Criada em 1830, em Londres, Tanqueray tem agora uma "casa do gim" em São Paulo e espera ampliar participação da bebida no mercado brasileiro, que era de 0,1% em 2012. Na Inglaterra, esse número chega a 10%

Drinques do bar. são feitos com as três garrafas da esquerda. As da direita são para experiências, diz Marcos
Brunno Kono/iG São Paulo
Drinques do bar. são feitos com as três garrafas da esquerda. As da direita são para experiências, diz Marcos

Conquistar um espaço nas bancadas de bares de Nova York e de São Paulo não é tarefa para os fracos, mas é exatamente isso que o gim espera conseguir. Na Big Apple, o clássico gim-tônica – reza a lenda que ele nasceu pelas mãos de soldados britânicos na Índia, insatisfeitos com o sabor da tônica, usada para combater a malária – ganha releituras . Já a capital paulista recebeu no início de dezembro a “House of Gin”, ou “Casa do Gim”, em tradução livre, promovida pela marca Tanqueray e sediada no bar. – não se engane, o ponto faz parte do nome –, em Pinheiros, zona oeste da cidade.

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De acordo com dados do Euromonitor, em 2012, a participação do gim no mercado nacional foi de 0,1%, movimentando cerca de R$ 12,5 milhões. Fabricio Marques, embaixador das marcas de luxo da Diageo, responsável pela Tanqueray, e há 11 anos no ramo de bebidas, afirma que o grupo espera “conquistar ou reconquistar o brasileiro", inicialmente com coquetéis exclusivos em bares de São Paulo e Rio de Janeiro, embora a carta completa, com nove drinques, fique restrita a apenas um.

Apesar da inspiração em bares de Londres, Paris, Madri e Nova York, Marques diz que a Casa do Gim é uma exclusividade brasileira. “O conceito que criamos só existe aqui. Julgamos que é o momento ideal para potencializar o gim, o brasileiro tem um conhecimento maior de bebidas, foi o ponto para a gente inserir o gim em coquetéis”, explica o embaixador, sem entrar em detalhes sobre números do investimento.

“VENDE MUITO”

Segundo Regis Pina, diretor de marketing Cia. Tradicional de Comércio, que gerencia algumas casas especializadas em coquetelaria, entre elas Astor e SubAstor, o “tema gim” começou a ser desenvolvido no meio dos anos 2000. “Surgiram alguns bares focados em coquetéis. Nessa época você começava a sentir uma presença maior do gim, mas ainda pequena. O gim é uma bebida que não fazia parte do repertório do brasileiro, é mais aromática, mais forte. O brasileiro normalmente gosta de coisas mais leves.”

A ideia de ter uma carta apenas de gim-tônica, lembra Pina, surgiu no final de 2011 e foi colocada em prática no ano seguinte, fazendo com que o Astor fosse o primeiro bar paulistano a ter uma. Uma nova carta foi lançada em março de 2013, enquanto o SubAstor, no “porão” do bar original, oferece outros seis drinques com o destilado. Ao todo, oito rótulos são oferecidos: Tanqueray London Dry e No. Tem, Hendrick’s, Bulldog, Gordon’s, Gin Mare, Saffron e Bombay Sapphire. Regis afirma que a investida foi bem sucedida: “Vende muito. Caiu no gosto, com copo bonito, aquele copo balão, decoração. Atrai as pessoas”.

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“ME CHAMARAM DE LOUCO”

Por curiosidade, o gim caiu também no gosto de Marcos Lee. O chef de cozinha de 30 anos chegou a ingressar no curso de Publicidade, mas, “desesperado”, como ele próprio define, abandonou a faculdade e foi se virar na Espanha como cozinheiro. Mas a temporada de “um ano e pouco” no Velho Continente não ajudou muito, de forma que Lee lembra que “estava perdido” quando retornou ao Brasil. Ele decidiu montar um bar.

O projeto levou um ano e oito meses e R$ 4,5 milhões – “tragédia”, brinca Marcos – para ficar pronto, em janeiro passado. Marcos foi chamado de louco, não pelo capital investido, mas pela escolha da bebida que nortearia a carta do estabelecimento: o gim. “Sou amante de gim. Meus amigos me chamaram de louco quando souberam”, se diverte. Chutando por cima, ele diz que o bar tem “brincando entre 150 e 200 coquetéis”, contando com suas variações, e que “pelo menos 60%” deles levam o destilado à base de cereais e zimbro na receita.

Mas não é todo mundo que chega animado no bar. com a ideia de beber algo com gim, muito pelo contrário. “É engraçado, o pessoal vem pela primeira e diz que não gosta. Às vezes não conhece porque gim não se toma puro, tem aquele mito de que é bebida de bêbado, isso afasta as pessoas, mas quando você começa a ensinar, bate um papo no balcão, apresenta um coquetel, pergunta se gosta mais doce, mais ácido... A gente até brinca e diz que paga se o cliente realmente não gostar. É legal porque você vai meio que ensinando, introduzindo algo diferente”, explica o chef.

Por ora, a casa aberta por Lee trabalha com três marcas. Na parte de trás do balcão principal, onde apenas os funcionários têm acesso, ficam outros três rótulos de gim, não disponíveis no Brasil e nem para os clientes. “Esses eu trouxe de fora. Deixo aqui para brincar, fazer experiências, aí quando tiver por aqui nós já vamos saber o que fazer”, diz Lee.

Algumas das opções de gim-tônica do Astor, casa especializada em coquetelaria
Divulgação
Algumas das opções de gim-tônica do Astor, casa especializada em coquetelaria

CRIAR PALADAR LEVA TEMPO

Na avaliação de Fabricio, quem trabalha com gim tem motivos para ficar otimista, mas sair da participação de 0,1% para 1%, por exemplo, é um processo que leva tempo: “O potencial é grande. Primeiro temos que gerar interesse, tirar alguns sabores da cabeça do brasileiro, criar um paladar, isso leva tempo”. “O brasileiro está aprendendo a refinar o paladar, começa a sair dos coquetéis mais doces, indo para os amargos, é um sinal claro. Quando começam a ver que tem muita variedade, ficam curiosos, minha curiosidade começou assim”, completa Marcos.

“O que acontece é o seguinte: os clientes estão dispostos a experimentar coisas. A porta foi aberta e fez com que a categoria crescesse bastante”, comenta Regis. Se você também quer abrir a porta e trocar eventualmente a vodca com energético ou o uísque por algo com gim, o primeiro passo é pelo gim-tônica, aconselham Fabricio e Marcos.

* Bebidas alcóolicas são proibidas para menores de 18 anos. Se beber, não dirija.

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