À frente do maior estúdio de tattoo do Brasil, Led's é um sujeito de aperto de mão firme e riso fácil. Ao iG, falou sobre o início numa profissão para que muitos não davam nada e contou que tigres, panteras, tribais e homenagens a entes queridos lideram a lista de mais pedidas

Sérgio Maciel, conhecido como Led's, na frente de uma das telas - pintadas por ele - no estúdio de tatuagem
Brunno Kono/iG São Paulo
Sérgio Maciel, conhecido como Led's, na frente de uma das telas - pintadas por ele - no estúdio de tatuagem

Quase não se ouve vozes na sala de Sérgio. Não é exatamente um silêncio, a conversa é liberada ali, mas o som das máquinas dele e de Tino, colega de profissão há anos, preenchem o vazio enquanto ilustram a pele dos clientes. “Tatuagem sem barulho não é tatuagem”, brinca Tino, que tira sarro do aparelho – sonoramente mais discreto – de Sérgio.

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Deixando seu traço no corpo do designer Jimmy Gibbons, de 39 anos, Sérgio se levanta rapidamente para cumprimentar. O aperto de mão é firme, como seu trabalho provavelmente exige, e o semblante dos olhos, por baixo dos óculos e acima da máscara cirúrgica, é sério. Ele está prestes a dar uma entrevista, mas parte dele a primeira pergunta: “Você tem tatuagens?”. A resposta é negativa. “A primeira é a que demora mais para fazer, depois é mais fácil”, conta, quase em tom de conselho.

O pessoal do consulado [dos EUA] levou alguns ‘Marines’ para fazer um símbolo deles, um símbolo que eu não podia tatuar em ninguém porque era exclusivo. Se eu tatuasse em alguém que não fosse um deles, ele [fuzileiro] fez assim, olha (Sérgio passa o dedo indicador da mão direita abaixo do queixo em um sinal de que perderia a cabeça), corta o pescoço.”

Pausa no atendimento. Sérgio tira a máscara, as luvas, os óculos e desfaz o semblante sério do início. Aos 51 anos – 31 deles dedicados à tatuagem –, Sérgio Maciel é o Led’s, dono do maior estúdio do Brasil, localizado em uma movimentada avenida da zona sul de São Paulo. “Já tinha outro tatuador que se chamava Sérgio, aí escolhi esse nome para ser um diferencial. Acabou virando meu apelido”, explica.

Ele não sabe dizer qual foi a tatuagem mais bonita que fez. “Tem várias, todo trabalho bem colocado no corpo me deixa fascinado.” Mas cita algumas das mais estranhas. “Já tatuei formiga, teve um cara que tatuou uma mosca, é engraçado tatuar uma mosca.” Embora não negue nenhum tipo de desenho – há exceções extremas, como suásticas –, afirma que hoje se dá ao luxo de não tatuar em lugares que não acha que vai ficar bom. “Não faço no rosto, na palma da mão, na sola do pé. Tem gente que pede, não dá para fazer, não fica legal.” Os tatuadores também são orientados a não fazer desenhos no olho e na região anal.

TIGRES, PANTERAS, TRIBAIS E HOMENAGENS A ENTES QUERIDOS NO TOPO DA LISTA

As mais procuradas no momento entre o público masculino são as “realistas em branco e preto, que são chamadas de 3D”, conta Led's. Escritas e tribais maoris, da Nova Zelândia, e polinésios também estão em alta. Animais como panteras, águias e tigres voltaram a ser muito pedidos, "sem contar pin-up e old school". Desenhos orientais (dragões e carpas) e homenagens a familiares (nomes e retratos) fecham a lista das mais pedidas do estúdio.

“ACHAVAM QUE NÃO ERA TRABALHO”

O sobrado na região de Moema que serve de QG para Maciel há 13 anos é o escritório de 25 a 26 pessoas, entre funcionários administrativos (gerência, limpeza, segurança e lanchonete) e os 13 tatuadores. Os negócios parecem ir bem, mas houve um tempo em que as pessoas perguntavam duas vezes o que Sérgio fazia e, ao ouvir a mesma resposta – “tatuador” – pela segunda vez, questionavam se “dava dinheiro”.

“As pessoas me perguntavam o que eu fazia da vida, eu dizia que era tatuador. O quê? Você vive disso?”, lembra Led’s, aos risos. “Encarei isso muitas vezes. Achavam que não era trabalho, só eu sabia o quanto eu me dedicava à noite, de madrugada. Foi uma das lutas mais importantes da minha carreira: projetar a tatuagem para a sociedade e quebrar esse preconceito.”

A empreitada em carreira solo aconteceu no início dos anos 80, mais precisamente em 82, época em que “existiam poucos tatuadores”, de forma que era difícil conseguir os materiais necessários. “Era caro e poucos tinham acesso”, diz Led’s. A sorte é que “alguém sempre viajava e trazia” e que o que era trazido “durava bastante”. E por se tratar dos anos 80, como fazer para divulgar algo sem ajuda da Internet ou de redes sociais cujos criadores engatinhavam ou sequer haviam nascido? “Eu tinha que correr atrás dos clientes. Durante um ano eu desenhei muito, não tinha escolha, tinha que me especializar em tudo e atender a exigência do mercado. Montei estande em casa noturna, em festa, entreguei panfleto na F1. Fiz muita divulgação, era o recurso que existia”.

Passado o primeiro – e sofrido – ano, Sérgio afirma que aos poucos foi ganhando credibilidade por trabalhar com um traço mais fino, algo não muito comum nos anos 80, e por ter aberto as portas do estúdio para tirar dúvidas. “Participei de programas de televisão, entrevistas, fazia questão de esclarecer para as pessoas o que era a tatuagem, como era feita, os devidos cuidados, e mostrar que não é isso que define o caráter de alguém.” A vida de tatuador solitário durou uma década. Depois disso ele mudou o endereço físico do estúdio duas vezes, agregou – e deixou ir embora – uma porção de artistas e chegou a gerenciar um segundo estúdio, adquirido junto ao amigo e tatuador Marco Leoni.

FAMÍLIA

A carreira escolhida por Sérgio despertou um misto de reações na família. O pai era contra, a mãe dava apoio incondicional e os irmãos ficaram um pouco reticentes – quem diria que o filho de um deles viria a trabalhar no Led’s. “Tenho um sobrinho que desenha muito bem, acabei dando a oportunidade, indicando o caminho, ele é um grande artista”, exalta o tio coruja. Sentado em uma das salas de espera do estúdio, Marcelo, aparentemente de fala tímida, prontamente “nega” os elogios descritos por seu mentor de profissão.

No andar de baixo do sobrado, em uma sala reservada com cara de escritório e “decorada” com um monitor com imagens das várias câmeras espalhadas pelo estúdio, ficam Valéria, esposa de Maciel, e Amanda, de 28 anos, filha do casal. Juntas, elas cuidam da parte administrativa do estabelecimento enquanto o pequeno Davi, da terceira geração da família, dorme tranquilamente em uma sala vizinha. “Uma pessoa que está do lado de fora não tem noção de como é gerir um estúdio de tatuagem”, comenta Sérgio.

Detalhe de uma das paredes do estúdio de tatuagem de Sérgio, na zona sul de São Paulo
Brunno Kono/iG São Paulo
Detalhe de uma das paredes do estúdio de tatuagem de Sérgio, na zona sul de São Paulo

REALITY SHOWS x REALIDADE

De fato, uma pessoa que está do lado de fora dificilmente terá uma noção de como é tomar conta de um estúdio de tatuagem, mas assinantes de TV à cabo tiveram uma vaga ideia a partir de 2005 com o surgimento do “Miami Ink”, programa que mostrava o dia a dia de um estúdio na Flórida, nos EUA. Basicamente, o que o telespectador acompanhava era brigas entre os tatuadores e belas histórias por trás de cada desenho que faziam nos clientes. Questionado sobre o que ali era realidade e televisão, Led’s dá a entender que o ambiente de trabalho pode ser realmente conturbado.

Led's Tattoo - Sérgio Maciel
Brunno Kono/iG São Paulo
Led's Tattoo - Sérgio Maciel

“Acompanhei esse programa durante um bom tempo. Essas coisas acontecem mesmo, intrigas, tem que manter um controle, às vezes você encontra pessoas que não são leais. Já tive muito tatuador que trabalhava aqui, mas montava salinha lá fora para levar cliente, tatuador sem um pingo de moral, de ética, de reconhecimento pela oportunidade de trabalhar aqui. A mentira vem à tona, a gente fica sabendo. Todas essas questões que aparecem no ‘Miami Ink’ ou ‘Nova York Ink’ são verdadeiras. E também tem coisa de ego, que só porque trabalha com tatuagem se coloca num pedestal, não faz qualquer tamanho de desenho. Se me procurar para fazer uma estrela, vou fazer; se quiser costas inteiras, vou fazer.”

As pessoas me perguntavam o que eu fazia da vida, eu dizia que era tatuador. O quê? Você vive disso?”

Integrante original do “Miami Ink", Christopher Nuñez chegou inclusive a morar no Brasil e tatuar com a equipe de Sérgio. Ele não entra em muitos detalhes, mas também não parece ter queixas do norte-americano: “Ele veio passar um tempo, o pessoal brincava, era uma galera unida, responsável. Gosto dos artistas que são responsáveis, que têm um propósito na vida”.

"TODA TATUAGEM TEM UMA HISTÓRIA"

Outro paralelo que é possível traçar entre estúdios e programas que se passam em estúdios são as histórias que motivam as pessoas a enfrentar a agulha. “Toda tatuagem sempre tem uma história. Hoje é difícil fazer por fazer, todo mundo tem uma razão, é uma homenagem para alguém, um momento importante da vida.”

Ao longo de três décadas de profissão, Sérgio coleciona boas histórias. Ele mal consegue segurar as risadas ao se lembrar de um sujeito “há uns 24 ou 23 anos” que tatuou o logo da Kenwood, fabricante de aparelhos eletrônicos, no peito: “O cara veio tatuar porque ia ser patrocinado pela empresa, alguma coisa assim, foi muito engraçado”.

Outro caso que permanece vivo na cabeça do tatuador de 51 anos foi a experiência com dois fuzileiros navais norte-americanos. “O pessoal do consulado [dos EUA] levou alguns ‘Marines’ para fazer um símbolo deles, um símbolo que eu não podia tatuar em ninguém porque era exclusivo, não sei se era iniciação de algum soldado. Se eu tatuasse em alguém que não fosse um deles, o soldado fez assim, olha (Sérgio passa o dedo indicador da mão direita abaixo do queixo em um sinal de que perderia a cabeça), corta o pescoço.”

LONGE DAS AGULHAS

Quando não está de avental, luvas e máscara cirúrgica, Led’s é adepto de atividades mais comuns: “Meditação, caminhar no parque, caminhada, voltei a fazer academia para andar de bicicleta, gosto de viajar, adoro viajar, curtir uma boa culinária, de cozinhar, experimentar, fazer alquimias na cozinha”.

Ele particularmente se orgulha da paella que faz – com frutos do mar, carne, mesclada, você escolhe –, fruto de aprendizado com o pai catalão, embora não morasse com ele, durante visitas quando tinha seus 18 anos. “É fantástica, só comendo para saber”, brinca o tatuador.

Quem também alia tatuagens e gastronomia é o tal “Alezinho”, forma como Sérgio chama o chef Alex Atala. “É um amigo das antigas, da época de 90, 89, 88, nessa época que a gente conheceu o Alezinho. Ele já tatuou com a turma toda.” Sérgio revela que muito antes de Atala brilhar à frente do D.O.M., eleito como um dos dez melhores do mundo, ele já cozinhava para os colegas tatuadores. “O Marco Leoni costumava fazer jantares na casa dele, o Alezinho sempre estava lá fazendo algo diferente. Gostava de cozinhar para a gente, sempre gostou. Apesar de muito ocupado, é um cara bastante atencioso com seus amigos”, diz.

Led's na frente de um quadro pintado por ele, na entrada do estúdio
Brunno Kono/iG São Paulo
Led's na frente de um quadro pintado por ele, na entrada do estúdio

TATUAGEM NÃO É COMO COMPRAR CALÇA JEANS

Sérgio e Tino brincaram que a primeira tatuagem é a que mais demora para fazer, mas defendem que seja assim. “O processo de maturação é importante para a pessoa saber o que quer. Tatuagem não é como comprar calça jeans, é definitivo, então não vai fazer por embalo. Não é algo aleatório, tem que ser bem desenhada, bem colocada e bem pensada para fazer com toda segurança, se é isso mesmo que ela quer”, alerta o tatuador com 31 anos de carreira.

Maciel lembra que sua primeira tatuagem quase surgiu assim, no embalo. “Tive meu primeiro contato em 1977, 76. Viajava muito para acampar na praia e às vezes eu presenciei pessoas fazendo a mão, mas aquilo não me dava um fascínio, quase que fiz, era uma época de cogumelos”, e Sérgio volta a cair na gargalhada.

A primeira tatuagem de Led’s veio mesmo aos 19 anos, no começo dos anos 80, mas ele confessa que não possui muitas ao ser comparado a outros artistas com o mesmo tempo de estrada que ele. “Fui consciente, eu viajava muito também, aí parava em uma convenção, fazia com um amigo, com outro. Fui fazendo conforme alguma coisa marcasse minha vida.” No entanto, isso não significa que ele esteja parado. “Não sinto a agulha há cinco anos, mas vou voltar a fazer. Vou mexer no braço, dar um ‘upgrade’ nas tattos”, conta.

Ele também parece fazer questão de refutar informações de que uma sessão no seu estúdio beira os R$ 600: “Nós temos um preço acessível, ao contrário do que pensam e falam. Você pode fazer uma tatuagem a partir de R$ 200, R$ 300, com a qualidade que nós oferecemos”.

Aos 51 anos, Sérgio Maciel não tem planos de parar. Embora diga que é “muito feliz” com o que faz, ele agregou recentemente outro serviço, em parceria com clínicas médicas e voltado para o sexo feminino. “Comecei a desenvolver um trabalho que ajuda mulheres que tiveram câncer de seio, que passaram pela mastectomia, fazendo a reconstituição da auréola e do mamilo.”

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