Filho de diplomatas e nascido em Nova York, Lourenço Bustani foi educado nos EUA, mas voltou ao Brasil para fundar a Mandalah, uma "consultoria de inovação consciente". Eleito um dos empreendedores mais criativos do mundo em 2012, ele rechaça o rótulo e lamenta não ver brasileiros na lista de 2013

Lourenço Bustani em sua caminhada, sempre aos finais de semana, por Williamsburgh, em Nova York
Adriano Fagundes
Lourenço Bustani em sua caminhada, sempre aos finais de semana, por Williamsburgh, em Nova York




Filho de diplomatas – o pai, de Porto Velho, é embaixador do Brasil na França, a mãe, do Rio de Janeiro, trabalha na delegação brasileira na Unesco, também em Paris –, Lourenço Bustani, de Nova York, mas “fascinado pelo Brasil”, diz ter sido “exposto a culturas, pessoas e países diferentes” desde pequeno, algo que o ajudou a fazer o que faz hoje: inovação consciente.

“Sou um reflexo desses lugares que moram dentro de mim. Foram vivências que treinaram minha capacidade de adaptação, resiliência e sensibilidade cultural. Mais que isso, me deixaram apaixonado por gente de todo tipo, perfil e origem”, diz o empresário de 33 anos em entrevista por e-mail ao iG.

LEIA MAIS: "Jeitinho brasileiro, se passar do ponto, prejudica", diz Bustani

Nascido na Big Apple, ele se formou na vizinha Filadélfia, a pouco mais de 150 quilômetros de distância, em Relações Internacionais e Ciência Política pela Universidade da Pensilvânia, estudando, paralelamente e de forma complementar, Administração pela Wharton School, também da “UPenn”.

Embora tenha se formado nos EUA, foi em São Paulo que Lourenço abriu sua empresa, a Mandalah, na Vila Madalena, bairro boêmio da zona oeste da cidade. “Como foi o Itamaraty que por muito tempo me deu a oportunidade de viajar pelo mundo, nada mais adequado do que retribuir trazendo tudo que aprendi de volta à pátria.”

Criada em 2006, a Mandalah teve a MTV inglesa e a MaxHaus (projeto no setor imobiliário) como seus primeiros clientes, carta que hoje conta também com nomes como Nike, AmBev, GM, AIG e o Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro – houve uma reunião com a EBX no final do ano passado, mas não resultou em “absolutamente nada”. Pouco mais de cinco anos após fundar sua empresa, Lourenço entrou para o ranking dos 100 empreendedores mais criativos do mundo da revista norte-americana Fast Company, figurando na 48ª posição, e abriu escritórios no Rio e em quatro países (Alemanha, EUA, Japão e México).

Na grande maioria delas [empresas brasileiras], falta não apenas criatividade, mas também uma atualização para os tempos atuais e ousadia para se libertar dos modelos antigos."

Mas o que exatamente é esta “inovação consciente” que atrai gigantes do mundo corporativo? Lourenço explica: “Nascemos da crença de que as empresas se desenvolveram por décadas olhando única e exclusivamente para o campo do lucro, esquecendo o campo do propósito. Nosso posicionamento ocupa exatamente o espaço em que esses dois campos, o do lucro e o do propósito, se encontram”.

CURTA A PÁGINA DO DELES NO FACEBOOK

Enquanto reveza alguns meses na capital paulista e outros em Nova York, onde se encontra atualmente para acelerar a integração dos seis escritórios, o empresário falou sobre o que efetivamente faz a empresa, rechaçou o rótulo de “o brasileiro mais criativo”, lamentou a ausência de compatriotas no ranking de 2013, afirmou que todo o seu tempo é livre ao ser questionado sobre o que faz no tempo livre e listou o que leu, viu nos cinemas e ouviu por último – quem sabe você tem algum surto de criatividade a partir daí.

Retiro dos CEOs da Mandalah ao redor do mundo na cidade de Tlayacapan, no México, na semana passada
Divulgação
Retiro dos CEOs da Mandalah ao redor do mundo na cidade de Tlayacapan, no México, na semana passada

iG: Você é filho de diplomatas. Até que ponto sua formação foi multicultural durante a infância e adolescência? Como isso o ajudou no que faz hoje?
Lourenço Bustani:   Tive o privilégio de ter sido exposto desde pequeno a culturas, pessoas e países diferentes. Na verdade, sou um reflexo desses lugares que moram dentro de mim. Foram vivências que treinaram minha capacidade de adaptação, resiliência e sensibilidade cultural. Mais que isso, me deixaram apaixonado por gente de todo tipo, perfil e origem. Como nosso trabalho na Mandalah tem a ver com um diálogo muitas vezes delicado entre o velho e novo, essa facilidade de me identificar com qualquer pessoa, seja qual for o paradigma que ela abraça, acaba nos ajudando a avançar como empresa.

iG: Você chegou a ser criado em alguma cidade brasileira? Identifica-se com alguma cultura regional daqui?
Lourenço Bustani:   Não fui criado em nenhuma cidade brasileira. Morei três anos em Brasília, na minha adolescência. Em São Paulo, depois de adulto, já são dez anos. Meu pai é de Porto Velho, Rondônia, mas se mudou para o Rio ainda jovem, onde conheceu minha mãe, que é carioca. Tenho sotaque pseudo-carioca, encontro minha paz no Nordeste, vibro em São Paulo, respiro o ar em Brasília, me divirto no Sul, e se tivesse que escolher um lugar para fazer um [período] sabático, seria alguma praia deserta perto de Pipa, no Rio Grande do Norte.

É lamentável que nenhum brasileiro tenha aparecido na lista [dos 100 mais criativos no mundo dos negócios] de 2013, sabendo dos milhares que estão espalhados por aí, encabeçando projetos transformadores no País e no mundo."

iG: Sua formação acadêmica se deu nos EUA. Por que voltar ao Brasil e abrir a empresa aqui?
Lourenço Bustani:
Porque sou e sempre fui fascinado pelo Brasil. E como foi o Itamaraty que por muito tempo me deu a oportunidade de viajar pelo mundo, nada mais adequado do que retribuir trazendo tudo que aprendi de volta à pátria.

iG: Ao ser questionado em uma entrevista do ano passado sobre o que a Mandalah faz e seus projetos, você destacou um trabalho com a Nike, mas não falou exatamente qual foi o papel de vocês. O que faz a Mandalah?
Lourenço Bustani:   A Mandalah é uma consultoria de inovação consciente. Nascemos da crença de que as empresas se desenvolveram por décadas olhando única e exclusivamente para o campo do lucro, esquecendo o campo do propósito. Nosso posicionamento ocupa exatamente o espaço em que esses dois campos, o do lucro e o do propósito, se encontram. O caixa prospera, as vendas crescem, geram retorno para os acionistas, mas, ao mesmo tempo, a sociedade e o planeta são beneficiados por aquele produto, serviço, estratégia, comunicação, o que for. Trocando em miúdos, na Mandalah acreditamos que só é inovador aquilo que melhora a vida das pessoas, e todos têm esse papel: sociedade civil, Governo e setor privado.

iG: Qual o perfil das pessoas que trabalham com você?
Lourenço Bustani:   Sobre as pessoas que trabalham na Mandalah, são inquietas, curiosas, engajadas, formando um mosaico de áreas do conhecimento (temos cientista político, jornalista, físico, economista, designer, psicólogo, administrador, entre outros) línguas, linguagens e crenças. Além disso, flutuam bem entre os lados direito e esquerdo do cérebro. Acredito que a inovação nasça desse choque de olhares e de um inconformismo positivo com o status quo. É o que buscamos nas pessoas e o que elas buscam na Mandalah.

Bustani na viagem diária de metrô do Brooklyn, onde mora, para o Soho, onde fica o escritório da Mandalah
Adriano Fagundes
Bustani na viagem diária de metrô do Brooklyn, onde mora, para o Soho, onde fica o escritório da Mandalah

iG: Qual foi o primeiro projeto da Mandalah? E o último?
Lourenço Bustani:   Foram dois trabalhos inaugurais ao mesmo tempo: MTV (Inglaterra) e MaxHaus (projeto no setor imobiliário), ambos em 2007. O último projeto foi para a faculdade ESPM. Recebemos a missão gratificante de construir, junto com as lideranças acadêmicas da escola, um novo Plano Diretor Acadêmico. Imergimos durante quatro meses na realidade da ESPM, pesquisamos melhores práticas ao redor do mundo e traçamos caminhos de futuro para a instituição no que diz respeito ao papel do professor, do estudante, novos cursos, metodologias, espaços, tecnologias, tudo para que ela esteja alinhada com o que existe de mais relevante na educação atual.

iG: Você comentou também que trabalham montando uma "visão". Como isso funciona?
Lourenço Bustani:   Alguns projetos têm a ver com a construção de uma visão de futuro para um determinado negócio. Ou seja, qual a visão de futuro para uma montadora, se formos pensar além do carro? Qual a visão de futuro para uma escola na qual o professor não é mais o detentor supremo do conhecimento e onde estudantes têm iPads na sala de aula? Nosso trabalho se relaciona não apenas com a projeção, mas com a atualização da proposta de valor de uma empresa, para que ela siga sendo relevante no futuro, porém de forma que todos se beneficiem: empresa, pessoas e planeta.

iG: A aparição no ranking dos 100 mais criativos da Fast Company logo te alçou ao "posto" de "o brasileiro mais criativo do mundo". O que te levou ou quais projetos você acredita que te levaram a figurar nesta lista?
Lourenço Bustani:   Em primeiro lugar, vale lembrar que estamos falando apenas de um ranking. Como ele, existem vários outros. Já o "posto" de "brasileiro mais criativo do mundo", esse eu rechaço veementemente. Não sou e nunca serei. O Brasil gosta de superlativos, eu menos. Além dos projetos transformadores que minha equipe vem conduzindo ao longo dos últimos sete anos, creio que o reconhecimento teve a ver com este novo modelo mental que propomos para o mercado, por meio do qual as organizações passam a descobrir caminhos para conciliar o lucro com um propósito maior, que realmente impacte positivamente a vida das pessoas. Trata-se de uma virada de chave de proporções inéditas.

Lourenço Bustani, fundador da Mandalah
Divulgação
Lourenço Bustani, fundador da Mandalah

iG: Você não aparece na lista de 2013, e o próprio top 10 deste ano é completamente diferente. Que avaliação você faz disso, uma vez que os critérios são definidos pela publicação? Acha que sua posição (48º) foi coerente, assim como não aparecer em 2013?
Lourenço Bustani:   Não tenho como comentar sobre nenhuma das listas, justamente por ser uma avaliação interna da revista. O que posso dizer é que nenhum nome escolhido em um ano se repete em outro, segundo a política da própria Fast Company. Dito isso, é lamentável que nenhum brasileiro tenha aparecido na lista de 2013, sabendo dos milhares que estão espalhados por aí, encabeçando projetos transformadores no País e no mundo.

iG: Falta criatividade às empresas daqui?
Lourenço Bustani:   Na grande maioria delas, falta não apenas criatividade, mas também uma atualização para os tempos atuais e ousadia para se libertar dos modelos antigos de produção e gestão, rumo a inovações disruptivas que visem o bem geral da nação.

iG: A abordagem das empresas, nacionais ou estrangeiras, que buscam sua consultoria mudou por conta dos protestos que ocorreram pelo País? Há um cuidado maior agora?
Lourenço Bustani:   Sem dúvida. Agora que a sociedade civil indica ter despertado para a realidade dolorosa do nosso país, todos precisam se perguntar como contribuir para um projeto nacional de reformas estruturais. Tanto o Governo como as empresas sabem que sofrerão cobranças cada vez maiores da sociedade.

iG: No final do ano passado você se reuniu com o pessoal da EBX. O que saiu desta reunião?
Lourenço Bustani:   Absolutamente nada, embora continuemos abertos ao diálogo.

iG: A EBX é uma empresa que está com a reputação seriamente prejudicada no mercado. Vocês já negaram trabalho para uma empresa? Como seria atuar em um projeto com uma companhia assim?
Lourenço Bustani:   A Mandalah trabalha com qualquer empresa que esteja comprometida com uma mudança concreta e positiva. Não discriminamos. Ninguém é melhor que ninguém nessa história. Se nos colocássemos em um pedestal moral de achar que empresas pertencentes a indústrias danosas não podem ser nossos clientes, estaríamos sendo extremamente incoerentes com nossos próprios valores e crenças. Precisamos ajudar quem mais precisa, por mais difícil que seja. Estamos a serviço da aceleração de um caminho evolutivo das empresas. Dito isso, nós já negamos trabalhar com empresas em algumas poucas ocasiões, seja por uma incompatibilidade entre os membros das equipes, seja porque sentimos que aquele projeto não deixaria um legado para a sociedade. Queremos preservar nossas energias para aqueles projetos que realmente visam transformar.

iG: E existem empresas com quem gostaria de trabalhar?
Lourenço Bustani:   Várias. Empresas aéreas (GOL, TAM, Azul), de telecomunicações (Claro, TIM, Vivo, Oi), bancos (Itaú, Banco do Brasil, Bradesco, Santander), mídia (Organizações Globo) e o Secom (Secretaria de Comunicação Social), do Governo Federal. Organizações presentes no dia a dia dos brasileiros e que precisam urgentemente dar grandes “reguinadas”. Desafios como esses chamam a atenção de uma empresa como a nossa, que tem a inovação consciente e a mudança como propósitos centrais.

iG: Há uma impressão de que jovens empreendedores, na casa dos 25 aos 35 anos, estão constantemente trabalhando para se manter à frente do que ainda não aconteceu. É assim que funciona com você? O que você faz no seu tempo livre?
Lourenço Bustani:   Tempo livre? Todo meu tempo é livre. Tempo preso não é comigo. Hoje minhas horas acordadas são divididas entre minhas paixões: a Mandalah, palestras, cursos, meus queridos amigos, leituras, yoga, natação, tênis, seminários, conferências e muitas viagens. Agora que estou morando em NY, incluí nessa receita caminhadas pelo Brooklyn. Estou em uma fase de ampliação em todos os sentidos, e por isso a busca não pára. Está sendo incrível viver. Muita gratidão e emoção.

iG. E você tem algum exemplo de empresário que admira?
Lourenço Bustani:   Inúmeros, cada um por seu motivo. Mas o que todos têm em comum é humildade, compaixão, coragem, ética e uma convicção de que estão a serviço de toda a humanidade.

iG: Pode nos dizer qual foi sua última leitura, filme visto no cinema e CD ou música comprado?
Lourenço Bustani:   "QS – Inteligência Espiritual" (Danah Zohar e Ian Marshal); o último disco do Pearl Jam, "Lightning Bolt"; e "La Grande Bellezza" (A Grande Beleza), de Paolo Sorrentino.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.