capital paraense), Paulo Chaves, falou que eu tinha que conhecer um fruto de lá e me levou para tomar sorvete de bacuri. Eu nunca tinha ouvido falar em bacuri. É uma fruta fantástica, delicada, diferenciada. Ele então perguntou se eu conseguia fazer uma cerveja disso. ‘É óbvio que consigo’, falei. Passou a ser um desafio para mim. Depois que fizemos ficou legal, ganhamos um prêmio”, conta o mestre cervejeiro, fazendo referência ao prêmio de produto inovador de 2002, da TecnoBebida Award.

Para Reynaldo, outro desafio grande foi criar a Red Ale Priprioca, classificada por Arlindo como a “que deu mais trabalho”. “A raiz de priprioca já é conhecida na gastronomia e perfumaria, mas tem que tomar cuidado com esse troço porque é forte. Não é difícil, só requer um cuidado redobrado. Usamos tantas gramas da polpa de bacuri, outras tantas de semente de cumaru, mas a raiz é muito leve. Cinco gramas já fazem uma diferença tremenda por causa da sua intensidade.” Errar a mão faz parte, e é justamente por isso que Arlindo construiu uma pequena fábrica, “ao lado da fábrica grande”, usada apenas para desenvolvimento de novos produtos.

A FÁBRICA GRANDE

Nascido em Belém, Arlindo, de 54 anos, nunca trabalhou na área em que se formou: biomedicina pela Universidade Federal do Pará. “É uma daquelas coisas idiotas que a gente faz na vida. Gosto de biologia, mas ainda estudante tive a oportunidade de ser sócio de uma empresa de eletrônica. Aí foi uma roda viva. Acabou acontecendo uma coisa natural, a vida que escolheu, essa que é a verdade.” A “roda viva” inclui empresas de assistência técnica autorizada, distribuição de peças de videogames e a franquia de uma companhia especializada em softwares. “Eu sentia que era um negócio com prazo para terminar, como efetivamente aconteceu”, lembra.

Arlindo Guimarães, dono da Amazon Beer
Divulgação
Arlindo Guimarães, dono da Amazon Beer

No final dos anos 90, Guimarães “sentiu a necessidade” de ter outro negócio, um “negócio diferente”. Veio então a ideia de ter uma microcervejaria: “Naquela época tinha a DaDo Bier (de Porto Alegre) e a Continental (de São Paulo), achei que era uma novidade que vinha para ficar”. Após alguns anos de pesquisa, o empresário abriu a Amazon Beer “no dia 13 de maio de 2000”, com um investimento inicial de R$ 5 milhões, recuperados depois de três anos e meio.

O mestre cervejeiro contratado por Arlindo foi o “grande amigo” Reynaldo, embora no começo não fosse assim. “Ele tinha um amigo que era meu amigo que representava um grupo de microcervejarias norte-americanas no Brasil. O Arlindo falou que tinha interesse em abrir uma, e aí esse amigo disse que conhecia um cara, me ligou e perguntou se eu podia ir para Belém à noite. Isso em 1996. Peguei um avião e fui do jeito que eu estava. Viajamos para os EUA, e foi daí que começou a nossa amizade. Ele é meu cliente, mas temos uma relação bem estreita.”

Em funcionamento há 13 anos, o negócio de Arlindo cresceu. Os 11 mil litros produzidos mensalmente em 2000 viraram 120 mil, e o empresário espera fechar 2013 com um faturamento de R$ 17,5 milhões. A marca está licenciada para ser produzida na Inglaterra até o final do ano. “A gente espera ter um bom resultado. Estamos iniciando exportação para EUA e Japão n o primeiro trimestre de 2014”, afirma. Sobre o mercado nacional, ele diz que não pode reclamar, principalmente em Belém. “É aqui que nos crescemos. Nosso brewpub (bar onde se fabrica e vende a própria cerveja) vende 30 mil litros por mês.” Fora do Pará, São Paulo é a região com mais vendas, de acordo com Guimarães.

“A GENTE QUER FICAR POR ESSAS BANDAS”

Apesar da distância de quase 2,8 mil quilômetros entre eles, Arlindo e Reynaldo não falam sobre a próxima cerveja, cujo lançamento está programado para o verão. “Estamos na fase final de testes, vai ter um ingrediente [típico], mas eu não vou adiantar”, comenta Arlindo.

“A gente tá com uma coisinha nova no tanque”, completa o mestre cervejeiro, sem dar muitas dicas sobre o que vem pela frente. E a ideia dos dois é seguir explorando a Amazônia. “A gente já pensou na possibilidade [de não usar coisas locais na receita], mas não vamos tirar o pé. A gente quer ficar por essas bandas”, diz Reynaldo.

CERVEJA FAVORITA

Fã de lúpulo, Fogagnolli brinca que até tenta “tomar cuidado na mão” na hora de criar uma cerveja nova. “Gosto de uma pilsen bem feita, pilsen de verdade, uma tcheca, alemã, curto as que têm um amargor bastante definido, e gosto, consequentemente, da escola inglesa.”

Já Guimarães afirma não ter uma preferência: “Gosto de vários estilos, gosto de IPA (Indian Pale Ale), Trippel, não tenho um estilo preferido, depende do momento, da situação, do lugar. Da Amazon Beer eu gosto mais da Red Ale Priprioca. Sou total flex”.

* Bebidas alcoólicas são proibidas para menores de 18 anos. Se beber, não dirija.

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