Na brincadeira, homens dizem que, se tivessem que escolher, achariam "menos pior" ser trocado pela companheira por outra mulher. Na vida real, pode gerar sentimento de insegurança e fracasso, afirma psicólogo

Já se passaram 12 anos desde que Sara* terminou um namoro de dois anos. O ex prefere fazer de conta que nunca a conheceu, nem se a encontrar por acaso, por exemplo. "Na época, ele ficou arrasado e até ameaçou me matar", lembra Sara, que se apaixonou por Laura*.

"Ele questionava 'o que ela tem que eu não tenho' e chegou a tirar satisfações com a Laura, passando a odiá-la", recorda. Sara lembra ainda que o conflito durou cerca de dois meses e que seu ex-companheiro ficou abalado, com autoestima baixa, vergonha dos amigos, e que até deixou de sair por algum tempo.

Casos da ficção: em
Reprodução/Facebook/Friends
Casos da ficção: em "Friends", que acaba de completar 20 anos, Ross é trocado pela esposa (Carol, no centro) pela amiga, Susan. Tudo acaba bem (até porque se trata de uma série de comédia)

A história acima vai de encontro ao que alguns homens, de 20 a 60 anos, responderam em uma enquete informal nas redes sociais.

Para eles, é "menos pior" ser trocado por alguém do sexo oposto – no caso, uma mulher – do que por outro homem. A justificativa é a de que se a parceira "virou a casaca", o problema não é do relacionamento em si e, neste caso, o homem não deve sentir-se culpado. Não é isso que especialistas observam.

"O homem pode sentir-se culpado, menos macho, por pensar que não foi suficiente para a parceira e esta decidiu buscar outro tipo de sexo ou afeto", diz Sylvia Faria Marzano, diretora do Instituto Brasileiro Interdisciplinar de Sexologia e Medicina Psicossomática (ISEXP).

O psicólogo Klecius Borges, especializado em diversidade sexual, acrescenta que homens com personalidade machista tendem a se sentir ameaçados. "Não só pela perda, mas também pelo fato de ter sido trocado por uma mulher. Alguns podem se sentir fracassados e desenvolverem insegurança em relação à sua capacidade de satisfazer outras mulheres."

Casos da ficção: já na novela
Divulgação/Globo/Alex Carvalho
Casos da ficção: já na novela "Em Família", o personagem de Reynaldo Gianecchini acaba trocado pela de Giovanna Antonelli por outra mulher, o que gera brigas e discussões entre o casal fictício

POSSIBILIDADE DE REALIZAR FANTASIA SEXUAL

Sylvia confirma que uma das fantasias sexuais de grande parte dos homens é se relacionar com duas mulheres, uma vez que reforçaria sua masculinidade. Contudo, "o relacionamento entre duas mulheres não inclui o sexo masculino". A especialista conta que já atendeu um casal que se relacionava a três, pois essa pode ser uma alternativa para a mulher introduzir a outra em seu relacionamento. "Neste caso, em especial, o triângulo se desestruturou quando o homem flagrou as duas juntas", exemplifica.

Para Borges, o fetiche realmente existe, mas neste tipo de situação, não é comum: "Um relacionamento significativo que envolve amor, afeto e cumplicidade, não desperta no homem o desejo de ficar com as duas mulheres. A traição irá fazê-lo sofrer, sentindo-se rejeitado, abandonado e trocado".

INCREDULIDADE É BASTANTE COMUM

Se dói mais ou menos ver a então companheira com alguém do sexo oposto do que com outro homem, Luiz Chuschnir, psiquiatra e coordenador do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, pondera que "isso depende dos recursos que cada um tem para lidar com rompimentos afetivos e perda do relacionamento".

A incredulidade, no entanto, é bastante comum, avalia Klecius: "Há situações em que o homem se questiona 'o que fiz de errado?', e pode até demorar para ele perceber que não há nada de errado com ele, mas que simplesmente sua ex decidiu viver um relacionamento homoafetivo".

* Os nomes foram alterados a pedido dos entrevistados.

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