Método permite que amadores peguem "emprestada" a estrutura de uma fábrica para produzir suas receitas e lançá-las no mercado. Não, o cigano Igor não tem nada a ver com ele

Cervejaria Júpiter, de São Paulo, é adepta do método cigano de produção de cervejas
Brunno Kono/iG São Paulo
Cervejaria Júpiter, de São Paulo, é adepta do método cigano de produção de cervejas

São Paulo sedia amanhã, no Butantan Food Park, um dos inúmeros espaços voltados para "food trucks", o primeiro Festival de Cervejarias Ciganas . O método cigano de produção é um dos mais utilizados por pequenos cervejeiros que pretendem introduzir seus rótulos artesanais no mercado, mas ainda não têm capital inicial para ter a própria fábrica. A saída encontrada por eles é "pegar emprestada" a estrutura de terceiros para produzir as receitas, migrando, quando necessário, para outra fábrica, sem lar fixo, daí o termo.

"É uma modalidade entre microcervejeiros, o cigano normalmente fazia suas receitas em casa, resolveu profissionalizar a coisa e produzir em escala maior. A grande maioria [dos cervejeiros ciganos] acabou de sair da panela", diz Marcelo Bonato , sócio da Suméria , de Santo André (SP), com Marcelo Ribeiro e Sidnei Martins.

Ao invés de alguns milhões de reais necessários para tornar realidade o sonho da cervejaria própria, o trio investiu aproximadamente R$ 100 mil no projeto, iniciado no ano passado. "O modelo tem suas vantagens, uma das principais é o investimento para começar a empreitada, e a burocracia também é contornada. A própria fábrica providencia o registro da cerveja junto ao Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento)", explica Bonato.

Entre as desvantagens, David Michelsohn , fundador da Júpiter  com os irmãos Rafael e Alexandre, conta que a maior delas é encontrar alguém disposto a abrir as portas, literalmente. "A dificuldade mesmo é produzir pela primeira vez. A comunidade cervejeira não é muito grande, você tem um número finito de cervejarias, e os lugares mais bem preparados têm fila. No começo as pessoas não conheciam, perguntavam por que iriam abrir suas portas. Depois que a primeira dá certo e vende, você consegue produzir em outros lugares."

Conheça as cervejarias e rótulos que participarão do festival em São Paulo:

Com cerca de um ano e meio em operação – e um investimento inicial de R$ 200 mil –, a Júpiter levou o termo "cigano" ao limite. Os três irmãos já passaram por Dortmund, Premium Paulista, Brotas Beer, Invicta, Cervejaria Nacional (parceria na edição especial de um chope para o estabelecimento) e, por último, Blondine, com quem estão atualmente. 

A Suméria, por outro lado, foi um pouco menos cigana neste aspecto. Desde janeiro deste ano, dois meses após sua criação, a cervejaria mantém uma parceria com a Lund , em Ribeirão Preto (SP). "Temos cinco rótulos sendo produzidos com eles, estamos caminhando. Se a Lund não conseguir produzir mais, passamos para outra. Temos interesse em produzir em outras plantas", comenta Bonato.

Suméria Bilbat
Divulgação
Suméria Bilbat

"ESTAMOS DIVULGANDO A CULTURA CERVEJEIRA"

Do ponto de vista dos negócios, pode não parecer muito sensato "armar" um futuro concorrente, mas não é assim que pensam os pequenos e médios cervejeiros. "Se você olhar, a participação das cervejas artesanais no mercado é pouco significativa. A gente entende que estamos divulgando a cultura cervejeira para os consumidores, e quanto mais fizermos isso, maior será nossa fatia no mercado. É uma oportunidade de negócio e para ocupar um espaço ocioso da fábrica", diz  Dalva Pavarina , proprietária da Lund. A marca ribeirão-pretana também tem parcerias com a Casa Bartira e a Campos do Jordão.

Michelsohn completa: "Esse método permite que qualquer cervejeiro que tenha um pouco mais de talento e uma cabeça minimamente preparada para os negócios consiga lançar uma cerveja no mercado. O consumidor consegue ter um monte de receitas e novidades". No entanto, o designer e jornalista pondera que, se por um lado, é um incentivo para o amador entrar no ramo, por outro, nem todos ficam nele. "Nem todo mundo tem fibra para continuar, é difícil. Não depende só de um produto bom, tem uma série de fatores, tem a distribuição, a marca, não sei se todo mundo que lança vai ficar."

No caso dos Michelsohn, David afirma que eles estão "começando a colocar a cabeça para fora da água" e que a ideia a curto e médio prazo é seguir como ciganos. "Estou estudando as possibilidades. Gostaria muito de ter [a fábrica], mas custa muito caro." Já Bonato, Ribeiro e Martins esperam levantá-la em 2015: "Provável que aconteça alguma coisa em 2015. Estamos atrás de investidores". 

SERVIÇO:

1º Encontro de Cervejarias Ciganas
Quando: 6 de dezembro de 2014
Onde: Butantan Food Park
Endereço: Rua Agostinho Cantu, n° 47 - Butantã (São Paulo)
Quanto custa: entrada franca

* Bebidas alcoólicas são proibidas para menores de 18 anos. Se beber, não dirija.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.