Aos 23 anos, ex-estudante de Direito e Filosofia se exibe, e ganha para isso, diariamente em sites do exterior, mas evita as comparações com Clara, do BBB 14. Leia mais na entrevista

Rebeca Galabarof, de 23 anos, é modelo de webcam há quatro:
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Rebeca Galabarof, de 23 anos, é modelo de webcam há quatro: "Me dei bem, gostei pra caramba"

Rebeca Galabarof, de 23 anos, entrou nos cursos de Direito e Filosofia, mas nunca os concluiu. Ela resolveu empreender em uma área sem nenhuma conexão com o que estudara até então e, quatro anos depois, acaba de sair de São Paulo porque está “cansada” daqui e se mudar para Campinas, a cerca de uma hora de carro da capital paulista.

Moradora de um bairro nobre na nova cidade, ela acorda cedo, vai à academia, assiste à televisão e lê o jornal antes de finalmente iniciar o expediente. Rebeca não abre o jogo sobre salário, mas diz viver “confortavelmente” com a jornada profissional dupla que leva. O que ela faz da vida? É modelo de webcam, ou stripper virtual, como alguns conhecem melhor, além de cuidar de uma agência que emprega outras 68 garotas.

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Desde que Clara Aguilar, que também é do ramo, mas há mais tempo que a jovem de 23 anos, entrou no BBB 14, Rebeca afirma que muitos têm confundido quem ela é: “Ela [Clara] pula na piscina pelada, é extrovertida, eu sou na minha. As pessoas esperam que eu tenha uma atitude mais explosiva. Não é a minha”.

Como modelo de webcam, Galabarof conta que cobra US$ 5 por minuto dos clientes – os que não pagam nada conseguem ver seu rosto por alguns minutos e depois são expulsos da sala, um bate-papo virtual, mas com o diferencial de ter uma garota, vestida ou não, se exibindo em vídeo – e que em casos de exclusividade é cobrado o dobro. Dessa quantia, uma parte fica com ela e a outra vai para o site que hospeda seu perfil.

Em entrevista por telefone ao iG , ela conta como iniciou a carreira, a concorrência entre modelos, o ranking elaborado pelos sites e a briga que é ficar no topo deles, as vantagens e dificuldades de trabalhar com o exibicionismo virtual e que não pensa em deixar a indústria do sexo pelos próximos 15 anos. Leia mais abaixo:

iG: Como você começou e como virou modelo de webcam?
Rebeca Galabarof: Comecei fazendo teatro. Estou envolvida com a arte desde criança, aí quando passei no vestibular, fui fazer Direito e precisava de trabalho. Comecei a ver o que eu poderia fazer antes da época de estágio. Eu morava com uma menina que fazia Moda e trabalhava no Iguatemi (shopping de São Paulo), ela sempre chegava exausta, eu não queria aquilo para mim. Fui conversando com as pessoas, um dia uma amiga se abriu e disse que recrutava modelos para fazer show por webcam. Fui pesquisar, vi que era seguro e só para o exterior. Legal, aí troquei ideia com minha mãe, ela me apoiou, resolvi fazer uma tentativa. Me dei bem, gostei pra caramba.

Acho que as pessoas de fora pensam que estamos em uma posição de submissão, mas existe um respeito absurdo. Já tive que aturar mais merda dos caras com quem saí na balada do que com quem é meu cliente. Existe uma certa veneração, é um negócio bem louco."

iG: Quando foi isso?
Rebeca Galabarof: Faz mais ou menos uns quatro anos. Mas eu tive um período sabático de um ano no meio.

iG: Você comentou que sua mãe te apoiou. O que ela faz?
Rebeca Galabarof: É arquiteta.

iG: E você é filha unica?
Rebeca Galabarof: Sim, filha única.

iG: Você fala abertamente sobre o assunto, não esconde o rosto ou o nome. Qual é a percepção das pessoas?
Rebeca Galabarof: Aqui no Brasil não existe a cultura do striptease. É como você disse antes, existem as atrizes pornôs e as garotas de programa, o mundo da webcam fica no limbo. Ninguém entende muito bem quem faz show por webcam, se é meio para fazer programa, se é para fazer pornô. Tipo, são os dois. Existem modelos que fazem os dois, usam como propaganda para ter clientes ou fazer filmes, não é o meu caso. Cada uma faz como prefere.

iG: Por que se exibir apenas para o exterior?
Rebeca Galabarof: Prefiro assim. No Brasil é muito caro, e eu cobro US$ 5 por minuto. No raciocínio daqui, seriam dez minutos, US$ 50, o que dá uns R$ 130 (na cotação de ontem o valor seria em torno de R$ 116), o cara vai pensar que é mais fácil pagar para sair com uma menina, não vai pagar isso para uma menina de webcam. Nos EUA e na Europa isso já é mais comum. Falo que sou brasileira, não escondo, mas a porcentagem que acessa daqui do Brasil é quase nula. Hoje em dia existem alguns sites brasileiros, já entrei para as ver as meninas no “free chat”, não mostrando o rosto. Isso já não é permitido nos sites em que eu trabalho.

Você está no controle e pode falar sim ou não, diz Rebeca Galabarof sobre pedidos de clientes
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Você está no controle e pode falar sim ou não, diz Rebeca Galabarof sobre pedidos de clientes

iG: Como funciona o trabalho?
Rebeca Galabarof: Só me exponho para quem está pagando. A pessoa já entra [na sala] pagando, se não estiver pagando ela vê meu rosto por alguns minutos, depois é expulsa. Tem também a opção de ser exclusivo, só eu e mais uma pessoa. Aí custa mais ou menos o dobro.

iG: Dos US$ 5 por minuto, quanto disso fica com você?
Rebeca Galabarof: Tem uma porcentagem que vai para o site, eles que fornecem a infraestrutura, tráfego. A porcentagem pode variar, a gente pode ficar com 65% a 30%, depende se o usuário se cadastrou no site pelo perfil da modelo. Depende de algumas coisas.

iG: Como é a sua rotina?
Rebeca Galabarof: Acabei de me mudar para Campinas. Sou de São Paulo, mas me cansei um pouco daí, estou dando um tempo aqui, vamos ver se curto. É uma vantagem. É assim, eu entro no horário que eu quiser, fico [online] o quanto eu quiser e se eu quiser. É bastante tentador, você precisa ter disciplina para trabalhar de casa. Normalmente eu acordo cedo, umas 8h, vou para a academia, volto, tomo um banho, dou uma relaxada, assisto alguma coisa na TV, leio jornal, aí entro e fico quatro horas online. Aí depois eu vou almoçar, dou mais uma descansada, tenho a agência, então preciso conferir o que está acontecendo com as modelos, como elas estão se saindo. À noite, umas 22h, entro de novo e fico mais umas duas ou três horas.

iG: Você se apresenta no seu próprio quarto?
Rebeca Galabarof:
Não, eu tenho um lugar separado que não é meu quarto porque tem uma parafernália absurda, luzes, câmera. Ficaria incomodada se fosse no meu quarto. Tenho um cômodo específico.

A cada 100 meninas que fazem aplicação e me procuram para virar modelos, dez preenchem todos os requisitos. É um processo complicado, não é porque você tem um PC e uma webcam que pode fazer. Tem que ter o equipamento, Internet de fibra óptica, câmera HD, saber falar inglês, preparo emocional, você está mexendo com sua imagem."

iG: Você parece ter uma vida confortável. Quanto você ganha por mês?
Rebeca Galabarof:
Eu prefiro não falar. Olha, eu vivo muito bem. Vivo confortavelmente, me divirto muito com meu trabalho. Óbvio que com a minha agência eu ganho mais do que somente como modelo.

iG: Já são quatro anos como modelo. Quem consome esse tipo de serviço?
Rebeca Galabarof: Dependendo da região, tem coisas que são mais requisitadas, coisas que são menos. É um mundo muito fetichista, as pessoas acessam procurando coisas específicas, como peito grande, bunda grande, tipo a Clara (do BBB 14), algo bem Las Vegas, da loirona, e que faz muito sucesso, é um dos fetiches máximos. Os norte-americanos adoram peito, tem uma galera nos EUA que curte algo mais “hardcore”, mais explícita; na Europa é mais tranquilo; já os árabes são mais românticos, voltam todos os dias.

iG: E o que eles mais pedem?
Rebeca Galabarof:
Como modelo, você está no controle e pode falar sim ou não. Vou fazendo conforme me dá vontade, a maioria das modelos que conheço também fazem desta maneira. A humilhação era algo que eu não sabia, não sabia que tinha gente que gosta de ser humilhado, ouvir que tem o pinto pequeno... Eu faço, é engraçado. Tenho cara de malvada, então tem muitos que me pedem para fazer dominação. E acho que as pessoas de fora pensam que estamos em uma posição de submissão, mas existe um respeito absurdo. Já tive que aturar mais merda dos caras com quem saí na balada do que com quem é meu cliente. Existe uma certa veneração, é um negócio bem louco.

No filme
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No filme "Ela", Joaquim Phoenix se apaixona pelo programa cuja voz é de Scarlett Johansson

iG: No filme “Ela”, o personagem de Joaquim Phoenix se apaixona pela voz de um programa de computador. Até que ponto vai a relação com os clientes? Já aconteceu algo parecido?
Rebeca Galabarof:
Nos sites em que trabalho é totalmente proibido passar seu contato pessoal. Na hora apita uma corneta, você é multada, banida por uma semana ou até em definitivo. Já fiz amigos com as quais aprendi coisas legais e que estão sempre me acompanhando. Converso semanalmente, talvez até mais do que com meus amigos mesmo, mas existe um limite muito definido. Óbvio que quem acessa eventualmente tenta seu contato, mas a gente diz que se quer nos conhecer melhor, a gente conversa pelo chat.

iG: Vendo alguns sites que hospedam modelos de webcam, há uma espécie de ranking entre elas, de forma que as melhores colocadas ficam em evidência. Como ele funciona?
Rebeca Galabarof: Eles são baseados na quantidade de créditos gastos pelos clientes com cada modelo. Assim que é feito o cálculo, o ranking existe em todos os sites.

iG: Recentemente, a ex-atriz pornô Jenna Jameson, ícone do mundo do entretenimento adulto, deixou de lado a aposentadoria e voltou ao mercado, agora como modelo de webcam. É um mercado muito concorrido?
Rebeca Galabarof: Mulher tem muito disso, essa competição louca. Eu fico pasma, não vejo a menor necessidade disso. Cada uma faz um tipo tão diferente... Quem curte o tipo da Clara nunca vai me curtir e vice-versa. É um negócio tão oposto.

iG: Apesar de expor a imagem, por ser um negócio que não exige o contato físico, dá segurança à modelo e aparentemente um retorno financeiro, você acredita que o número de modelos vai crescer?
Rebeca Galabarof:
Vou falar baseado na minha agência. A cada 100 meninas que fazem aplicação e me procuram para virar modelos, dez preenchem todos os requisitos. É um processo complicado, não é porque você tem um PC e uma webcam que pode fazer. Tem que ter o equipamento, Internet de fibra óptica, câmera HD, saber falar inglês, preparo emocional, você está mexendo com sua imagem. “Trocentas” meninas se cadastram, nem 1% fica. Fica quem nasceu para o negócio e curte fazer. Não vejo crescimento.

iG: Como foi essa transição de modelo de webcam para empresária e dona de agência?
Rebeca Galabarof: Eu morava com aquela menina que fazia Moda. Quando ela me viu começando a trabalhar com isso, ela também quis. Um amigo meu da área de TI foi me mostrando como funcionava, falei “eu posso fazer isso, pode ser um negócio”. Sempre gostei de ver onde posso investir. Alguns meses depois de começar a trabalhar como modelo, eu criei a agência, a Studio VCH (Video Chat Host, site atualmente em reforma), foi um processo natural.

Clara Aguilar já era conhecida no ramo muito antes de entrar no BBB, diz Rebeca Galabarof
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Clara Aguilar já era conhecida no ramo muito antes de entrar no BBB, diz Rebeca Galabarof

iG: Quantas modelos tem a agência?
Rebeca Galabarof:
Atualmente são 68 cadastradas, mas é um número flutuante. Só trabalho com modelos brasileiras.

iG: Você comentou que tem outros projetos. Quais são eles?
Rebeca Galabarof:
Estou escrevendo o roteiro de um filme pornô para mulheres, na linha do que a diretora Erika Lust faz. Eu e um amigo que trabalha com cinema resolvemos nos unir, ele vai produzir, vamos ver o que vai rolar. Também estou escrevendo um livro com crônicas e contos que giram em torno desse universo, sobre por que as pessoas procuram a companhia das modelos. As pessoas estão sozinhas, querem conversar de verdade e por muito tempo, é absurdo. Nos EUA, me chama atenção o número de veteranos de guerra com problemas sérios, a gente não tem muita noção no Brasil. Na minha opinião, esse tipo de pornografia, como entretenimento adulto, salva relacionamentos.

iG: A Sasha Grey é um exemplo de alguém que trabalhou na indústria, saiu e agora atua em filmes, seriados e estreou recentemente como escritora. Você se vê fazendo algo parecido?
Rebeca Galabarof: Mas o livro dela é erótico, né?

iG: Sim.
Rebeca Galabarof: Ela ainda está envolvida na indústria. É uma indústria que tem várias gamas, não me vejo trabalhando fora dela. Pelo menos não nos próximos 15 anos, depois disso não sei.

iG: Quais são as maiores vantagens de ser uma modelo de webcam?
Rebeca Galabarof: Os grandes benefícios são flexibilidade de horário, a possibilidade de não precisar morar em um só lugar, poder viajar. Posso morar onde eu quiser, isso é muito valioso para mim. Ganha-se muito bem, mas trabalha-se muito. Existe uma hierarquia que acaba sendo um dos principais fatores pelos quais as modelos param no caminho. O que acontece? Você tem que ir subindo naquele ranking, é preciso ser persistente, ter disciplina, estar ali todo dia no mesmo horário, seguir regras. Isso enche o saco. No escritório dá para fingir que você está trabalhando, aqui não. Tem que estar maquiada, com a postura certa, todo dia. É desgastante. A modelo entra achando que vai ganhar uma grana da noite para o dia, não é assim, demora. Foi uma puta decepção quando entrei, eu ouvia falar em meninas tipo a Clara, que está no mercado há mais tempo, ouvia dizer que elas ganhavam uma grana exorbitante. Até agora ainda estou no caminho, nem perto do topo da cadeia alimentar. Isso depende muito. Por exemplo, passei por uma cirurgia e fiquei quatro meses sem entrar, voltei e meu ranking tinha caído. Não estou entre as 100 mais, mas não estou começando. É gradual.

iG: E as maiores dificuldades?
Rebeca Galabarof: Por ter que lidar com a imagem, pode ser uma profissão bem delicada. Você fica se olhando o dia inteiro, recebendo elogios, se você não tiver noção de que aquilo não é você, de que você está, na verdade, vendendo uma imagem, você pira. Tem meninas que vão pirando, colocam silicone que não era para colocar, malham demais, desenvolvem distúrbios. Você até falou da atriz pornô que acabou voltando. O padrão subiu, as meninas antes eram normais, agora já é profissional.

iG: Você dizia que não gostava de algumas comparações com a Clara. Que comparações são essas?
Rebeca Galabarof: Quando eu comecei, ela já era conhecida, muito antes de entrar no BBB. A Clara faz um estilo muito diferente do meu, e como as pessoas não conhecem direito o que é esse trabalho, pensam que a personalidade dela é a mesma que a minha. Ela é muito querida, eu a admiro, mas existe essa confusão do pessoal. Ela pula na piscina pelada, é extrovertida, eu sou na minha. Super na minha. As pessoas esperam que eu tenha uma atitude mais explosiva. Não é a minha.

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