A maioria dos homens, para não dizer todos, deve passar por isso em algum momento da vida. Especialistas não generalizam, mas falam os comportamentos mais comuns. "Vai para a gandaia, particularmente os mais jovens", diz psiquiatra

“Na sociedade é um tabu admitir o sofrimento. Aqui [no consultório] eles admitem
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“Na sociedade é um tabu admitir o sofrimento. Aqui [no consultório] eles admitem", diz psicólogo

Dizia Vinicius de Moraes e o poeta que a “vida só se dá” para quem se deu, amou, chorou, sofreu. E completava: “Eu francamente já não quero nem saber de quem não vai porque tem medo de sofrer; ai de que não rasga o coração, esse não vai ter perdão”. Em sua música, Vinicius deixa claro que sofrer por amor, encarar uma desilusão, é normal, afinal de contas, boa parte dos homens – e o compositor se dirige à ala masculina com “meu irmão” na penúltima estrofe – já passou ou vai passar por isso em algum momento. O que pode fazer toda a diferença aqui é como reagir a isso.

“Toda generalização em comportamento é falha. Do que eu observo, pessoas com uma estrutura psicológica mais madura reagem melhor do que os mais vulneráveis. Os que reagem bem ficam tristes, aborrecidos, mas vão em frente, pensam que a vida é assim. Já outros não se conformam com a perda, desenvolvem traços de ansiedade, depressão, angústia, quadros obsessivos de não aceitar que terminou, eles insistem”, analisa Eduardo Ferreira Santos, psiquiatra e autor do livro “Ciúme: O Lado Amargo do Amor”.

“’NÃO É MASCULINO’ ADMITIR O SOFRIMENTO”

Para Ailton Amélio da Silva, psicólogo clínico e professor da USP, a primeira reação do homem é não falar. “Na sociedade é um tabu admitir o sofrimento. Aqui [no consultório] eles admitem, publicamente, não. Eles falam que ‘não é masculino’, não dizem para os amigos que estão sofrendo por amor. Eu acredito que os homens sofrem mais que as mulheres, são eles que tomam medicação e ligam mais no meu consultório”, diz.

Margareth Signorelli, coach de relacionamento e terapeuta EFT (Emotional Freedom Techniques), acredita que o homem não se sinta confortável como a mulher para falar de uma frustração amorosa e que a tendência é ele “entrar na caverna”. “Quanto mais sente, mais fica quieto. Se a mulher tem cinco amigas com quem se abrir, os homens, quando muito, têm um. Ele se fecha, se tranca, não consegue falar. Ele tende a se proteger mais, com medo de que isso aconteça novamente.”

Santos não enxerga tantos bloqueios e cita os próprios pacientes como exemplo: “São pessoas que vivem em grupos, os grupos ficam sabendo e os amigos perguntam. Talvez eles não se lamuriem tanto quanto as mulheres, é uma tendência natural do homem em relação a todo sofrimento psicológico, que é tentar segurar a onda sozinho. Isso pode ocorrer. Mas, quando há grupos, particularmente os mais jovens, eles se abrem com os amigos mais próximos, só não colocam no Facebook”.

E afirma ainda que a última coisa que o homem deseja após a frustração é ficar na caverna. “Ele vai para a gandaia, vai para a noite, passa a se tornar um pegador. É o comportamento mais comum, caiu na rede é peixe. Os mais jovens caem matando.” E os mais velhos? “Esses são mais comedidos, os jovens são os atirados. Ia ser ridículo um cara como eu, de 61 anos, cair na noite”, responde o psiquiatra.

“A CURA É ARRUMAR OUTRA COMPANHEIRA”

“Cair na gandaia” pode ser o meio para conhecer novas pessoas e, na avaliação de Antônio Carlos Alves de Araújo, psicólogo há mais de 25 anos, a forma de superar o trauma: “A única cura disso é arrumar outra companheira”. Araújo conta que a maioria dos casos que atende de rejeitados são os que não aceitam a perda e lista quatro exemplos de como alguns reagem: “Chantagem econômica, pegar a guarda compartilhada dos filhos e brigar para não pagar pensão, ameaça de morte e jogar a ex-esposa contra a família dela, dizer que ela acabou com o casamento e que não presta”. “É aquele lance do animal que sobrou, de territorialidade, ‘a fêmea é minha e ninguém pega’. É uma situação muito complexa, o cara vai até a última esperança e se vale de tudo”, completa.

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Para especialista, cura é encontrar outra mulher
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Para especialista, cura é encontrar outra mulher

Outras reações citadas pelo psicólogo são perseguir e assediar a ex-companheira, largar o trabalho, entrar em depressão e até em litígio pela disputa do cachorro. “Tenho diversos casos de caras que estão tentando dividir tudo. Quantas vezes eu não fui testemunha”, comenta. Para exemplificar uma situação extrema, Araújo lembra o que aconteceu com Luiz Carlos Leonardo Tjurs, que, em meio a uma crise de ciúmes, se matou diante da então noiva, a atriz Ana Paula Arósio. “O cara não aceita, é um exemplo emblemático. Se deu um tiro para ela levar essa culpa pelo resto da vida.” Os que tocam a vida e seguem em frente não chegam a 5% dos casos atendidos, afirma.

VENCER NA VIDA

5% ou não, os homens que reagem de maneira positiva às frustrações de um relacionamento procuram se firmar profissionalmente, diz Ailton. “A identidade masculina muito está ligada ao lado profissional. Quando somos rejeitados, pensamos em vencer na vida, ficar famoso, ganhar dinheiro. O trabalho ajuda a pessoa a não ficar o dia inteiro pensando nisso.”

Questionados se a academia entra no horizonte, especialistas dizem que isto costuma ser mais recorrente nas mulheres. “O homem recorre menos. Ele prefere focar no trabalho, beber, sair à noite”, observa Ailton. Antônio Carlos é mais cético: “Propaganda para favorecer o comércio. Nunca peguei um caso em que o cara se separou e foi descarregar a frustração na academia. O que tenho mais aqui é de quem descarrega nas drogas, bebida, prostitutas. A mulher pode fazer isso, ela não larga mão da vaidade dela. Ela pensa que se um cara não deu certo, o outro pode dar. Já o homem se acaba”.

Criador da assessoria de corrida Run & Fun, Mario Sergio revela que os dois grandes motivos que levaram parte dos seus mais de dois mil atletas a praticarem o esporte foram saúde – e um “puxão de orelha do médico” – e a descoberta de um novo hobby. “A terceira tem a ver com conhecer pessoas e usar a corrida como um instrumento para melhorar a autoestima, ajudar a enfrentar uma fase de estressa, perda de alguém”, diz. Embora tenha ouvido falar de algumas “histórias”, o treinador não conseguiu localizar alunos que passaram por isso; dois indicados por ele disseram que já corriam antes da separação.

Para psiquiatra, homens que passam por uma separação, em especial os mais jovens, querem mais é festa
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Para psiquiatra, homens que passam por uma separação, em especial os mais jovens, querem mais é festa

HOMENS SE RECUPERAM MAIS RÁPIDO?

“O homem tem mais chances de se recuperar porque ele fica recluso, não se deixa machucar. Só encontra pessoas com quem vai sair um dia e nada mais, e quando consegue sair do buraco, já está recuperado”, avalia Margareth. Ailton Amélio é de opinião parecida: “Quando tem muita gente disponível, é mais fácil se envolver com outra pessoa”. Já Eduardo vê nos mais jovens uma geração que aprendeu que “homem também chora e que mulher vai à luta”, embora isso não impeça uma “regressão aos padrões masculinos e femininos antigos” em momentos de crise, como em uma perda. Seria o homem se fechar em sua caverna.

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