Alessandra vive um conflito: por ser do século passado acredita que o amor começa com conquistas, sedução, romance. Hoje, no entanto, isso não rola; daí sentir-se obrigada a rever seus conceitos.

Amor  que começa com conquistas, sedução, romance não
Thinkstock/Getty Images
Amor que começa com conquistas, sedução, romance não "rola mais", diz psicanalista

"Alemão esquece a noiva a caminho da lua de mel." Meu amigo Avimar compartilha a notícia já mandando a sugestão: "Acho que daria uma boa crônica". Notícia lida e conferida, comecei a refletir sobre as relações amorosas hoje. Homens comentam que há muitas mulheres disponíveis. Mulheres reclamam que está difícil encontrar homens.

CURTA A PÁGINA DO DELES NO FACEBOOK

Alessandra define: suas amigas estão encontrando nos gringos o romance que, com os nativos, não têm conseguido escrever. Ela própria vive um conflito: por ser do século passado acredita que o amor começa com conquistas, sedução, romance. Hoje, no entanto, isso não rola; daí sentir-se obrigada a rever seus conceitos.

Volto ao noivo alemão, alegoria desses tempos de desencontro. O sujeito capricha na apresentação, no prefácio e nos primeiros capítulos do romance, oferece à dama os sacrifícios de praxe e vai pra conclusão com esse the end mixuruca? Fim da festa, os pombinhos entram no carro. Partem em lua de mel, aquela noite que deveria adoçar, melar a vida até que a morte nos separe.

Melou. Hans – vamos chamar o noivo assim – esqueceu sua Brunilda no meio do caminho. Como? Parou o carro na estrada para abastecer, deu partida, engatou a primeira e se fue. Só notou muito tempo depois.

Nessas paradas aí de esquecimento geralmente não tem inocente. Chama-se ato falho: um ato criado pela invasão do primata, do homem das cavernas que tomou de usucapião nossas terras psíquicas aboletando-se em nosso inconsciente. Arremessada para o espaço virtual, a cara-metade virou gasolina presa na bomba, amor líquido, o único amor que Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, acha que hoje somos capazes de viver.

Agora vem o melhor da história. O Avimar mostrou a notícia já sugerindo a interpretação: a piada que acompanha a apresentação feita por Durkheim do seu famoso estudo sobre o suicídio. O casamento protege do suicídio, concluiu o sociólogo. Como sempre tem malandro para fazer piada com assunto sagrado, o cara na plateia pediu licença e contestou a conclusão científica: “Mas professor, o suicídio protege do casamento!”.

Hans deve ter ouvido os gritos cartesianos do seu brucutu interior, “penso, logo sou solteiro”, e se mandou. Contrariar o espírito do tempo que Bauman diz ser o “túmulo para os relacionamentos”?

Quem sabe Hans não queria só uma conexão, mais fácil de desfazer? Basta um clique no deletar, o ignorar de um e-mail, um bloquear no Facebook ou no Skype e pronto: sem drama, sangue ou tragédia grega lá vai a delícia errar pelo espaço virtual.

E você pode suicidar quem quiser. Juliana conta algumas dessas maneiras: “Ele colocou uma foto de perfil sozinho no Facebook, não quer demonstrar que é comprometido. Ele curte as fotos e posts das amigas dele e nunca as minhas."

Se Bauman tem razão eu não sei. Porque não é só no espaço virtual que a pessoa pode se recusar a estar disponível ou online quando o outro precisa: pode ser nas redes sociais, mas também no telefone ou mesmo em casa. Quantos já não se escafederam de uma visita?

Nany conta a frase ouvida um sem-número de vezes: “Ele prefere sair com os amigos dele do que comigo." E Ana Paula: “Por que você não presta atenção no que eu falo?”.

Então bloquear a lindinha não é magia existente só no reino virtual. Está aí o indeciso Hans esquecendo sua Brunilda para não me deixar mentir.

Thinkstock/Getty Images
"Menino aprende desde que nasce que sua virilidade está em quantas ele pegou, comeu ou ficou"

De qualquer maneira vivemos mesmo uma era de relacionamentos amorosos diferentes. Seja isso amor líquido ou, como prefiro dizer, amor nécessaire, aquela bolsinha de toalete que a gente saca quando precisa, espécie de rascunho do amor, aliança desenhada a lápis, fácil de apagar.

Sei lá qual era a aliança trocada por Hans e sua Brunilda – do caso só li o que o site publicou. O que sei é que o episódio é uma excelente metáfora dos relacionamentos amorosos hoje, tipo homens em fuga diante das “investidas” ou “ataques” das mulheres, como escuto por aí.

Freud disse: “A anatomia é o destino”. Frase que continua a ser criticada até os dias atuais. Eu mesma já gastei muita tecla para discordar. Foi o alvo da contra-frase não menos famosa da Simone de Beauvoir: "Não se nasce mulher, torna-se uma".

O quadro atual anda me fazendo pensar que um esquecimento ronda essas discussões, como se as relações amorosas fossem tão somente uma questão de direitos, ou de matemática no um a um. Quer dizer, ou “só” anatomia ou zero anatomia.

O iG fez uma enquete entre os leitores do Quem seduz quem? , escrito por mim há um mês. A pergunta feita é: quem deve cantar quem? A maioria dos votos foi para o “Tanto faz. Às vezes o homem é mais tímido e a mulher mais atirada”.

Ora ora, muito bem em tese e de direito. Mas de fato, se o membro viril é parte importante da brincadeira e não é livre para agir, então estamos diante de limites à iniciativa feminina.

Como escreveu um entendido do assunto, o homem, jornalista e cronista Xico Sá. "O pânico de broxar regra a vida do homem." E desse pânico descenderia sua afamada pressa e desprezo pelas preliminares.

O menino aprende desde que nasce que sua virilidade está em quantas ele pegou, comeu ou ficou – na eficiência da máquina, que ele muitas vezes confunde com carro.

Pois bem: quando a Secretaria de Políticas para Mulheres tentou censurar aquela campanha publicitária com a Gisele Bündchen, argumentou que ela eternizaria a mulher como “objeto sexual do marido”.

Se a mulher é o “objeto sexual do marido”, então o homem imaginado para essa mulher não é um esfomeado de quem se espera ereção permanente e infalível?

Mais uma vez tenho que concluir que todo homem carrega o fardo de uma Salomé insaciável.

* Marcia Neder é psicanalista, doutora e pós-doutora em psicologia clínica, escritora, autora de "Déspotas Mirins. O poder nas novas famílias", entre outros.

    Leia tudo sobre: amor
    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.