"Rei da Playboy", colecionador vende, compra e até aluga edições raras da revista, mas é preciso ser seu amigo. Sua banca tem ainda fotos com Adriane Galisteu, Regininha Poltergeist, Silvio Santos e até Marta Suplicy: "Fiz um convite para ela posar"

Guerrinha e algumas das edições que considera raras. Revista com Xuxa pode custar até R$ 12 mil
Brunno Kono/iG São Paulo
Guerrinha e algumas das edições que considera raras. Revista com Xuxa pode custar até R$ 12 mil

A "Banca do Guerrinha" é um dos poucos lugares – quem sabe o único – onde o baiano Jorge Amado é vizinho do austríaco Sigmund Freud, onde os heróis da "Odisséia Cosmica" ficam cara a cara com Pamela Anderson, a Proibida do Funk e Cissa Guimarães, onde a Playboy com a apresentadora Xuxa, de 1982, vem acompanhada de um Atlas do mundo. "É para não amassar a revista", explica Guerrinha, apelido de Estênio Guerra.

Guerrinha, de 55 anos, trata com esmero cada uma das 469 edições da famosa revista masculina, caso contrário, elas dificilmente terão algum valor. "Às vezes você pega a revista detonada, com marca de dedo, sem pôster, não vale nada. Se estiver com a embalagem de fábrica, aí sim vale." Por uma edição com a Rainha dos Baixinhos, a mais procurada pelos curiosos, ele conseguiu R$ 12 mil, por exemplo.

Ao todo, Guerra calcula ter 7 mil Playboys, divididas entre a banca e o depósito da loja de materiais de construção onde fica, na zona sul de São Paulo, cujo estacionamento ele gerencia.

"Tenho 15 coleções completas, desde a número 1 (de julho de 78)", diz. Para adquirir uma dessas coleções, as conversas iniciam em R$ 60 mil, depois é "ir negociando". Já a jornada de trabalho segue a da loja: "De domingo a domingo, das 8h às 21h. A loja abre, eu abro. A loja fecha, eu fecho".

Os preços variam entre R$ 10, se o comprador leva um lote com 50 revistas, e R$ 10 mil, se leva a Sonia Braga debaixo do braço. Em um dia bom, ele diz que vende "umas 70 revistas", mas, quem é amigo do dono costuma ter regalias, e aqui também é assim. Os "mais chegados" podem alugar uma Playboy por seis dias pelo preço de R$ 300. Basta devolvê-la nas mesmas condições e sem páginas grudadas, vale ressaltar.

"SOU CONSERVADOR, PARA MIM É UMA MULHER SÓ"

Estênio trabalha todos os dias rodeado de musas de pelo menos cinco gerações, mas, dentro de casa, é uma só, a "mineirinha". É assim, com um tom carinhoso na voz, que ele fala da esposa, de Juiz de Fora, em Minas Gerais. Casado há quase 30 anos, ele confessa que não lembra direito como conheceu Elce Maria.

"Estava trabalhando, por acaso encontrei ela, gostei. Falo que ela é igual uma índia, com cabelo preto. Tivemos uma conversinha, marcamos uns encontros e pronto, foi o bicho. E eu que já tinha conhecido 400 mulheres. Sou conservador, para mim é uma mulher só. Na aventura você pode se dar mal, e eu me aventurei, mas sabendo que depois que arrumasse uma pessoa, nunca mais."

Veja também:  Fotógrafo holandês mostra os bastidores da revista "Playboy" em livro

Questionado se a esposa não desaprova o ganha-pão do marido, Guerrinha não perde a oportunidade . "No início ela falou muito. A gente brigava, era coisa de marido e mulher, mas depois ela se acostumou. Conto uma história, que ela não gosta, que um dia ela – esteticista – chegou do trabalho e falou 'ou eu ou as revistas'. Falei 'vou escolher as revistas, quando conheci você, eu já tinha as revistas'", relata, em meio a risos.

O casal teve três filhas, todas na casa dos 20 e poucos anos, duas formadas e uma ainda na faculdade, estudando Engenharia Civil, e mora em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo. "Sou vizinho do Lula, só que ele mora no prédio de rico, eu no de pobre."

Lula não seria o primeiro vizinho ilustre na vida de Guerrinha. Ao se mudar de Quixadá, no interior do Ceará, para o Rio de Janeiro, na adolescência, o colecionador morou próximo do estádio do Vasco da Gama, o que não o influenciou. "Sou flamenguista de coração", brada. Do Rio, ele veio para São Paulo em 1978, mas os pais retornaram para o Nordeste, caminho que ele não pensa em seguir.

Banca do Guerrinha fica no estacionamento de uma loja de materiais para construção em SP
Brunno Kono/iG São Paulo
Banca do Guerrinha fica no estacionamento de uma loja de materiais para construção em SP

AS FAVORITAS DE GUERRINHA

Escolher as musas favoritas entre quase 500 edições pode parecer desafiador, mas Guerrinha sequer precisa mexer nas revistas e eventualmente se recordar de alguém que ficou para trás. Ele solta a lista de nomes assim que ouve a pergunta: Xuxa, Betty Faria, Sonia Braga, Magda Cotrofe – "Magda é o bicho" –, Monique Evans, Sílvia Bandeira, Luiza Brunet, Claudia Raia, Maria Padilha.

Das capas mais recentes, ele elege Feiticeira (Joana Prado), Tiazinha (Suzana Alves), Carla Perez, Sheila Carvalho e Adriane Galisteu, com quem tem uma foto, devidamente pendurada na banca, ao lado das lembranças tiradas com Regininha Poltergeist e Marta Suplicy. "Fui fazer um convite para ela posar, ela não quis. Falou que depois ia pensar no assunto", conta o vendedor sobre a ex-prefeita de São Paulo.

Luana Piovani é a mulher que
Getty Images/Jason Kempin
Luana Piovani é a mulher que "Guerrinha" gostaria de ver na revista (junho de 2013)

Perguntado sobre quem ele gostaria de ver, a resposta está na ponta da língua, apesar do desânimo: "Luana Piovani. Aquela tem um corpão, mas tem dinheiro, não precisa".

HUGH HEFNER

Em seu site oficial , o baixinho de Quixadá não é modesto e se autointitula como o "Rei da Playboy". Ele afirma que um encontro com o rei original, Hugh Hefner , quase aconteceu em 2005. "Quase" porque Guerrinha quebrou a perna. "Tive um acidente, aí fui para minha terra. Vou fazer um contato para ver se consigo [encontrá-lo]. Sabia que ele dorme com três mulheres? Eu vou para lá também."

Enquanto não se muda para a mansão de Hefner em Los Angeles, nos EUA – Elce Maria, foi apenas uma piada do seu marido, não leve a sério –, Estênio segue ampliando sua coleção, ou pelo menos tentando. Durante os 30 minutos em que conversou com o iG , ele recebeu uma ligação de alguém que queria negociar uma coleção, suficiente para animá-lo; recebeu a visita de uma moça em busca de um salvador para os seus livros antigos de Medicina; e lhe entregaram a última edição da revista Private, cuja nudez em suas páginas é um pouco mais explícita. A revista que animaria muitos marmanjos, no entanto, não animou os olhos treinados do colecionador: "Amassada assim fica ruim de vender". Nada que um bom Atlas não possa resolver. "Aqui tem de tudo, só não tem dinheiro." 

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.