Homens que casam mais tarde ou simplesmente não casam são tendência, segundo especialistas, e viram público alvo, ao lado das mulheres solteiras, do mercado imobiliário. "Acho bonito, mas não sinto nenhuma falta de filhos", diz empresário de 42 anos, solteiro

Ser solteiro convicto não é tão distante da realidade assim e é um movimento que tem crescido, segundo especialistas.

“O que tenho observado é o distanciamento cada vez maior da idade para casar. Homens estão se casando e se tornando independentes mais tarde. Muita gente tem casado em situações excepcionais ainda, como quando a mulher engravida, é casamento de urgência. Estão adiando o máximo possível e alguns optam pelo não casamento, ter parceiros estáveis, mas nada de casar, morar junto e criar família. Embora os comerciais de manteiga e peru de Natal continuem mostrando a família feliz, isso cada vez mais se comprova como uma mentira”, diz Eduardo Ferreira Santos, psiquiatra e autor do livro “Casamento: missão (quase) impossível”.

Ele aponta ainda o trabalho como um dos responsáveis. “Há uma exigência de mercado. Hoje em dia é raro encontrar uma pessoa que está 100% satisfeita com aquele emprego de 8h, com aquele salario. Quase todos nós trabalhamos à noite, fazemos curso, doutorado, mestrado em busca de uma posição na sociedade e uma posição econômica mais confortável. E aí cai no velho ditado, trabalha, trabalha, trabalha para ganhar dinheiro, ficar velho e pagar as doenças.”

Ailton Amélio da Silva, psicólogo, professor da USP e especialista em relacionamentos amorosos, vê uma tendência similar: “Tem um número crescente de pessoas que está optando por não constituir parceria fixa duradoura. Para eles o comprometer-se com alguém traz mais prejuízo do que benefício”. Não que isso seja necessariamente ruim para quem escolhe esse caminho, avalia o especialista. “Tem gente que vive bem sozinho.”

“O que a gente está percebendo é que as pessoas estão perdendo o medo da solidão e a transformando em solitude, na capacidade de viver sozinho, consigo mesmo. A família está passando para o segundo plano”, destaca o psiquiatra. “E acho que tende a aumentar. A imagem da família feliz está se deteriorando”, completa.

Thinkstock/Getty Images
"As pessoas estão perdendo o medo da solidão e a transformando em solitude", diz psiquiatra Eduardo Santos

“ESTABILIDADE É MOMENTÂNEA”

Ricardo Eirado é um exemplo do que Santos classificou como “casamento de urgência”. Quanto tinha 21 anos, o executivo e microempresário se viu em uma situação comum, porém não muita desejada quando não há planejamento: sua namorada estava grávida. “Na época eu me casei porque achei que era o correto, foi por uma questão de valores, hoje eu não faria isso”, diz.

Sete anos após o “sim”, veio o fim, e de lá para cá já são duas décadas como solteiro, “mais tempo divorciado do que casado”, brinca. O tempo como marido, no entanto, serviu para lhe mostrar que ele não iria se casar pela segunda vez. “Depois disso, procurei deixar claro em todos os relacionamentos”, comenta. Em alguns casos a escolha por não trocar mais alianças e ter filhos tornou-se um impeditivo para o andamento da relação, mas nada o fez mudar de ideia: “Descobri que não acredito em relações estáveis e duradouras dentro daquele modelo patriarcal. Não acredito em uma relação duradoura, acho que a estabilidade é momentânea, ainda que meu pai e minha mãe estejam juntos há 40, 50 anos. Não acredito que sirva para mim”.

Mas, ao contrário do que muitos pensam, estar solteiro não significa uma vida de constantes aventuras, apesar de algumas mulheres com quem o executivo se relacionou tenham sugerido uma relação aberta e colocado em cheque a monogamia. “Estou falando de mim. Não tem nada a ver com viver aventuras, eu gosto de namorar, de um relacionamento estável, agora, que esse namoro necessariamente me conduz ao casamento, aí já não sei”, relata Ricardo, que namora há um ano e oito meses, e cuja filha, de 26 anos, curiosamente, está casada: “Ela entendeu que o perfil do pai dela não é esse”.

“O CACHORRO ME FAZ PENSAR EM TER E NÃO TER FILHOS”

Eirado afirma que os amigos não estranham e que vários deles estão em situações parecidas. Um dos solteiros convictos, mas sem experiência prévia como noivo, é Flávio Moreira, de 42 anos. “Tenho períodos de união estável, mas nada de casamento formal e tradicional dentro dos moldes que as pessoas estão acostumadas”, diz o empreendedor, que vê em seu trabalho um dos motivos para nunca ter iniciado uma família. “Eu trabalho muito à noite, viajo para palestras, cursos. Não gostaria de viajar e deixar minha esposa em casa cuidando dos filhos, seria injusto com ela, contribuo para gerar o filho e depois ganho o mundo? Acho que ter filhos tem muitas coisas bonitas, mas ao mesmo tempo você tem perdas, e pensando de forma mais abrangente, não me senti motivado a tê-los.”

Ricardo também fala em “perda” e sugere que suas noites gastas em natação e outras atividades que não estão relacionadas ao trabalho poderiam ser afetadas. “Não é nada muito extremista. Por exemplo, eu dou aula na PUC-SP, sempre à noite. Não é uma profissão, vejo como um adicional. Vou nadar às 23h, chego em casa à 1h30 da manhã. Seria complicado fazer isso três vezes por semana se eu fosse casado naquele modelo tradicional.”

Diferente do amigo, Flávio diz que sempre se relacionou com mulheres, às vezes por dez, oito anos – a atual namorada está com ele há cerca de dois –, que compartilhavam da sua opinião. “Nunca houve um conflito. A relação terminava por outras razões”, conta.

Um companheiro, entretanto, já o fez pensar, ao mesmo tempo, em ter e não ter filhos. É um dogo argentino que atende pelo nome de Zero. “Sempre tive cachorro desde os 16 anos. Ele me faz pensar em ter e não ter [filhos]. O cão também te dá muito trabalho, esse tem energia, então eu passeio, escovo, dou banho, vou ao parque. Muitas vezes eu já faço isso por uma questão de rotina e sei que se não fizer ele vai roer todas as coisas aqui em casa. Por mais que, digamos, eu o trate com todo o amor possível, com uma criança é muito maior. É esse cuidado vezes dez”, explica o empreendedor.

O que pode parecer um sinal de arrependimento, entretanto, desaparece quando Moreira é questionado se chega a sentir algum tipo de remorso quando vê uma família. “Eu lido bem com isso, não sinto falta, não chego a pensar sobre o assunto. Tenho muitos amigos, gosto de sair, tenho uma vida muito ativa, pratico esportes. Não sinto falta, nada, mesmo quando vejo a situação família. Olha, acho agradável, muito bonito, mas eu não sinto nenhuma falta.”

Até 40% dos lançamentos da Coelho da Fonseca têm como alvo os solteiros, diz diretora do grupo
Divulgação/Coelho da Fonseca
Até 40% dos lançamentos da Coelho da Fonseca têm como alvo os solteiros, diz diretora do grupo

DE OLHO NOS SOLTEIROS

A conta é bastante simples. Um casal geralmente significa uma moradia, seja casa ou apartamento. Dois solteiros representam dois imóveis. É de olho nessa fatia da população que tem crescido, segundo especialistas, que o mercado imobiliário tem criado opções com características específicas para o solteiro, não só o homem.

Segundo Fátima Rodrigues, diretora geral de vendas e lançamentos da Coelho da Fonseca, entre 35% e 40% dos lançamentos da empresa são voltados para o solteiro “de 28 anos até de idade mais avançada”. “Em cima de pesquisas e observando o próprio mercado, nós identificamos uma boa liquidez, uma velocidade nas vendas nesse tipo de apartamento, de acordo com a região.”

Ela conta que eles começaram a perceber este público nos últimos dois anos e que entre as especificações dos edifícios pode-se encontrar metragens reduzidas, na faixa de 50 m² a 70 m², localização próxima de centros comerciais e de metrôs e serviços como manobrista, camareira e academia. Fátima chama isso de “um novo jeito de morar”. Uma curiosidade é que os prédios em questão não possuem espaço para crianças.

Diretor geral da imobiliária Itaplan, Cyro Naufel Filho, confirma que “há muita procura” por parte das pessoas solteiras, apesar dele também incluir os mais jovens na conta, e diz que a “praticidade”, observada em comandos no apartamento por celular e ar condicionado dentro do imóvel, por exemplo, é um “conceito importante para este público”.

MAIS VIÁVEL VIVER SÓ

Além das tecnologias citadas por Fátima e Cyro, Ailton Amélio acredita que as redes sociais, de uma certa forma, ajudam a tornar “mais viável viver só”, embora ele defenda que no último caso, o efeito de ferramentas como Facebook seja apenas paliativo. “Existem produtos voltados para quem é só. Os motivos para casar diminuíram, você pode comprar a granel uma porção de coisas que vinham no pacote, mas muita gente gostaria de comprar um casamento e não consegue”, ressalta o psicólogo.

Amélio se diz preocupado com os solteiros não por opção, mas “por distorção”. “Existem pessoas com trauma, incapazes de se comprometer, tímidos demais, que gostariam de ter uma relação e não conseguem. Temo que muita gente é só devido a problemas. É um bom motivo para procurar ajuda. Quem está bem, equilibrado, não procura, não vem”, diz.

E QUEM CUIDA NA VELHICE?

Outra preocupação, esta levantada por Eduardo, é quem cuida dos solteiros na velhice, tarefa que normalmente seria atribuída aos filhos. “Percebo que o pessoal está com essa de vida auto-suficiente, mas lá na frente, quem cuida? Não vai ter filhos, não vai ter ninguém”, questiona.

Ao ouvir exatamente essa pergunta, Flávio Moreira diz não pensar no assunto: “Vou pagar meu plano de saúde para não precisar. Se eu pensar na quantidade de amizades profundas que tenho hoje, tenho certeza que os amigos cuidariam de mim se eu estivesse com meu sistema biológico falhando”.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.