Aos 69 anos, economista, botânico, cantor e apresentador conta que foi mãe e pai ao criar seus filhos, hoje quarentões: "No início foi penoso porque não sabia para onde ir". Ao iG, ele fala da única coisa com a qual não pode viver sem: a família

Ronnie Von criou os dois filhos mais velhos sozinho após o divórcio do primeiro casamento
André Giorgi
Ronnie Von criou os dois filhos mais velhos sozinho após o divórcio do primeiro casamento

Os filhos, crescidos, casados, divorciados e casados novamente, são quarentões, mas o pai coruja insiste em chamá-los de “meu menino” e “minha menina”. Da segunda união, que já dura quase três décadas, veio o “menino mais novo”, o “melhor compositor contemporâneo” do Brasil, aos 26 anos.

Mesmo por telefone, é possível perceber que falar de família dá prazer a Ronnie Von. O ator e apresentador de 69 anos – uma “idade sugestiva”, brinca – é pai de Ronaldo e Alessandra, de 42 anos – a chef de cozinha é cerca de 11 meses mais velha que o irmão executivo – e Leonardo, mais jovem, fruto da união de 28 anos com Cristina, a “Kika”, com quem, no entanto, não é casado. “Pedi três vezes, ela não aceitou, disse que não se mexe em time que está vencendo. Temos um casal de amigos, e ela que não me escute dizer isso, que ficou junto por 36 anos. Resolveram colocar no papel, se separaram um ano depois. Acho que ela tem medo disso”, diz Ronnie.

Ronnie, nascido Ronaldo Lindenberg Von Schilgen Cintra Nogueira – “eu era de uma família de recursos do Rio de Janeiro” –, se casou cedo, aos 19 anos, com uma jornalista. Os primeiros filhos nasceram quando ele tinha seus 20 e poucos anos de idade, mas o verdadeiro baque aconteceu em janeiro de 78, com o divórcio. O cantor ficou com a guarda de Alessandra e Ronaldo, crianças na época, mas lembra que a ex-esposa foi a favor da decisão: “Foi um gesto de amor que ela teve”.

COMEÇO ASSUSTADOR

Pai e mãe, Ronnie diz que o começo da jornada dupla foi “assustador” e que deixava os filhos fazerem tudo. “Estava criando dois monstros. Quando vi, mudei radicalmente para o ‘pode nada’. Todo mundo que tem formação acadêmica, como é o meu caso, acha que tudo se resolve na literatura. É simples, é apenas bom senso e amor. Não precisa ser pedagogo se você leva no papo, se faz presente, cria um laço indissolúvel. No início foi penoso porque eu não sabia para onde ir.”

O único homem era eu. Essa ‘garotadinha’ desses colégios de riquinhos é preconceituosa, me xingava, chamava de bicha. Um dia meu filho viu o pai ser achincalhado. Ele não só entrou na porrada como nunca mais aprontou nada para que eu não fosse chamado.”

Como “mãe”, o apresentador se recorda de duas histórias emblemáticas, ambas com a filha Alessandra. “Minha filha menstruou com 10 anos. Eu já tinha lido a Enciclopédia Britânica que uma tia me deu em 1967, fui vendo com ela toda a parte de fisiologia feminina. Uma noite ela tomou um susto, acordou às 2h30 da manhã e me acordou. Fomos para uma farmácia 24h, compramos o primeiro absorvente, abri um champanhe, era uma coisa importante. Dei um dedinho para ela tomar, claro que tomei o resto da garrafa porque estava nervoso”, conta Ronnie, aos risos.

Já o segundo episódio ocorreu longe da esfera privada e teve Carlão, “misto de segurança e armário” como coadjuvante. “Fui comprar lingerie para minha filha. Entrei na loja que era de um amigo meu, isso na década de 70. O Carlão não quis entrar. Cheguei na vendedora, ela já chamou as outras, falei que tinha que ser de algodão porque a Alessandra tinha alergia, pedi algo mais engraçadinho, com bordado inglês. Quando olhei para a porta, estava lotado de gente me xingando de tudo, de bicha, travesti, porque era cantor famoso, cabelo comprido. O Carlão tinha sumido, deu aquele desespero, nem comprar roupa para minha filha eu posso. Falaram para eu subir no estoque e fiquei ali, esperando. Devem ter imaginado que saí por outro lugar, depois apareceu o Carlão, safado, e a gente foi embora com calcinha de algodão.”

Apresentador conta ao iG que sofreu muito preconceito no colégio dos filhos e ao comprar roupa para a filha
André Giorgi
Apresentador conta ao iG que sofreu muito preconceito no colégio dos filhos e ao comprar roupa para a filha

GAROTADINHA PRECONCEITUOSA

Não foi apenas com Alessandra que o cantor, apelidado nos anos 60 de “O pequeno príncipe”, foi insultado. O filho Ronaldo sempre teve boas notas e comportamento exemplar dentro de casa, mas na escola era outro garoto, o que obrigava o pai/mãe a ir às reuniões. “O único homem era eu. Essa ‘garotadinha’ desses colégios de riquinhos é preconceituosa, me xingava, chamava de bicha. Um dia meu filho viu o pai ser achincalhado. Ele não só entrou na porrada como nunca mais aprontou nada para que eu não fosse chamado.”

“ATÉ VOCÊ, RONNIE?”

Além de cuidar dos filhos, Von cuidava também da casa, e na hora de pedir alguns conselhos nesta área, eles não vinham dos amigos. “Eu gosto de falar de futebol, negócios e mulher, mas eu precisava de outros tipos de informação que os homens não podiam dar, então em me bandeava para as mulheres. Uma vez saiu na capa da Playboy uma garota com quem eu tive um romance. Meus amigos brincaram, diziam que eu conhecia melhor a intimidade daquela mulher, mas aí eu mudei de assunto e falei que havia comprado uma toalha de mesa deslumbrante. A reação de um deles foi essa: até você, Ronnie? Jogando água para fora da bacia?”, se diverte ao relembrar o caso.

MÃE DE GRAVATA

Apesar do crescimento dos filhos e da união com Cristina, o cantor revela que nunca deixou esse lado de mãe ir embora: “Quando ‘casei’, continuei com a história de fazer lista de supermercado, acho que ela (Cristina) tocaria a casa impecavelmente melhor, mas continuei. Aí um dia ela chegou e falou que eu era uma mãe de gravata. Aí ficou”.

Curiosamente, foi de Cristina que Ronnie teve ciúmes quando os dois esperavam a chegada do terceiro filho, Leonardo. “Eles (Alessandra e Ronaldo) se esqueceram de mim. Cheguei de viagem, tinha feito um show no Paraguai, ninguém veio me buscar no aeroporto. Cheguei em casa, nada, porra nenhuma. Fiquei chateado, tinha passado minha fase de mãe, tinha casado, ela (Cristina) estava grávida, meus filhos cuidando da barriga. E ela me aconselhou”, lembra o apresentador.

Tive essa coisa de ser mãe sendo homem, isso me enriqueceu emocionalmente. Eu sou uma pessoa melhor, tirei proveito de uma circunstância. Não existe nada na vida que possa ter um peso maior que a família. Vivo em função dela.”

Ao contrário dos irmãos, Leonardo teve pai e mãe de maneira plural, o que fez com que, de acordo com Ronnie, ele desse menos trabalho: “As tarefas foram divididas”. O caçula, que trilha uma carreira artística, a exemplo do pai, desde os 11 anos, não se entregou à música sem antes ouvir umas críticas do pai coruja.

“Tive que estudar economia por imposição, imposição de convencimento, uma tentativa de mostrar o caminho certo. Quis fazer isso com meu filho mais novo. Um dia eu peguei pesado, expliquei que nessa atividade, no Brasil, talento não significa nada. A mídia é paga, você paga para a rádio tocar sua música. Meu pai, vendo essa conversa, se meteu no meio e disse para não cometer a mesma imprudência que ele cometeu comigo. Pensei como seria se me tirassem a TV. Fiquei quieto. Agora o menino está aí, batalhando em uma luta desigual.”

O “menino mais novo” ainda mora com Ronnie e Cristina, e chegou a dividir teto recentemente com o mais velho, Ronaldo, após a separação deste. “Foi muito pesado, dramático”, comenta o pai, que vê no divórcio do filho um motivo para o caçula ainda não querer oficializar as coisas com a namorada de “muito tempo”. “Acho que ficou marcado na cabeça dele. Até já falei que se ele quiser ela pode morar aqui, ele tem um quarto grande. Ele disse para eu segurar a barra porque casar é uma coisa, separar é outra.”

Ronnie à frente do programa
Beto Lima
Ronnie à frente do programa "Todo Seu", da TV Gazeta

“TIREI PROVEITO DA CIRCUNSTÂNCIA”

O preconceito que sofreu ao longo de sua vida caseira dupla não anula a experiência de criar os filhos, avalia o apresentador. “Tive essa coisa de ser mãe sendo homem, isso me enriqueceu emocionalmente. Eu sou uma pessoa melhor, tirei proveito de uma circunstância. Não existe nada na vida que possa ter um peso maior que a família. Tudo passa, a família fica. Eu vivo em função dela.”

Não é à toa que Alessandra sempre dá cartão e presente de Feliz Dia das Mães até hoje. Na última ocasião, no entanto, o pai se irritou sem nem saber o motivo direito. “Ela estava em Nova York, eu de mau humor, chateado. De repente ela me liga, eu na casa do meu filho mais velho, ele me ofereceu um almoço de Dia das Mães, acabou meu mau humor, tudo. Foi uma coisa da inconsciência, era daquilo que eu sentia falta.”

O almoço na casa do filho foi uma exceção, alerta Von. Sua casa, no bairro do Morumbi, na zona sul da capital paulista, é onde costumam ser organizados o “Natal, Dia das Mães, batizado”. “É tudo sempre aqui. Acho que esse tipo de catalisador que é o lar tem uma importância fundamental para estar sempre com a família ao lado. O maior medo da minha vida é não tê-la ao lado, morro de medo da solidão”, desabafa.

E continua: “Fui premiado com essa história de família porque é o que mais prezo. Falo muito de família, da mulher, claro, também são altos e baixos, esse ano foi um ano de perdas de amigos, problemas financeiros, mas a família está lá para segurar a onda. Isso não tem preço. É o mais importante na vida”.

BICHO DE TOCA

Além de servir para receber amigos e parentes, a casa é também a fortaleza, metaforicamente falando, de Ronnie. “Tem galinheiro, pomar, fogão à lenha, lago com peixinhos. Esse tipo de coisa não é para mim, é para os filhos, para os netos. É esse tipo de contato que de fato tem valor na vida”, diz. Ele inclusive interrompe a entrevista para destacar a galinha e os pintinhos que estavam à sua frente e pede para ouvir – e dá mesmo para ouvir – o galo cantando. Para não ter que sair – ele conta que só sai à noite para trabalhar e ir a eventos “profissionais ou por amizade –, o apresentador construiu até uma pequena cinemateca: “Não gosto de festa, de sair. Sou bicho de toca, gosto de ter meus amigos sempre comigo”.

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