Aposentada como atriz pornô e estreante como escritora, Sasha Grey está no País para divulgar o primeiro livro, "Juliette Society". Ao iG, ela falou da carreira como atriz, do fracasso como empresária, do livro e também sobre futebol americano

Uma rápida busca por Sasha Grey na Internet e você descobrirá, entre diversos links que levam para sites que é melhor não abrir no seu trabalho, a informação de que ela é brasileira. Ela desmente o rumor como se treinasse essa resposta há anos – e talvez tenha sido assim –, embora afirme que “não é o pior rumor” em que já esteve envolvida.

“Isso veio de uma fotógrafa com quem trabalhei em 2006. Ela disse para a revista [para quem eram as fotos] que eu era brasileira porque me queria na capa e que eles fariam isso se fosse o caso. Falei que aquilo era a coisa mais idiota que eu já tinha ouvido. No final, eles não me colocaram na capa, mas disseram que eu era brasileira”, explica Sasha.

Sasha não é brasileira. É norte-americana, natural da Califórnia, tem 25 anos e chegou ao Brasil na manhã de terça-feira para divulgar seu livro, “Juliette Society”. Na noite de quarta-feira, foram quatro horas assinando as cópias de seu novo trabalho em uma livraria na Avenida Paulista, em São Paulo, perto de onde está hospedada. O livro a trouxe para cá, mas não foi ele que a tornou famosa ou arrastou dezenas de fãs que queriam vê-la de perto.

Em apenas três anos na indústria pornográfica (2006-2009), Sasha Grey, cujo nome verdadeiro é Marina, gravou 270 filmes nos quais contracena com um, dois, às vezes mais de dez homens ao mesmo tempo. O “Sasha” é homenagem a Sasha Konietzko, da banda alemã – que não existe mais – MDFMK, enquanto o “Grey” vem de Dorian Gray, célebre personagem de Oscar Wilde. E se você parou para fazer as contas, ela entrou no ramo aos 18 anos.

Fãs se aglomeram para tentar ver a escritora. Nos andares de baixo, livraria segue sua vida normal
Brunno Kono/iG São Paulo
Fãs se aglomeram para tentar ver a escritora. Nos andares de baixo, livraria segue sua vida normal

“GOSTAVA DE PORNÔ, MAS HAVIA ALGO FALTANDO”

Formada no colégio e cursando faculdade, a escritora afirma que via muito pornô. “Comecei a entender minha sexualidade e tinha vergonha disso, não sabia como lidar. Foi naquela época que abri os olhos, experimentei muitas coisas. Eu gostava de pornô, mas achava que havia algo faltando.”

“Eu queria desafiar a forma como as atrizes pornôs são vistas, queria encorajar as pessoas a não terem vergonha de sua sexualidade. Queria explorar esse lado, mas é difícil fazer isso aos 18 anos sem se sentir seguro. O pornô me deu essa segurança. Pesquisei o mercado por sete meses, guardei todo o meu dinheiro e me mudei para Los Angeles um mês depois do meu aniversário”, completa.

Sasha foi rotulada como a “nova Jenna Jameson”, ex-atriz de sucesso e atualmente empresária, comparação que chama de “ridícula”. A ideia da californiana era justamente romper com o estereótipo da atriz loira de peitos grandes e bronzeado definido – faça uma nova busca, agora por “Jenna Jameson”, e entenderá –, algo que ela acredita ter sido bem-sucedida. “Outras mulheres continuam fazendo isso, e a Internet tem um papel importante nisso. Eu falava o que pensava, não tinha contrato com uma empresa que tentou me transformar em um produto, usava o Myspace (rede social) para escrever sobre minha vida, falava com meus fãs sobre filmes e músicas que amo. Isso me humanizou, mostrou um lado diferente das estrelas do pornô.”

Sasha Grey durante a entrevista que concedeu ao iG
André Giorgi
Sasha Grey durante a entrevista que concedeu ao iG

A APOSENTADORIA E O “GRANDE FRACASSO”

Após três anos de carreira e mais de 200 filmes, ela fez uma pausa em 2009, para anunciar sua aposentadoria dois anos mais tarde. Na sua visão, sua contribuição para a indústria pornográfica estava feita: “Conquistei tudo que queria ter conquistado como atriz”. Era hora de dar o próximo passo: abrir a própria empresa.

“Foi um grande fracasso, meu primeiro grande fracasso. Entrei nos negócios com alguém que discordava da minha opinião e só fui me fazer ouvida quando já era tarde demais. Em 2009, quando a empresa fechou, decidi dedicar todo o meu tempo para as outras oportunidades que apareciam”, diz sobre a experiência de filmar, dirigir e distribuir os próprios filmes.

As “outras oportunidades” incluem participar de “Confissões de uma Garota de Programa”, filme dirigido por Steven Soderbergh, da série de TV “Entourage”, dublar uma personagem em um game de aventura, ter a própria banda – da qual ela não faz mais parte, explicando sua saída com um “era uma banda com meu ex” – e agora o livro, o segundo da carreira – o primeiro foi de fotografias.

LITERATURA COMO EXTENSÃO DA PORNOGRAFIA

Em “Juliette Society”, Catherine é uma estudante de cinema que está relativamente satisfeita com sua vida, mas que começa a querer explorar sua sexualidade após ver “A Bela da Tarde”, de Luis Buñuel. Seu namorado, Jack, é descrito como um bom amante, só que não parece disposto a embarcar nessa com ela. Surge então Anna, amiga que a apresenta à “Juliette Society”, grupo secreto voltado para o sexo. Para Sasha, a literatura é uma forma de continuar seu trabalho iniciado no pornô, o de ajudar homens e mulheres a lidar com sua própria sexualidade.

“É uma extensão disso. É uma das razões que me levou a escrever. Muitas fãs mulheres também queriam que eu escrevesse algo erótico, elas esperavam por isso”, afirma a escritora. Ela cita ainda o “entretenimento” e o “escapismo” como outros motivos que a levaram a escrever. A edição brasileira do livro traz na capa uma citação de um jornal britânico de que ela está “destinada a ser a próxima E.L. James”, autora do bestseller “Cinquenta Tons de Cinza” e as suas sequências. “Quero continuar sendo eu mesma. Mas é uma boa comparação, não é de toda ruim”, avalia.

Sasha Grey autografou livros durante quatro horas em São Paulo
Brunno Kono/iG São Paulo
Sasha Grey autografou livros durante quatro horas em São Paulo

Sasha Grey espera ajudar homens e mulheres “que em determinado momento só tinham a literatura e o cinema como saída para se sentirem confortáveis com sua sexualidade” com seu livro. Questionada sobre quais obras a ajudaram a passar por isso, ela cita o filme “A Bela da Tarde” e “120 Dias de Sodoma”, escrito pelo Marquês de Sade.

“’A Bela da Tarde’ é muito importante, usei como o momento da virada na vida sexual de Catherine. E ‘120 Dias de Sodoma’ é algo que virou meu mundo de cabeça para baixo. Me fez respeitar mais as outras pessoas, é tão absurdo e sem noção que me fez pensar que eu não era tão deslocada assim”, diz a escritora. Apesar de Sasha afirmar que seu livro é uma ficção, ela parece fazer questão de compartilhar sua experiência com os leitores.

“Juliette Society” tem este nome por conta da personagem de Sade, enquanto o filme de Buñuel serve como a grande virada na vida de Catherine, xará da protagonista do longa, Catherine Deneuve. “Estou sentada no cinema e minha imaginação toma conta. Estou assistindo ao filme e preenchendo as lacunas. E não demora muito para que eu perca a noção de onde acaba o filme e onde começam as minhas fantasias”, diz determinado trecho de capítulo praticamente dedicado à obra do cineasta espanhol.

Mia Wasikowska é a favorita de Sasha para papel
Divulgação
Mia Wasikowska é a favorita de Sasha para papel

Assim como “Cinquenta Tons de Cinza”, “Juliette Society” também deve chegar aos cinemas em alguns anos. Os direitos do livro foram comprados pela Fox, que lançou para Scott Burns, roteirista de filmes como “Contágio”, a missão de adaptar a história para as telonas. “Quero ser produtora, e só. Dependendo de quando acontecer, gostaria de dar uma olhada no roteiro, mas não tenho planos de escrevê-lo. Amaria ver Mia Wasikowska como Catherine, mas ainda não comecei a pensar sobre quem poderia ser Anna, essa é complicada”, fala Sasha sobre o sem envolvimento no projeto – ela não se vê protagonizando nenhuma personagem.

RETORNO AO PORNÔ E SUAS LIÇÕES

Por ora, fãs da atriz devem saber que ela não tem planos de voltar à indústria, ou pelo menos não de uma “forma tradicional”. “Se eu vier a fazer algo erótico ou pornô vai ter a ver com alguma instalação em um museu”, explica. Ela afirma também que o ramo não é o melhor ambiente de trabalho para se fazer amigos. “É muito difícil, é como no colegial, muito competitivo, quase ridículo. Quando comecei, minha empresária disse para eu ter cuidado com as amizades que fazia e para eu me focar no meu trabalho, na minha carreira. Fico feliz de ter seguido seu conselho.” O único elogio vai para Asa Akira, ex-colega de profissão: “Ela é fascinante”.

De acordo com Sasha, o fato dela ter entrado para o ramo com a ideia de desafiá-lo fez com que fosse desafiada de volta “o tempo todo”, mas ela tira lições da curta carreira como atriz pornô. “Aprendi como entender a mim mesma e a outras pessoas, aprendi muito sobre a sexualidade humana, como me defender, saber meu valor e não permitir que alguém me julgue inferior por ser mulher.” E espera ter ensinado algumas. “Não sei se ensinei, mas acredito que essa geração de mulheres não tem medo de dizer o que pensa. Existe um clichê de que as estrelas do pornô só querem agradar e têm medo de falar o que acham, o que querem, de se defenderem. Isso está mudando. As pessoas não estão mais aceitando qualquer merda.”

PORNOGRAFIA x BRASIL

Questionada se a vinda para o Brasil teria a ver com o fato do sexo, principalmente quando retratado do ponto de vista feminino, ser um tabu, Sasha diz que a decisão partiu da editora. “Eles estavam empolgados para me trazer. Eu nunca tinha vindo para cá, então foi uma grande oportunidade de apresentar meu livro e conhecer meus fãs.”

Se nos EUA é comum ver atrizes pornôs que partem para outras carreiras após anos no ramo, no Brasil é comum ver famosos que fazem o caminho inverso – Alexandre Frota, Rita Cadillac, Gretchen e Leila Lopes são alguns deles. “Que interessante. Você definitivamente tem pessoas que deixam a indústria e se tornam ‘ex-pecadores’, mas você não vê muitas pessoas [nos EUA] fazendo TV e depois indo para o pornô. Interessante.”

TERRA DO FUTEBOL, FÃ DE “FOOTBALL”

Sasha Grey é fã de “football”, mas se apressa na hora de corrigir a informação: “American football”. Natural da Califórnia, é natural que torcesse para uma equipe local, o Oakland Raiders, e fizesse uma careta ao ouvir o nome do rival local no futebol americano, o San Francisco 49ers, mas seu time do coração mesmo é outro.

“Meu irmão era torcedor do Chicago Bears, cresci com isso e nunca parei de torcer. É uma das dinastias do esporte, com grandes times e uma das melhores defesas da história (o time de 1985, quando ela ainda não era nascida, é tido como um dos melhores de todos os tempos). Meu segundo jogo de NFL foi Raiders contra Bears. Eu era a única pessoa gritando [pelo Chicago] e me falaram para ficar quieta ou eu iria apanhar”, diz, aos risos.

Boa entendedora que é quando o assunto é bola oval, ela não foge da pergunta e avalia o momento do Bears, que chega para a temporada de técnico novo, sem Brian Urlacher, líder da defesa por 13 anos, e com Jay Cutler, líder do ataque, sob desconfianças: “Eles [Urlacher e Cutler] formaram uma dupla dinâmica quando jogaram juntos. Eu tenho fé. Aconteceram muitas mudanças, eles vão se reforçar, mas mesmo se tivessem mantido o último treinador, ainda acho que estamos há alguns anos de disputar um Super Bowl”.

Enquanto a pré-temporada da NFL rola solta nos EUA, Sasha volta para lá amanhã. De Los Angeles, ela vai para o México e em seguida para a Europa, onde vai divulgar seu livro. “Trabalhar no segundo romance” é a próxima tarefa depois de promover o primeiro. No cinema, seu novo trabalho, “Open Windows”, dirigido por Nacho Vigalondo e que também conta com Elijah Wood – o Frodo de “Senhor dos Anéis” –, está em pós-produção e não tem data para estrear.

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