Anthony Recenello ajuda os homens a abordar mulheres, mas não se diz um "artista da sedução". "Ele é quase um terapeuta. O que prescreve é praticamente um remédio", diz John, o cliente

Anthony Recenello, à esquerda, observa John, seu cliente, conversando com uma mulher
Joshua Bright/The New York Times
Anthony Recenello, à esquerda, observa John, seu cliente, conversando com uma mulher

"All the lonely people" - toda essa gente solitária, em inglês -, cantavam os Beatles, identificando um público consumidor enorme e com uma necessidade quase ilimitada. Em outras palavras, uma ótima oportunidade. Em uma segunda-feira à noite, no Meatpacking District, esse mercado ia de vento em popa: homens e mulheres estilosos dando voltas em torno um do outro, oferecendo tiradas e piadas, e reunindo seus celulares.

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No lounge do Dream Hotel, dois homens não deixavam nada à mercê da sorte. Anthony Recenello, de 29 anos, é um treinador de desenvolvimento social, que não é, ele destaca, um artista das cantadas. Seu companheiro, John, que pediu para ser identificado apenas pelo primeiro nome, temendo o constrangimento, é gerente de restaurante e paga US$ 1 mil ao mês para Recenello por quatro sessões de acompanhamento prático, das quais o objetivo máximo não é conseguir muitas mulheres, destacou.

Vamos fingir que acreditamos.

Recenello, um homem que não parece ser afetado pela dúvida, observava enquanto seu aluno se aproximava de uma mulher e começava a conversar. "Quero que ele olhe nos olhos. Isso mostra respeito pela pessoa", afirmou. Ele demonstrou seu método preferido de fazer contato visual: com a cabeça levemente inclinada para baixo, olhos levantados, sinalizando o que ele chama de "conexão meditativa".

"Você está presente, está no momento. Isso mostra que você sabe que a outra pessoa tem algo incrível dentro de si e quer deixar isso sair. E que você está pronto e só está esperando."

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Os smartphones apareceram; contatos no Facebook – "mais seguros que números de telefone", segundo John – foram trocados. John voltou ao professor, quase pulando de alegria. "Essa foi incrível", afirmou Recenello, abraçando o protegido. "Agora eu quero que você passe para o próximo nível."

Só os mais solitários procuram no Google por termos como "artista do xaveco" e "NYC" para descobrir a quantidade de soluções para os homens que querem conhecer mulheres – seminários de sedução, acampamentos, fóruns online, encontros, workshops e newsletters, frequentemente com a garantia da devolução do dinheiro.

Durante boa parte da existência humana, os homens contaram com as ferramentas tradicionais, como a astúcia ou a coragem, ou talvez um manual de cantadas anunciado na última página de uma revista masculina e entregue em envelopes de papel pardo.

Entretanto, isso tudo mudou em 2005, quando um livro chamado "O Jogo - A Bíblia da Sedução", escrito por Neil Strauss, antigo repórter do New York Times, revelou técnicas como "o negativo", um pequeno insulto que tem o objetivo de deixar uma mulher atraente em uma situação desconfortável. Tudo que acontecia longe dos olhos agora havia se tornado público e disponível para pessoas que jamais teriam coragem de entrar em uma sala de bate-papo dos mestres do xaveco.

Recenello já havia trabalhado como babá, instrutor de ginástica e treinador de vida para crianças – ele escreveu manuais para os pais, chamados "Charismatic Kid: The New Breed of Superhero" e "Let’s Let Kids Do Something Big".

Ele teve poucos relacionamentos românticos de longa duração e não está em um atualmente, mas não sofre de falta de confiança ou energia. Conforme escreveu em "Charismatic Kid": "Finalmente eu tenho algo que realmente considero incrível. Algo que nunca havia sido feito. Nunca mesmo (pode acreditar, eu conferi)".

Ele gosta de se distanciar da comunidade dos artistas do xaveco. Em uma tarde recente no Standard Hotel, ele bebia água mineral – não consome álcool, declarou – e traçava algumas diferenças fundamentais.

"Quando vejo esse tipo de gente no bar, dá para perceber na hora. Eles estão à espreita, usam frases feitas e histórias decoradas. Eles só querem saber de conquistar todo mundo que não conseguiram no colegial. Estou longe de fazer o mesmo", explica Anthony.

Ao invés disso, Recenello ofereceu alguns princípios comuns da literatura de autoajuda: seja você mesmo, não tenha medo da rejeição, seja vulnerável, esteja presente. Tenha paixão por seus interesses e homens e mulheres se sentirão atraídos por você. "Isso não apenas é moralmente correto, como é mais eficaz", ressalta. "Essa coisa da negação já saiu de moda."

Há alguns anos, ele começou a publicar conselhos em diversos fóruns. Em seguida, recebeu a ligação de alguém que precisava de ajuda. À medida que um protegido levava ao outro, ele começou a cobrar: primeiro US$ 400 por mês, até chegar a US$ 1 mil. Ele diz ter entre cinco e uma dúzia de clientes por vez.

"Fiquei impressionado com o cuidado, com a vontade de estar lá para fazer sua parte", conta Gustavo Sanchez, de 26 anos, que se tornou um dos primeiros clientes, depois de conhecer Recenello por meio de um workshop gratuito dado pela Real Social Dynamics, uma empresa internacional de treinamentos para encontros. "Seja qual for a parte de sua vida que precise de um incentivo, ele vai estar lá para ajudar."

Seu programa começou com técnicas para se aproximar das mulheres, passando gradualmente para uma assistência contra a depressão, que levou Sanchez a passar por um tratamento médico. "Ele não ajuda a gente a conseguir sexo. O que ele faz é ajudar a nos tornarmos pessoas mais confiantes e capazes de convidar estranhos para sair. Eu não diria que sou tímido, mas sinto que não mereço, que não tenho valor", diz Sanchez.

OS HOMENS REALMENTE PRECISAM DISSO?

Recenello destacou que é comum que homens contratem pessoas para auxiliar em seu desenvolvimento físico; por que não fazer o mesmo para o desenvolvimento social, onde as recompensas são potencialmente maiores? Muito embora pareça estranho pagar por esse tipo de serviço, ele acredita que logo essa mentalidade irá mudar.

"Lembre-se dos sites de relacionamento. Antes eles eram uma coisa brega e as pessoas tinham vergonha de falar a respeito. As pessoas não gostam de falar sobre a comunidade dos artistas do xaveco por conta do que eles representam. Quero que meu trabalho se torne algo comum, algo que todos tenham orgulho de dizer que estão fazendo."

E as mulheres, também precisam? Recenello confirmou novamente.

"Com a forma como eu ensino a interação, desejo que os caras sejam o mais limpos que puderem, ou seja, que estejam plenamente vulneráveis. É importante se expressar, ser bem específico a esse respeito. Quando isso ocorre, ambas as pessoas podem exibir quem são de verdade, e é nesse momento que elas podem realmente gostar umas das outras."

No Dream Hotel, John se aproximou de duas mulheres, com o acompanhamento de Recenello. Fez contato visual; ouviu com atenção; manteve uma conversa ativa. Recenello se moveu mais rapidamente, ficando de mãos dadas com a nova amiga, dando beijos no rosto, e conseguindo seu contato.

Ele não ajuda a gente a conseguir sexo. O que ele faz é ajudar a nos tornarmos pessoas mais confiantes e capazes de convidar estranhos para sair. Eu não diria que sou tímido, mas sinto que não mereço, que não tenho valor."

Em seguida, na rua, John avaliou o resultado da noite. Ele conheceu uma pessoa que poderia ajudá-lo profissionalmente, e se sentiu bem pela coragem de se aproximar de desconhecidos.

"Ele é quase um terapeuta", revela John a respeito de Recenello. "O que prescreve é praticamente um remédio. Todos nós precisamos de um empurrão. Estamos cansados de ficar na zona de conforto."

Recenello preferiu não ligar para a mulher com quem conversou. Ela foi divertida para bater papo por alguns minutos no bar, mas não era compatível para um encontro completo.

John defendeu que achava que o dinheiro foi bem gasto com a monitoria. "É difícil, mas a gente gasta dinheiro em muita coisa que não nos torna feliz. Esse é o melhor investimento, porque é um investimento em mim mesmo."

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