iG esteve com o empresário no primeiro sábado de sua casa, na zona sul de São Paulo, após a reabertura. Aos 62 anos, ele diz que já pensou em se matar, que transou com 2.500 mulheres na vida e cogita sair candidato a deputado estadual

Oscar Maroni reabriu o Bahamas Hotel Club, na zona sul de São Paulo, na semana passada
Brunno Kono/iG São Paulo
Oscar Maroni reabriu o Bahamas Hotel Club, na zona sul de São Paulo, na semana passada

No sofá da esquerda, Docinho, uma cadela de seis anos da raça maltês, fica pacientemente sentada. Ela chega a esboçar um pulo do acolchoado, mas logo é repreendida pelo dono, sentado no sofá da direita, e desiste da ideia. Ao fundo, um casal e um trio, dois homens e uma mulher, conversam tranquilamente enquanto o som de um show do Queen ecoa pelo salão, ainda sem muita movimentação para o começo de uma noite de sábado, o primeiro da casa desde a reabertura, na semana passada, após mais de seis anos interditada pela Prefeitura de São Paulo.

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Apesar dos anos de portas fechadas – às vezes com blocos de concreto –, o Bahamas Hotel Club, próximo ao Aeroporto de Congonhas, na zona sul da capital paulista, está com o interior impecável. “Nesses seis anos eu mantive três funcionários que ficaram trabalhando na manutenção e conservação disso aqui. Foram momentos bem difíceis. Imagina seis anos e pouco sem receber nenhum tostão, estabelecimento fechado, contas a pagar, humilhação social. Eu e meu travesseiro sabemos que não estamos fazendo nenhuma atividade ilegal”, afirma Oscar Maroni Filho, de 62 anos, empresário e dono da Docinho, em entrevista ao iG.

Tive proposta do PT do B. O grande barato de ser político é ser desonesto, corrupto. Não quero e nem preciso ser esse corrupto. Por que eu iria me candidatar? Semana passada fui assaltado, colocaram o revólver na minha cabeça. Fiquei tão irritado que pensei em me candidatar, sim, a deputado estadual.”

Ao ser questionado sobre o que de fato é o Bahamas, local que permeia o imaginário masculino há anos – mesmo quando esteve fechado –, Oscar procura sempre dar ênfase à palavra “hotel”. “É um hotel 24h. As pessoas não vêm aqui com os seus filhinhos. Não sou hipócrita. Os homens pagam R$ 200 [para entrar], ele pode pegar R$ 70 para usar a suíte por uma hora ou consumir em bebidas. As mulheres pagam R$ 30, o que lhes dá o direito de uma refeição. O casal paga R$ 230. Se eles transam na suíte ou não é direito deles”, diz.

“É um espaço dedicado ao entretenimento de pessoas adultas. Não é uma casa de swing, mas é um local excessivamente liberal. É um lugar onde suas fantasias poderão se tornar realidade, onde nós somos a favor de pênis eretos, vaginas molhadas e cada um colocar a boca onde bem entender.”

E as mulheres que frequentam e combinam programas pelos sofás da casa? “Eu tenho aqui 46 funcionários, entre camareiros, garçons, recepcionista, caixa, gerência, limpeza, todos devidamente registrados. São funcionários do hotel. Mulheres e homens que pagam para entrar são hóspedes, conversam entre si e o que acontece entre eles... São maiores de idade para se expressarem sexualmente. É assim que a lei decide”, defende o “rei da noite”, forma como é chamado em uma notícia antiga e cujo recorte de papel, de mais de uma década atrás, está pregado na parede do Bahamas. “Também gosto de ‘empresário do prazer’. Gosto de todos”, comenta Oscar.

“A HUMANIDADE PRECISA DE HOMENS COMO EU”

Formado em Psicologia, Oscar afirma ter mais de 20 anos “de noite”, cinco de faculdade e quatro de consultório: “Conheço muito bem a sexualidade humana, e tenho posturas polêmicas”. Sim, são polêmicas, a ponto dele não ter que ratificar essa informação a cada cinco minutos.

“Se o padre Marcelo [Rossi], o Edir Macedo, o R.R. Soares e o Marcos Feliciano são contra (seus negócios), eu os respeito, mas eles têm que me respeitar por ser a favor. A humanidade precisa de homens como eu, como Larry Flint (dono da “Hustler”), [Sigmund] Freud e Henry Miller (escritor norte-americano acusado de escrever obscenidades), pessoas que veem a sexualidade humana como uma sensação gostosa sem preconceitos. Os indecentes, como me definem, são extremamente saudáveis para a sociedade. Eles abrem a cabeça dos bitolados, bloqueados e censurados com esses moralistas e hipócritas, ou então todos estariam fazendo papai-mamãe no escurinho. Pessoas como eu incomodam.”

“CHEGUEI A PENSAR EM SUICÍDIO. NÃO ESTOU BRINCANDO”

A interdição do Bahamas aconteceu algumas semanas após o acidente do voo TAM 3054, que deixou 199 mortos. Maroni diz que foi vítima de “perseguição pessoal, birra e necessidade de provar autoridade”, e questiona as razões que levaram ao fechamento do seu empreendimento: “Disseram que meu hotel colocava em risco as aeronaves e falaram em colocá-lo no chão em cinco dias. Se passaram seis anos. Por que não colocaram abaixo? Minha torre está aqui”. Perguntado se o mesmo teria ocorrido se o Bahamas não ficasse tão próximo ao aeroporto, o empresário diz que não. “Não teria tido esse enfoque da queda do avião.”

“Nesse período, minha vida virou um inferno, tive um prejuízo enorme e cheguei a pensar em suicídio, não estou brincando. Tentaram desmoralizar minha pessoa de todas as formas. Falaram que eu era bandido, cafetão, formador de quadrilha. E agora? Eu estou aqui”, segue questionando.

Oscar calcula que o prejuízo por conta da casa fechada esteja em torno dos R$ 60 milhões – apesar de falar em R$ 80 milhões minutos depois –, quantia que espera reaver na Justiça. “Meus advogados estão vendo de entrar com ações indenizatórias em cima disso. Não é só prejuízo direto do faturamento, é abalo moral.” Gilberto Kassab, prefeito à época da interdição e do acidente, é citado apenas uma vez como “um elemento da prefeitura”.

Bahamas foi reaberto. Oscar's Hotel, logo atrás, segue fechado
Brunno Kono/iG São Paulo
Bahamas foi reaberto. Oscar's Hotel, logo atrás, segue fechado

“O BARATO DE SER POLÍTICO É SER DESONESTO”

Em 2008, Maroni se candidatou a vereador em São Paulo, recebendo pouco menos de seis mil votos. Ele diz que não tem pretensões de ser político “na forma como estamos hoje”, mas não descarta uma segunda tentativa. “Tive proposta do PT do B (mesmo partido que o lançou quatro anos atrás). O grande barato de ser político é ser desonesto, corrupto. Não quero e nem preciso ser esse corrupto. Por que eu iria me candidatar? Semana passada fui assaltado, colocaram o revólver na minha cabeça. Fiquei tão irritado que pensei em me candidatar, sim, a deputado estadual.”

“O que vou falar é bem exótico. Por favor, não votem em mim. Dizer que ‘o Oscar Maroni se ferra porque fala muito’ é uma das coisas que mais me irrita. Existe um mito no Brasil que temos que ser todos carneiros e aceitar tudo. Não, não aceito. Sou candidato para usar desse artifício e demonstrar minha revolta, para divulgar meu repúdio ao sistema atual. Estive [nos protestos] na Av. Paulista, na Av. Faria Lima. Esses políticos não nos representam, tenho direito a questionar isso. Aqui não se consegue por político na cadeia. Eu tenho que aceitar isso? Sou louco, mas sou louco com dignidade, com vergonha na cara. Perdi mais de R$ 80 milhões, mas não me calo”, completa.

É um lugar onde suas fantasias poderão se tornar realidade, onde nós somos a favor de pênis eretos, vaginas molhadas e cada um colocar a boca onde bem entender."

“RELAXADÃO” COM ROLEX NO PUNHO

Logo atrás do Bahamas fica o Oscar’s Hotel, atualmente interditado, com “223 apartamentos, 300 vagas na garagem, três restaurantes, um teatro e pronto para gerar 170 empregos diretos”, segundo Maroni. Ele diz ser praticamente dono do quarteirão, mas que anda assim, e aponta para suas roupas, calça e camiseta simples, e mocassins com meias nos pés. O punho, porém, é adornado por um relógio Rolex. “Tenho um padrão de vida muito bom, gosto de me vestir bem, fazer academia, sou vaidoso. Só que hoje estive aqui com o pessoal da manutenção, estou ‘relaxadão’. Já passei da fase de mostrar status. Meu status é ter fazenda e hotel.”

Aos 62 anos, Oscar é pai de quatro filhos, três homens e uma mulher, frutos do mesmo casamento. Dirige um Mercedes-Benz S 500 que “vale 600 paus”, mora em um apartamento a “três, quatro” quarteirões da casa, namora uma garota de 27 anos, com quem está junto “há alguns anos”, e tem um carinho especial por Docinho, presente para a ex-namorada Vivian Milczewsky, “a que gerou toda aquela polêmica na Internet” (Vivian o acusou de gravar a intimidade de alguns clientes dentro do Bahamas), mas que pegou de volta. Em troca de pequenos pedaços de carne, o pequeno animal é capaz de dizer quantos dedos, entre um e quatro, você tem na mão por meio de latidos.

“Sou um homem relativamente exótico. Tenho 62 anos de idade e carrego no meio das pernas o pau mais usado do Brasil. Transei com mais de 2.500 mulheres”, diz o dono da noite. Como? “O Bahamas tem uma média de 100, 120 e até 150 mulheres por dia. Quantos homens têm um paraíso como esse? Eu criei esse mundo em volta de mim.” E o que Maroni tem de mais exótico? “Meu questionamento em relação à hipocrisia, falar o que eu penso”, responde.

De acordo com Oscar, o movimento na primeira semana foi “bom”, embora afirme que ainda está fazendo uma “regulagem fina e corrigindo detalhes”. Ele diz ainda que uma das épocas mais movimentadas – conforme muitos imaginam – é o final de semana do Grande Prêmio de Fórmula 1 do Brasil, marcado para daqui a exatos dois meses.

O alvará, válido por dois anos com opção para ser renovado por mais dois, que autoriza o funcionamento da casa saiu na semana retrasada, cerca de cinco meses após Maroni ser inocentado da acusação de crimes ligados à prostituição. “Eu precisava dizer para a sociedade que o Bahamas venceu na Justiça”, comemora.

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