Formato tradicional de encontro às cegas coloca homens e mulheres interessados para conversar por quatro minutos. Para os participantes, programa é direcionado para quem busca uma relação mais séria. "Tinder é muito momento", diz engenheira

Speed Dating em bar na zona sul de São Paulo
Brunno Kono/iG São Paulo
Speed Dating em bar na zona sul de São Paulo

Bar relativamente cheio, televisores ligados no futebol, mas ninguém presta atenção no jogo entre Defensor, do Uruguai, e Nacional, do Paraguai, válido pelas semifinais da Libertadores . Nem quando Adrián Luna abre o placar para os uruguaios e deixa seu time a um gol de forçar uma disputa por pênaltis.

Dos 24 em campo – no bar, em São Paulo –, a maioria é de homens (13 contra 11), todos são solteiros e o gol para eles é voltar para casa com pelo menos um contato correspondido após quatro rápidos minutos de conversa. "Vim por curiosidade, para conhecer. É uma oportunidade interessante de conhecer pessoas novas", diz Isadora, de 26 anos. Sentada ao lado da advogada, a farmacêutica Ligia, de 30 anos, veio pela segunda vez: "A primeira [vez] foi divertida, conheci pessoas e fiz amigos".

Completam a mesa a professora Carla, de 30 anos, e uma moça, que em meio aos risos, brincou que não havia mais nada a ser dito depois de ouvir as colegas.

Do outro lado do bar – a estratégia é não permitir que solteiros e solteiras interajam antes do apito inicial do juiz, a "cupida" Carolina Jorge –, Daniel e Marcos Rodrigues aguardam sentados. O primeiro, de Bogotá, na Colômbia, tem 26 anos e trabalha há dois no Brasil, enquanto o segundo, também da área financeira, dá a dica para os novatos, o que não é o seu caso. "Não ficar nervoso e ter a mente aberta. Por mais que você olhe a pessoa e saiba que não quer nada, converse, seja educado. Não fazer perguntas de 'sim ou não' ajuda a não travar a conversa."

Um bar ter 24 solteiros e solteiras é comum, mas estes aqui atrasaram o retorno para casa em uma noite fria de terça-feira por um motivo específico: "Speed Dating". E como funciona o "encontro rápido"? É simples. O participante – eles pagam até quase R$ 100 – conversa com cada candidato do sexo oposto por quatro minutos e depois diz se toparia sair novamente com ele. Se há um "sim" ou "talvez" dos dois lados, o "match", contatos são compartilhados e a partir daí a bola fica com os solteiros, não mais com os responsáveis pelo evento.

"RIVALIDADE" COM O TINDER

Criado nos anos 90, nos EUA, o formato do "speed dating" sob o comando da empresa Speed Dating Brasil existe no País desde 2009, trazido pelo economista Felipe Padilha, com eventos em Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo. "Já tentamos em cidades menores, mas vimos que, no interior, as pessoas se conhecem", afirma Padilha.

Ao ser questionado se o Tinder afetou o movimento, Felipe conta que houve uma queda quando o aplicativo passou a fazer sucesso, embora ele evite ligar um ao outro. "Quando [o app] estava no ápice, sentimos uma queda na demanda, mas nada muito grande. A gente percebeu, mas não sei se foi efeito dele."

OU NEM TÃO RIVAL ASSIM?

Ir para um "speed dating" não significa necessariamente uma frustração com o Tinder. Segundo os participantes ouvidos pelo iG , eles fazem uso do programa, mas acreditam que ele serve para propósitos diferentes. "No Tinder é mais casual. Como tem que pagar, ir e mostrar a cara, aqui as pessoas são mais interessadas. Eu parto do pressuposto de que elas querem um relacionamento, depois é ver se encaixa, se tem química", observa Juliana Nobrega, de 33 anos. "Tinder é muito de momento, se alguém está perto ou não", completa a engenheira civil Karen, de 27 anos.

Para Marcos, o aplicativo encurta a distância entre as pessoas, mas nada se equipara a conhecê-las pessoalmente: "É bom para conhecer pessoas novas, mas nada substitui o cara a cara, você ver a reação da pessoa, falar, ouvir a voz. Ali é só imagem, só aparência; aqui tem quatro minutos de conversa, com isso você já elimina ou te ajuda muito".

APITA O ÁRBITRO

Carolina balança o sino pela última vez na noite, mas a movimentação nas mesas é bem devagar. A maioria aproveita para terminar as avaliações, um homem se levanta e tem o lugar rapidamente ocupado por outro que estava de fora (eram 13 pessoas do lado masculino e 11 no feminino), e outros seguem com a conversa, sem se preocupar com o tempo. O clima, no geral, é muito mais leve, rodinhas se formam e alguns mais animados até falam em prolongar a noite em uma casa noturna.

A expectativa agora fica para o dia seguinte, quando os organizadores contabilizam as avaliações e enviam os contatos dos casais que deram certo. "Pela conversa, gostei de três e acho que foi recíproco. Tá bom, mais de 20%", avalia Juliana, sem deixar a profissão de economista de lado. Otimista, Daniel espera até dois "matches", enquanto Karen, pessimista, aguarda "pelo menos um". Já Marcos, que saiu do seu primeiro "speed dating" com quatro contatos, se diz feliz se conseguir os dois que o interessaram.

Dos 24 participantes, 19 receberam pelo menos um contato, e-mail ou telefone, do sexo oposto. Juliana acertou seu palpite em cheio e chamou atenção de três rapazes; Marcos, que se dizia feliz com dois contatos, tem motivos para sorrir, foram oito mulheres interessadas. E no Estádio Centenário, em Montevidéu, deu o Defensor, por 1 a 0, mas a vaga na decisão da Libertadores é do Nacional.

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