Criada com o objetivo de atender colecionadores, Só Gol, na Rua Augusta, em São Paulo, vende uniformes de times do Rio Grande do Norte e do Espírito Santo. Transação para trazer uma camisa rara leva até três meses, conta o dono Leandro

Camisas do Íbis, considerado o
Brunno Kono/iG São Paulo
Camisas do Íbis, considerado o "pior time do mundo", são até conhecidas na loja do ex-bancário Leandro

Da esquina com a Rua Estados Unidos até a Praça Franklin Roosevelt, a Rua Augusta, com extremidades na zona oeste e no centro de São Paulo, corta mais de 13 vias paulistanas – incluindo a avenida que é símbolo da cidade –, e distribui, ao longo de quase 20 quarteirões, bares, lojas, casas noturnas e restaurantes para os mais diversos – sem exageros – públicos que existem por aqui.

CURTA A PÁGINA DO DELES NO FACEBOOK

Uma dessas lojas atende um público específico de uma paixão que move milhões no Brasil, o de colecionadores de camisas de futebol. Entre as Alamedas Franca e Itu, a Só Gol tem fachada discreta, nada muito diferente dos demais estabelecimentos, mas ali há uniformes de clubes como o Corinthians de Caicó, no Rio Grande do Norte, e o Atlético de Rafaela, da província argentina de Santa Fé.

Para conseguir as camisas – de times que você provavelmente nunca ouviu falar –, Leandro Roberto de Andrade, fundador e dono da loja, garimpa em sites do exterior, entra diretamente em contato com os fornecedores, faz trocas com colecionadores de outros países e pede até para conhecidos seus que são comissários de bordo. Vale tudo.

“Dá muito trabalho. Quando vejo na televisão, na revista ou em algum jogo da Série A, Série B, corro atrás do fornecedor, entro em contato com o clube, o clube te passa o fabricante, vai atrás do fabricante. Como os fabricantes são pequenos, não têm nada para pronta entrega, tem que mandar fazer as camisas. Normalmente é uma transação que demora em torno de três meses”, explica o ex-bancário de 37 anos.

Quando o “manto sagrado” vem do exterior, a logística é outra. “Compro de sites ingleses, da Tailândia, é serviço de garimpar e fuçar por semanas. Pessoal que vai viajar traz, eu troco, tenho um amigo mexicano que sempre traz umas 50 camisas. Comprar de um fabricante fora do Brasil é quase impossível. Uma que demorou muito para chegar foi a do Deportivo Cali. Fiz uma troca com um colombiano, mandei uma do Corinthians, mas essa (Leandro aponta para a camiseta verde na vitrine) demorou três, quatro meses, parou na alfândega. No final saiu mais cara que a do Corinthians.”

LEANDRO LISTA CAMISAS QUE SÃO RARIDADES. CONFIRA NA GALERIA:

QUANTO MAIS DIFERENTE, MELHOR

Colecionador de camisas, Leandro conta que resolveu transformar a paixão em negócios em 99, três anos após começar a trabalhar em um banco, com um capital inicial de R$ 150 mil. Ele tocou os dois empregos até 2008, quando largou a vida de escritório para cuidar só da loja. A ideia, desde o começo, era “atender um público de colecionadores e amantes do futebol”. “O pessoal adora [camisas] de tudo que é lugar país. Quanto mais diferente, melhor”, brinca.

Ele afirma que teria “duas ou três mil” camisas se ainda estivesse colecionando todas que encontra, mania que começou nos anos 90, mas que parou e passou a selecionar melhor por falta de espaço: “Me desfiz das ‘normais’, as compradas em loja, e fui começando a dar uma selecionada”. Por “selecionada” entende-se uniformes que foram usados por jogadores. “A gente consegue contato com colecionadores, roupeiros, tenho várias do Santos, São Paulo, Palmeiras, Portuguesa. Fui montando uma coleção mais requintada, agrega mais valor sentimental.”

“TEM UMA QUE NÃO TROCO E NÃO VENDO”

Andrade lembra que a primeira camisa que comprou foi do Fluminense porque “achou legal”, embora o clube de coração seja o Corinthians, cuja coleção ele deu continuidade. “Tenho cerca de 100 em casa. Tem uma que não troco e não vendo. Uma que o Chicão usou em um jogo que o Corinthians tinha patrocínio da Perdigão, autografada por ele. O motorista da empresa do Chicão que conseguiu para mim. Vou tentar até enquadrar para colocar na sala”, diz.

Além do uniforme usado pelo zagueiro, hoje no Flamengo, o ex-bancário menciona outras duas camisas que têm história. A primeira é do Botafogo: “Consegui com um colecionador do Amazonas. Era autografada pelo elenco inteiro, mas até chegar foi uma transação de seis meses, ele dependia de outro colega, que tinha que ir até o centro de treinamento, trocar camisa. Quando chegou já devia ter assinatura de quem não estava mais no time”. A segunda é de outro clube do Rio de Janeiro, o Madureira, e que despertou o interesse de colecionadores de várias partes do Brasil e do mundo.

“Consegui agora um lote [de 20 peças] do Madureira com a foto do Che Guevara. Demorou dois meses para chegar. Falei com o pessoal do próprio clube, gente de não sei quantos países estão atrás da camisa, e já encomendei as de goleiro, com o desenho da bandeira de Cuba”, se gaba Leandro. Destaque em jornais da Espanha e Inglaterra, a camisa com o conhecido rosto do guerrilheiro argentino é uma homenagem aos 50 anos dos amistosos que a equipe carioca fez no país de Fidel Castro. “Hoje custa R$ 119. Você não encontra em São Paulo”, alerta o dono da Só Gol.

Brunno Kono/iG São Paulo
"Saldão" de dezembro vendeu mais de três mil camisas por R$ 30 cada, de acordo com o proprietário

PAIXÃO x NEGÓCIOS

Além da loja na Rua Augusta, Andrade tem ainda unidades na Vila Madalena e em Interlagos, zonas oeste e sul, respectivamente, da capital paulista. Ele diz que “consegue sobreviver” com seu negócio, sem “nenhum tipo de luxo”, e que espera abrir um quarto estabelecimento em 2014, a tempo da Copa do Mundo no Brasil.

Por falar em negócios, a loja realizou, no último sábado, o seu segundo “saldão”: três mil camisas por R$ 30 cada. Segundo o dono, o primeiro cliente chegou por volta das 5h da manhã, 3h30 depois já havia uma aglomeração de 70 clientes à espera da abertura da loja, marcada para 10h. “Durante o dia o público foi de 1.800 pessoas, colocamos cinco mil camisas à venda, a meta de três mil foi alcançada”, comemora Leandro. Como não havia limite de camisas por pessoa, alguns aproveitaram e adicionaram até 80 novas aquisições à coleção. Por conta da procura, o “saldão” continuou ontem e continua hoje. É correr e aproveitar.

    Leia tudo sobre: futebol
    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.