Segundo dados do IBGE, homens são maioria na "geração canguru", pessoas entre 24 e 34 anos que moram com os pais. Para psiquiatra, tendência não é saudável; já psicóloga afirma que não é necessariamente preocupante

Irene e Ricardo
Arquivo pessoal
Irene e Ricardo

De uns anos para cá, o termo "casa, comida e roupa lavada" identifica menos uma boa proposta de casamento e justifica mais a situação de jovens que ainda moram com os pais. É o caso de Ricardo dos Santos Ferreira, 36 anos, representante comercial, solteiro e que ainda usufrui do conforto da casa dos pais. "Eu acho que já deveria ter tomado outro rumo em minha vida, mas as coisas não saíram como planejei, talvez por minha indisciplina financeira", avalia.

Para ele, a falta de privacidade é o único fator que deixa a desejar. Já os "mimos" da mãe, para ele, são exagerados. "Minha mãe me mima tanto que até me irrita, mas sei que vou sentir falta em qualquer situação que venha a acontecer no futuro: casar ou morar sozinho. Ela é tudo para mim!", confessa.

De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 24% dos jovens com idade entre 25 e 34 anos - denominada "geração canguru" -, moram com os pais. Desse total, 60% são homens. Para a socióloga Sarah Silva Telles, docente da PUC-RJ, dois fatores justificam este fenômeno: questão financeira e valores. "Proteger os filhos já é uma característica da cultura latina, bem representada pelo papel de supermãe."

Além disso, segundo a socióloga, com os avanços da tecnologia e o consumismo, está cada vez mais elevado o custo nas grandes cidades. "Não é fácil manter o conforto de um jovem de classe média, por isso é mais vantajoso continuar morando com os pais, com a liberdade de direcionar seus recursos para o lazer", afirma. Outro fator é a mudança de comportamento adquirida nas últimas décadas, em que a liberdade sobrepôs o conflito: "Na década de 70, sair de casa era sinônimo de rebeldia. O jovem buscava, entre tantas coisas, a liberdade sexual". Hoje, esse conflito de geração está atenuado, e pais e filhos conseguem conviver de forma mais harmônica, cada um respeitando seus espaços e limites.

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PRATICIDADE OU COMODISMO?

É muito tênue definir a situação de forma generalizada. Mas, uma coisa parece certa: acomodar-se sob os cuidados maternos, na fase adulta, não é saudável. "O adolescente tardio [acima dos 30 anos de idade] conserva a estrutura psíquica dessa faixa etária, alimentando a dependência", explica a psiquiatra Dinah Akerman, pós-graduada em psicoterapia psicodramática. Para a especialista, os filhos precisam aprender a serem donos da própria vida, adquirir traquejo social. "A família é um alicerce, mas nas decisões diárias é fundamental ter uma postura independente."

Já a doutora em Psicologia, Dorli Kamkhagi, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPq/HCFMUSP), atenua que este número de jovens que ainda moram com os pais reflete uma situação social, econômica e psicológica que precisa ser compreendida. "Vivemos em um mundo no qual a longevidade se faz presente e, dessa forma, há um leque maior de possibilidades. Assim como a vida produtiva tem um novo tempo dentro deste contexto familiar e social."

Ronnie Von:
André Giorgi

Na visão de Dorli, as pessoas podem se casar mais tarde, por isso a carreira e a busca por melhores condições de vida ajudam nesta questão em que os filhos se sentem acolhidos para alçarem seus próprios voos em idades que, há duas gerações, já ocorria muito antes. "Hoje um jovem permanecer com seus familiares até os 30 anos ou um pouco mais, em especial os homens, não necessariamente significa um distúrbio de comportamento, ou algo preocupante", salienta.

Por isso, Dinah defende que uma forma de não transformar essa permanência em comodismo é pedindo aos filhos que participem do orçamento familiar. "Se o jovem pode contar com a família para investir em estudos, estabilizar-se e até ter condições de viajar e adquirir bens materiais, é saudável que também ofereça algo em troca e, neste caso, contribuir financeiramente pode ser uma forma de ele se preparar para uma vida independente no futuro", sugere.

"FILHINHO DA MAMÃE" PODE SER UM PARTIDO

O fato de uma mulher se apaixonar por um homem que, mesmo após os 30 anos, ainda usufrui os "mimos" da mãe, não significa necessariamente uma cilada amorosa. "É fundamental que essa mulher perceba a dinâmica que este homem mantém com a família", dá a dica Dinah. Para a psiquiatra, tentar mudar a situação pode ser um tiro no pé. "É importante avaliar o comprometimento dele com o relacionamento e, se perceber que ele está acomodado nessa situação familiar, buscar alguém mais compromissado."

Cabe à mulher observar se este homem também está vivendo essa paixão, afinal criar o próprio espaço de vida exige maturação e construção. "Algumas mulheres se queixam deste exagero nas ligações familiares, mas é preciso entender o tempo da entrada de um novo personagem nas dinâmicas de vida de cada um", ressalta Dorli.

A psicóloga diz ainda que o verdadeiro apoio familiar é aquele que transmite legados, memórias, histórias e dá a cada um de seus membros uma possibilidade de se construir como indivíduo. "Pais que tiveram uma boa história de conjugalidade e de respeito vão ajudar seus filhos a também cumprirem o seu papel como pessoas que se realizem no trabalho e até amorosamente", acrescenta. E como diz o velho ditado: um bom filho tende a ser um marido.

ROMPENDO LAÇOS

Algumas mães protegem demais e até exageram nos cuidados com os filhos "crescidinhos". Curtir a prole por mais tempo e ocupar-se com as coisas deles pode ser prazeroso, mas é essencial preservar a individualidade. "Uma mãe pode e deve mimar os seus filhos, porém precisa aprender a fazer a passagem de lugares. Aceitar que seus filhos têm necessidades a serem vividas, e precisa ser preenchido e viver trocas com pares", explica Dorli. Ela afirma que a mãe que utiliza de um afeto extremo como meio de impedir a saída de um filho pode estar comprometida emocionalmente e necessita de ajuda psicoterapêutica.

Essa simbiose entre mãe e filho precisa ser rompida, segundo Dorli, e essa tarefa cabe ao filho: "É ele quem deve buscar suas próprias experiências, ir atrás de amadurecimento". Ela completa que também é um processo comum os pais empurrarem menos e reterem mais. Por isso, o filho não pode casar-se com sua mãe, é importante que ele estabeleça limites. "Se ninguém rompe o cordão umbilical, a dependência pode se instalar", alerta.

Este não parece ser o caso de Irene Maria Dos Santos Ferreira, 64 anos, dona de casa, mãe de Ricardo. Ela diz que o fato de o filho ainda morar em sua casa não é um incômodo, mas que seu sonho é vê-lo casado, pois sabe que não vai durar para sempre. "Mesmo que essa união não seja duradoura, pelo menos, ela já terá tido uma experiência sozinho", justifica.

Segundo dona Irene, o filho gosta de ser cuidado - ao contrário do que ele disse que os "mimos" da mãe o irritam -, e Irene ela que seu "meninão" está sempre atento a tudo o que ela faz. "Ele toma conta mesmo e, às vezes, reclama se não faço o que ele gosta. Por isso, acho que, se ele tivesse condições financeiras de morar sozinho, ficaria mais tempo na minha casa para controlar tudo", finaliza.

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