Idealizada pelo cônsul-geral da Bélgica em São Paulo, semana terá bares da capital paulista e de Campinas com descontos na bebida. Conheça os estilos e características da escola belga

Loja de cervejas em Bruxelas, capital da Bélgica
Getty Images/Mark Renders
Loja de cervejas em Bruxelas, capital da Bélgica

Quando chegou ao Brasil, há 15 meses, Didier Vanderhasselt, de 42 anos, observou depois de algumas caminhadas pela região do Jardins, na zona oeste de São Paulo, que o brasileiro se parece com seus compatriotas em um gosto: o pela cerveja.

“Pensei no primeiro dia que eu tinha que fazer uma atividade sobre cerveja, achei que era importante fazer uma publicidade das nossas cervejas”, defende Vanderhasselt, nascido em Gante, na Bélgica, e cônsul-geral do país no Brasil, cargo que ocupará por quatro anos. Foi dele a ideia de criar a Semana da Cerveja Belga, evento que começa hoje e vai até o dia 17 de novembro em São Paulo e em Campinas (veja a relação dos bares ao final da matéria).

Ao longo dos próximos dez dias, os bares participantes vão oferecer descontos de 10% a 50% em cima dos rótulos, degustações e sorteios de brindes. “Acho que em uma semana nós poderemos explicar mais sobre a cultura da cerveja belga, sua história, tradição. Para nós isso é mais importante que vender”, diz Didier.

De acordo com Vanderhasselt, mais de 300 rótulos fabricados por parte das “400 a 500” cervejarias belgas estão disponíveis por aqui. “Existe um ditado lá [na Bélgica] que diz que a produção é tão grande que você tem uma cerveja diferente para beber por dia no ano inteiro, mas a anedota precisa ser atualizada. Já são mais de mil cervejas, é mais de uma diferente por dia no ano. É muita cerveja”, afirma Marcelo Costa, jornalista e sommelier.

CONHECENDO AS ESCOLAS

Todos os especialistas consultados pelo iG  são unânimes em apontar a escola cervejeira da Bélgica como a mais complexa entre as quatro europeias – alemã, belga, inglesa e tcheca – e a norte-americana, mais recente e “que vem conseguindo resultados extraordinários e impressionando muita gente” com releituras de receitas já existentes, de acordo com Marcelo. Cada uma das cinco possui características que as definem.

O sommelier explica que os britânicos valorizam o malte, uma “cerveja refrescante e gostosa para beber em quantidade”, enquanto seus colonos nos EUA fazem releituras em “90% dos casos”, ainda que originais, com maior atenção ao lúpulo, muitas vezes norte-americano.

Já os alemães se guiam há quase 500 anos pela “Reinheitsgebot”, ou lei da pureza alemã, instituída em 1516 pelo duque Guilherme IV da Baviera e que determina que toda cerveja deve ser produzida a partir de um número limitado de ingredientes. “Isso fez com que a cerveja não evoluísse, mas eles se aperfeiçoaram dentro dessa limitação e criaram coisas espetaculares”, avalia Costa. E da República Tcheca vem o estilo que talvez seja o mais familiar ao paladar nacional, o das Lager e Pilsen. As duas últimas, inclusive, são as que mais influenciam a cervejaria brasileira, na visão de André Cancegliero, cervejeiro – é ele quem assina a Biritis, inspirada em Mussum – e dono da Urbana.

Mort Subit, exemplo de uma Lambic frutada
Brunno Kono/iG São Paulo
Mort Subit, exemplo de uma Lambic frutada

POR QUE A ESCOLA BELGA É COMPLEXA?

A variedade e complexidade, de acordo com Costa, é resultado de uma “evolução” que aconteceu na região em meados dos séculos 16 e 17. Por conta de uma norma que aumentava os impostos de bebidas mais alcoólicas como o vinho e a vodca, cervejeiros passaram a fazer cervejas mais pesadas, mas mascarando o álcool. “Sem estarem presos à lei da pureza alemã, eles colocavam o que desse na telha, às vezes muito mais temperando com semente de cravo, cereja. Ali a gente vai ter uma gama de experiências sensoriais que você não vai encontrar em nenhuma outra cerveja do mundo.”

“Sou fã porque você encontra a simplicidade, faz com que um cara que não gosta aprecie, até o máximo de complexidade, uma cerveja ácida, maturada em madeira, descansada de três anos, com muita especiaria, sem gás. É uma escola ampla, muito bonita”, diz Fernando Pieratti Bueno, de 32 anos, sócio da Urbana, cujo carro chefe é de linhagem belga, uma Strong Golden Ale, a Gordelícia.

OS ESTILOS MAIS POPULARES

Dubbel, Trippel, Quadruppel, Saison, Lambic, Blonde, Witbier. Estilos não faltam quando o assunto é uma cerveja belga. Para você não se perder antes de pedir para o garçom, Cancegliero, Paulo Almeida, dono do Empório Alto dos Pinheiros, e Sérgio Symanski, proprietário do Almada’s Beer Store, ambos na zona oeste da capital paulista, falam sobre alguns dos mais populares:

Dubbel:  cerveja que tem muito toque de ameixa, banana, chega a uns 6,5%, 7% de teor alcoólico. É um pouco pesada, mas das três principais é a mais leve. Exemplo: Chimay Red Brune.

Trippel:  normalmente tem toques cítricos, casca de limão, de laranja, coentro em algumas receitas, pêssego. É uma cerveja clara, não que a Dubbel seja escura, ela é mais cor de âmbar. Tem uns 7,5% de teor alcoólico. Exemplo: Tripel Karmeliet.

Quadruppel:  disparada a mais forte e mais difícil de beber, passa muita informação para você. Tem notas de chocolate, às vezes até um pouco de café, frutas passas como banana e ameixa, é muito intensa e carregada. Seu teor chega a 11,5%. Exemplo: Wäls Quadruppel (brasileira).

Blonde:  é uma tentativa dos belgas de concorrer com as loiras do mundo inteiro, com as Lagers da Alemanha. Tem bom corpo, é equilibrada, seria uma cerveja do dia a dia, clara, bonita, aromática. É fácil de beber, vai de 6% a 7,5% de teor alcoólico. Exemplo: Leffe Blonde.

Witbier:  de trigo, mas diferente da alemã, não tem sabor de cravo e banana muito forte. A belga é um pouco mais refrescante, com corpo mais leve e usa algumas especiarias como casca de laranja, alcaçuz e coentro. É muito fácil de harmonizar com comida, é leve, em torno de 5% de álcool. Exemplo: Vedett Extra White.

Saison:  carbonatada e com sabores cítricos e frutais, era feita por fazendeiros belgas e franceses durante o inverno para ser consumida no verão. Tem corpo leve, teor alcóolico um pouco mais alto que o normal, entre 6,5% e até 10%, mas não é perceptível no paladar. Tem textura de espumante. Exemplo: St. Feuillien Saison.

Lambic:  feitas com fermentação espontânea, tem um sabor azedo e ácido por causa da levedura Brettanomyces. Algumas cervejarias também adicionam frutas como cereja e framboesa à receita. Exemplo: Mort Subite Kriek.

Trapistas:  embora não pertençam a um único estilo, as cervejas trapistas recebem o nome por serem produzidas dentro de monastérios da Ordem dos Cistercienses Reformados de Estrita Observância. Apenas oito monastérios no mundo produzem a autêntica trapista, seis deles ficam na Bélgica – os outros dois ficam na Holanda e na Áustria. Exemplo: Westvleteren.

Rei Philippe bebe copo de cerveja durante visita de 2012 à Austrália, quando ainda era príncipe da Bélgica
Getty Images/Julian Smith-Pool
Rei Philippe bebe copo de cerveja durante visita de 2012 à Austrália, quando ainda era príncipe da Bélgica


POR ONDE COMEÇAR A EXPERIMENTAR?

Marcelo acredita que o mundo cervejeiro belga seja um bom ponto de partida para notar que existem outras cervejas. “Duvel, Leffe, trapistas mais fáceis de se encontrar são excelentes portas de entrada. Outras são difíceis, não dá para começar por uma Lambic. A pessoa pode estranhar”, alerta.

Além de Marcelo, André também vê nas belgas uma boa forma de entrar neste mundo de cervejas especiais. “Dessas [cervejas] ‘diferentes’, são mais fáceis de beber, não são tão amargas, são mais ricas em aromas, mesmo com um teor alcóolico elevado”, diz o dono da Urbana. Symanski completa com uma dica: “Para uma pessoa que só bebe Brahma, por exemplo, é indicado beber uma Blonde ou Trippel”.

No entanto, para o publicitário e fã das IPAs norte-americanas Alex Braceiro, de 23 anos, o melhor mesmo seria começar sua aventura com a obra dos germânicos. “Comecei a beber pelas belgas, mas considero um erro. Ela é mais complexa, difícil de entender aromas, sabores, para quem está começando eu acho legal a escola alemã. Hoje eu sou fã das belgas porque consigo entender o que elas têm a oferecer."

“MELHOR CERVEJA DO MUNDO”

Baseado nos dados do RateBeer, site com mais de três milhões de avaliações de cervejas, um levantamento conduzido por pesquisadores da Universidade de Stanford, nos EUA, concluiu o que muitos querem saber: quais são as melhores cervejas do mundo. O primeiro lugar é da Bélgica, mas não espere tomar um gole da campeã tão cedo.

Com uma nota média de 4,499 em um máximo de 5, a Westvleteren 12, produzida em quantidade limitada em um monastério belga, sagrou-se campeão do ranking. “A maioria das trapistas você encontra no Brasil. Essa não. Talvez essa dificuldade de achar, da oferta pequena, crie uma aura que faz a cerveja ficar ainda melhor”, brinca João Luiz Braga, de 33 anos, gestor de fundo de ações e que acabou de voltar da Bélgica, onde calcula ter tomado “umas 70 garrafas em sete dias”.

“É quase um bolo natalino, é uma experiência”, diz Marcelo Costa. Assim como João, o especialista viajou recentemente para terras belgas, de onde trouxe quatro garrafas da Westvleteren para o Brasil. O site oficial do monastério informa que é preciso fazer reserva de horário com 60 dias de antecedência para comprar uma caixa da bebida, mas Costa conta que isso talvez não seja necessário: “Quase todos os bons empórios belgas têm”.

Uma caixa com 24 garrafas da Westvleteren 12 sai por 40 euros (equivalente a R$ 122), mas, longe do olhar dos monges, o valor de cada uma delas muitas vezes supera o da caixa inteira. Em um site de anúncios brasileiro você pode encontrar usuários vendendo uma Westvleteren Blonde, 8 ou 12 por até R$ 200 a unidade, por mais que seja pedido aos compradores que vão até a Bélgica para que não revendam o produto.

Consumidor compra Westvleteren 12 nos EUA. Em 2012, número limitado de garrafas da cerveja foi exportado
Getty Images/Justin Sullivan
Consumidor compra Westvleteren 12 nos EUA. Em 2012, número limitado de garrafas da cerveja foi exportado

TRAZENDO DO EXTERIOR

Marcelo lembra que começou a avaliar cervejas por brincadeira há seis anos, mas o que era brincadeira acabou virando algo sério. O top 10 de uma viagem de 40 dias pela Europa hoje é um top 500 – sim, 500 –, encabeçado por três belgas. Ele costuma buscar rótulos difíceis de se encontrar ou que ainda não existem no Brasil, sempre ficando atento ao limite de 12 litros. Uma dica para que nenhuma das garrafas quebre no caminho é colocá-las dentro de meias. “Protege a cerveja e tem meias pelo resto do ano”, brinca.

POPULARIDADE NO BRASIL

No Brasil, números recentes da Nielsen revelam um crescimento de 3,5% no segmento de cervejas especiais nos últimos cinco anos, movimentando cerca de R$ 1,4 bilhão ao ano. Bares especializados na bebida ganham cada vez mais destaque, e de acordo com seus proprietários, a escola belga está em alta com os brasileiros.

“Nosso chope que mais vende é belga, o Delirium Tremens – conhecido por seu “mascote”, um elefante rosa –, vendemos mais de mil taças no mês de outubro”, diz Paulo Almeida, do Empório Alto dos Pinheiros. O ex-produtor de música e teatro conta também que dos rótulos disponíveis em seu estabelecimento, 210 – ele afirma ter contado na semana passada – são belgas e que “as trapistas em geral” nunca param na prateleira “porque roda”: “Belgas são a nossa maior oferta e maior venda”.

A mineira Wäls, responsável pela Petroleum, tem uma linha de cervejas próprias no estilo das belgas
Brunno Kono/iG São Paulo
A mineira Wäls, responsável pela Petroleum, tem uma linha de cervejas próprias no estilo das belgas

É também no Brasil que a marca do “elefantinho rosa” possui uma das filiais do Delirium Café, de Bruxelas, atual detentor do recorde de bar com maior variedade de cervejas – quase 2.500 – disponíveis. A unidade brasileira fica em Ipanema, no Rio de Janeiro, aberta há mais de três anos. “A gente viu uma casa com características excelentes, pedimos autorização e eles prontamente autorizaram”, diz o empresário João Thomi, dono do negócio e de uma importadora que traz marcas como Orval, Westmalle, Rochefort e Chimay, além, é claro, da Delirium. O “café” carioca conta com aproximadamente 400 rótulos, “20% a 30%” deles belgas.

No Alto da Lapa, zona oeste de São Paulo, o Almada’s Beer Store também fica perto dos 400 rótulos, 90 deles da Bélgica. Symanski, o proprietário, revela que as belgas “sempre têm uma venda constante por conta do cliente mais tradicional, que procura algo novo para beber sem agredir o paladar”, mas que atualmente a escola mais vendida é outra. “São as lupuladas dos EUA, com amargor intenso. A escola norte-americana está em evidência.”

Com a experiência desta primeira edição da Semana, Didier Vanderhasselt espera ampliar o evento para outras cidades: “Acho que ano que vem podemos fazer com mais atividades, mais participantes”. Caso você vá se aventurar pelo mundo das belgas nos próximos dias, Costa sugere cinco rótulos para procurar pelos bares e pela vida – se você não for de São Paulo ou de Campinas:

1.  Dubel Tripel Hop
2.  Rochefort 8
3.  Tripel Karmeliet
4.  Hoegaarden
5.  Pauwel Kwak

SERVIÇO – QUEM PARTICIPA DA SEMANA DA CERVEJA BELGA:

- Empório Alto dos Pinheiros
Rua Vupabussu, 305 - Pinheiros - São Paulo

- Bierboxx
Rua Fradique Coutinho, 842 - Vila Madalena - São Paulo

- Dona Mathilde Snooker Bar
Avenida Pompéia, 1.415 - Perdizes - São Paulo

- Asterix
Alameda Joaquim Eugenio de Lima, 573, 01403-001 São Paulo

- Frangó
Largo da Matriz Nossa Senhora do Ó, 168 - Freguesia do Ó - São Paulo

- Mr. Beer Anália Franco
Rua Emília Marengo, 383 - Tatuapé - São Paulo

- Mr. Beer Lisboa
Rua Lisboa, 502 - São Paulo

- Mr. Beer Itaim
Rua Dr. Alceu de Campos Rodrigues - São Paulo

- Mr. Beer Eldorado
Av. Prof. Rebouças, 3.970 - Pinheiros - São Paulo

- The Ale House
Rua Peixoto Gomide, 1.730 - Jardim Paulista - São Paulo

- Cerveja Gourmet
Rua Tito, 400 - Vila Romana - São Paulo

- Melograno
Rua Aspicuelta, 436 São Paulo - Vila Madalena - São Paulo

- Bar Brejas
Rua Conceição, 860 - Cambuí - Campinas

- Mr. Beer Barão Geraldo
Rua Maria Tereza Dias Da Siva, 932A - Cidade Universitária - Campinas

- Mr. Beer Taquaral
Avenida Barão de Itapura, 2.935 - Jardim Guanabara - Campinas

- Cerveja Store

* Bebidas alcoólicas são proibidas para menores de 18 anos. Se beber, não dirija.

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