Primeiro brasileiro a entrar para a mesa final da WSOP, Bruno Foster afirma que qualquer um pode se tornar um bom jogador de pôquer: "Basta querer". E estudar muito

Bruno Foster, de 31 anos, é empresário e jogador profissional de pôquer. Ele joga desde os 20 anos
Brunno Kono/iG São Paulo
Bruno Foster, de 31 anos, é empresário e jogador profissional de pôquer. Ele joga desde os 20 anos

Número 1 do mundo, o tenista sérvio Novak Djokovic acumula pouco mais de US$ 8,4 milhões em premiações nesta temporada, tendo vencido cinco torneios e jogado 56 partidas para isso. Dentro um mês, o brasileiro Bruno "Foster" Politano senta em uma mesa em Las Vegas, nos EUA, e se for o último a sair dela, leva para casa nada menos do que US$ 10 milhões (equivalente a R$ 23 milhões).

Bem menos badalado que o sérvio, Foster – apelido que vem da época que ele jogava "Quake" online, no final dos anos 90 – é um "November Nine", como são chamados os nove jogadores que disputarão a final das finais do WSOP (World Series of Poker), no próximo dia 10. O paulista criado em Fortaleza é o primeiro brasileiro a fazer parte desta mesa, tão exclusiva que, desde 2008, quando ela acontece, apenas um jogador participou duas vezes da decisão: o norte-americano Mark Newhouse.

O vencedor, além de engordar a conta bancária, volta de Las Vegas com o desejado bracelete de ouro ( André Akkari e Alexandre Gomes  são os únicos brasileiros que têm um, mas não da final principal) e o título de campeão mundial. Os mais de R$ 20 milhões, inclusive, são um detalhe. "Todo mundo está focado no bracelete e no título. Todo mundo está resolvido financeiramente, os US$ 10 milhões são consequência", diz Foster, lembrando que o último colocado leva US$ 730 mil (a soma das premiações é de US$ 28,4 milhões).

O jogador de pôquer é treino, estudo, dedicação, foco. Você pode ser um excelente jogador, basta querer. Jogador de futebol, não. Pode treinar a vida inteira e nem conseguir ser profissional."

Para chegar à mesa final, foi necessário passar por muitas outras. O campeonato que dá vaga para a decisão, realizado em julho, teve 6.683 participantes de 87 países. "É um caminho árduo. São dias jogando 13 horas de pôquer, o máximo de concentração, foco total", lembra.

Qualquer um poderia participar e ter a oportunidade de jogar por US$ 10 milhões, desde que tivesse US$ 10 mil de inscrição. "Qualquer pessoa pode sentar e jogar, tendo US$ 10 mil. Paga a inscrição, vai chegar e sentar em condições iguais às minhas, mesmo número de fichas. Depois, na mesa, é outra história."

"VOCÊ PODE SER UM EXCELENTE JOGADOR. BASTA QUERER"

Jogador de pôquer há 11 anos, quando usava feijões no lugar de fichas com amigos de faculdade, Foster não acredita em um dom para jogar. Ele ressalta que pessoas perceptivas levam vantagem em um esporte no qual é obrigatório "ler" a linguagem corporal dos adversários, mas que elas não chegam a lugar nenhum sem estudo.

"Jogador de pôquer é treino, estudo, dedicação, foco. Você pode ser um excelente jogador, basta querer. Jogador de futebol, não. Pode treinar a vida inteira e nem conseguir ser profissional. Pessoas muito perceptivas se destacam, mas não precisa de um dom especial para ser bom. Não conheço um cara que tem dom para jogar e não estuda", explica.

Com Foster foi assim. Após jogar pela primeira vez na casa dos amigos, o empresário se interessou, pediu para a irmã, nos EUA, enviar livros e em 2008, aos 25 anos, decidiu focar de vez no pôquer: "Foi quando o rendimento do pôquer se sobressaiu ao do trabalho".

A ROTINA DE UM ATLETA DO PÔQUER

Próximo de se formar em Administração – Bruno ressalta que foram os negócios, não o pôquer, que atrasaram a entrega da sua monografia –, o cearense de criação diz que nunca deixou o lado empresarial de lado, mas segue uma rotina de treinos para manter o condicionamento físico e programa de alimentação elaborado pela namorada, nutricionista. Mas um atleta que fica sentado o tempo todo precisa de tudo isso? Sim.

"Se o corpo está cansado, a mente está cansada. Todos os profissionais de alto nívem têm essa preparação, se eles estão 100% nas 10 horas de jogo, eu não posso render 99%. Eles vão explorar isso em mim, vão me matar no jogo. É um jogo de foco, paciência, técnica, percepção. É perceber onde ele é fraco, onde ele erra, e explorar isso. Tem cara que se faz de cansado, usa fone de ouvido, mas não está ouvindo música", explica.

PONTOS FORTE E FRACO

Em conversa com Akkari, em janeiro, e na última semana com Foster, fica claro que ser perceptivo é quase inerente a ter sucesso no pôquer. Ao ser questionado sobre qual é o seu ponto forte, o paulista não surpreende na resposta. "Minha percepção. Passo o tempo todo focado na forma como eles (os adversários) pensam. Vai muito além das cartas. Consigo jogar sem olhar as minhas, preciso saber o que você está fazendo com as suas e fazer você descartar as suas sem que eu tenha visto as minhas."

Bruno Foster (com a bandeira do Brasil) ao lado dos oito jogadores contra quem vai jogar no dia 10
Reprodução/Twitter/WSOP
Bruno Foster (com a bandeira do Brasil) ao lado dos oito jogadores contra quem vai jogar no dia 10

Mas, uma autocrítica nunca é uma autocrítica sem o ponto fraco. "Ainda não tenho 100% do controle mental. O que quer dizer? É conseguir render 100% quando você não está rendendo 100%. Quando o jogo não encaixa, quando você não faz a melhor jogada, quando toma uma decisão ruim. Isso afeta você. Quando você vai para a próxima jogada, não pode deixar isso te influenciar. Controlar 100% é muito difícil", responde.

PREPARAÇÃO PARA OS R$ 24 MILHÕES

A preparação do empresário para a grande final não é muito diferente da uma equipe esportiva antes de uma decisão. Além de academia e alimentação, o treino será "jogar, jogar e jogar". Antes de Las Vegas, serão 20 dias na Austrália, onde ele se encontra agora, para 11 torneios presenciais (o forte de Foster não é o pôquer online).

A preparação inclui ainda montar estratégias com seu técnico, assistir jogos gravados dos oito adversários e, parece loucura, buscar as mãos de jogadores que já os enfrentaram. "Vou saber o que cada um conquistou na vida, ligar para amigos que já jogaram com eles, é como se fosse buscar informação de mercado. Preciso saber que um já foi campeão de um evento importante, então não está pressionado financeiramente; aquele já não tem tantos resultados, está mais pressionado. Preciso explorar isso."

Apesar de minimizar os US$ 10 milhões, vendo o prêmio em dinheiro como "resultado, não como objetivo", Bruno sabe o que fazer caso ele vá parar em suas mãos. "Vou viajar com minha namorada. Claro, assim que chegar, quero mostrar que é um título do pôquer brasileiro. O Brasil me proporcionou isso. Depois disso eu iria tirar 30 dias direto, botar uma mochilas nas costas, um cartão de crédito no bolso e nada mais. 'Bora' passear."

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