Dono de uma "loja de curiosidades", como ele próprio define, na Augusta, Tibiriçá Martins fala sobre os tipos de colecionador que já conheceu, onde comprar antiguidades e pede que parem de levar selos e moedas para avaliação: "Não trabalho com isso"

José Tibiriçá Mendonça Martins, o
Brunno Kono/iG São Paulo
José Tibiriçá Mendonça Martins, o "Tibira", no misto de bar e loja Caos

O mundo dos colecionadores é terreno, mas compreendê-lo não é uma tarefa simples. Mesmo com trânsito na área desde a adolescência, José Tibiriçá Mendonça Martins não cansa de dizer "coisa de louco" sempre que se recorda de histórias e personagens inusitados que viveu ou conheceu. Não espanta, aliás, que o negócio deste paulistano de 49 anos, nascido no Bixiga, se chama "Caos".

Misto de loja de antiguidades – Tibiraçá, ou apenas "Tibira" prefere o termo "loja de curiosidades" – e bar, o Caos 584, sua numeração na Rua Augusta, tem nome inspirado em uma banda de punk brasileira e consegue chamar atenção naquela que provavelmente é a rua mais heterogênea de São Paulo.

Por fora, a fachada de grafites coloridos assinada por Chivitz, por dentro, tudo que – e quem – você puder imaginar, dos torcedores italianos recém-eliminados da Copa do Mundo pelo Uruguai ao fã paranaense que, de passagem pela capital paulista, passou para tirar uma foto com o dono do lugar.

Parte da tietagem se deve ao programa Caos, hoje reprisado no canal A&E, uma espécie de "Trato Feito" brasileiro. A primeira e única temporada, ao lado da ex-sócia Caroline Schamall, a Carrô, durou 20 episódios; e as outras duas que estavam previstas não foram para frente. "Tem o lado turístico. O programa está repetindo, então muita gente que não viu na época (em 2012) está vindo agora. É muito louco isso", diz Tibira.

"É SÓ PORCARIA"

A visibilidade do reality show não trouxe apenas turistas. Tibira afirma que é comum ver pessoas querendo se livrar de pertences antigos e, obviamente, fazer algum dinheiro em cima deles, mas avisa: "Tem cara que veio com coleção de moeda. Não trabalho com papelaria, moeda, documento e notas, é muito específico para avaliação e venda, e o que mais aparece é selo, moeda e nota. É só porcaria. Mercado de selo é muito pequeno no Brasil".

Claro que nem tudo é "porcaria" para o mercado brasileiro. Brinquedos de corda e os carrinhos no geral costumam ter muita procura. "O que mais vejo é colecionador de carrinhos. Fui a uma feira em Itajaí, e esse cara de Santa Catarina, de uns 50 e poucos anos, tem uma sala impressionante. Ele compra R$ 12 mil, R$ 8 mil a cada dois meses. Pelo o que vejo dos meus amigos, acho que as coleções em que os caras mais gastam são as de carrinhos."

OS TIPOS DE COLECIONADORES

Ao citar o colecionador de Santa Catarina, Tibira conta que já tentou entrevistá-lo para o programa, mas que nunca conseguiu por ele ser extremamente avesso a aparecer ou mostrar sua coleção, um traço relativamente comum nesta "tribo", mas que não é a regra. Há vários tipos de colecionadores.

O acumulador: "Compra qualquer coisa, não importa. Tem um cara que vem aqui que tem coleção de tudo, metade não funciona, mas todo mês gasta 500 reais. Ele gosta de tudo que é relacionado a vídeo, câmera, projetor".

O milionário: "Aí tem o exibido. Conheço o cara que tem os Cadillacs 55, 56, 57 e 58 em carrinhos e em tamanho natural".

O que se tranca no mundo dele: "Não deixa nem a mulher entrar. Tem um colecionador que não comprava nada quando vinha com a mulher, mas quando vinha sozinho, comprava e guardava em uma sacola. Eu nem fazia a embalagem. Teve um que eu demorei sete anos para conseguir entrar na casa dele, fizemos uma gravação lá". Tibira estima que a coleção de brinquedos deste último valha em torno de R$ 800 mil.

O viciado: "Tem um cara que chega para comprar projetores. É o típico colecionador que parece viciado em crack, chega tremendo. Você sente a adrenalina do cara quando ele entra. Cheguei a vender coisa que custava R$ 400, ele quis pagar R$ 450 de tão desesperado para ter o objeto".

O pão duro: "O cara dos bonecos, esse é esquisito. Ele tem uns 40 anos, é bem magro, meio nerd, tenho a impressão de que ele não toma um café na rua, mas deve ter uns dois mil bonecos. É o muquirana. Tem um no Bixiga que é desse jeito, parece um mendigo, não troca de roupa, mas a coleção do cara vale uma fortuna. Gasta só com a coleção".

Dono do Caos, Tibira agora planeja inaugurar um
Brunno Kono/iG São Paulo
Dono do Caos, Tibira agora planeja inaugurar um "armazém dos anos 30" no segundo semestre

O QUE O DONO DO CAOS COLECIONA?

O empresário diz que depende muito da época. Na adolescência, quando começou sua coleção sem saber que seria uma coleção, eram carrinhos, camisetas de banda, revistas de skate, discos de vinil, robôs e tênis. Para a desgraça de Tibira, tudo acabou doado, sem que ele soubesse, pela avó para a igreja, mas nada tão triste quanto ter um disco autografado por Chico Buarque vendido por engano: "Venderam. Eu nem sabia, foda. Era coisa de família".

“A questão da coleção é louca, cada época você gosta de coisas diferentes. Já tive minha fase de Falcon, de carrinhos, especial, bicicletas, aí você cresce, ganha uma grana, compra carros", completa Tibiriçá. Em sua casa, na Bela Cintra, onde mora com a mãe – o filho de 19 anos, aprendiz de tatuador, já saiu de casa –, ele diz que tem um corredor de carrinhos, sala de taxidermia (animais empalhados), vitrine do Rat Fink (resposta do desenhista Ed "Big Daddy" Roth ao Mickey Mouse), livros no escritório e olhos de vidro, comprados na Feira da Ladra, em Lisboa, Portugal.

Tibira diz lembrar – e "isso é muito louco" – de onde veio cada item dos cerca de 3,5 mil expostos na Caos: "Tenho memória para isso". As traves de pebolim que hoje servem como um apoio para os pés de quem fica no balcão do bar, por exemplo, são do Chile.

"Sempre pergunto onde tem uma feira de antiguidades em todo lugar que vou, e o cara do hotel disse que tinha uma no domingo (o show era sábado) que começava às 7h. Nem dormi direito. Vi as traves de pebolim, tudo dos anos 30 e 40, de chumbo, por um preço bom. Montado, isso custa uma fortuna, uns R$ 5 mil, R$ 6 mil. Comprei um monte. Mas tem aquela coisa de aeroporto, enrolei e tentei entrar no avião. Já me pararam, falaram que poderia ser uma arma. Tomei chá de cadeira, chorei, mas consegui trazer."

Pavilhão Chinês, em Portugal, é bar e local de exposição para a coleção do proprietário
Reprodução/Facebook/Pavilhão Chinês
Pavilhão Chinês, em Portugal, é bar e local de exposição para a coleção do proprietário

ONDE GARIMPAR?

Acostumado a garimpar por artigos de colecionadores, Tibira recomenda a feira de Londres em Camden Town, a Feira da Ladra de Lisboa (onde também fica o Pavilhão Chinês) e o mercado de pulgas de Amsterdã. No Brasil, ele gosta das feiras do Bixiga e da Benedito Calixto, ambas em São Paulo.

PROGRAMA NOVO E ARMAZÉM

Tibiriçá não dá detalhes sobre um novo programa, relacionado a carros e cervejas artesanais, mas revela que o projeto está em andamento e que o piloto foi gravado. "Não posso falar nada ainda, nós não sabemos se é para canal aberto ou fechado", se limita a dizer.

Já sobre o armazém que espera abrir no segundo semestre, ele não tem restrições. "É uma coisa anos 60, loja de secos e molhados. É meio que um minimercado com um bar dentro, com embutidos, cerveja artesanal. Vamos fazer tipo a Casa Godinho (mercearia fundada em 1988 e que existe até hoje no Centro de São Paulo), vai ter chocolate, vinho, café da manhã bacana." Fica a dica para os moradores de Higienópolis.

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