Autor de "A Sociedade Secreta do Sexo", Marcos Nogueira frequentou festas fechadas em quatro países. Em entrevista ao iG, ele diz que elas têm seu lado conservador e que o libertino brasileiro é mais lento que o europeu na hora de iniciar a orgia

Marcos Nogueira e sua esposa na festa da Madame O em Cassano d'Adda, na Itália
Arquivo pessoal
Marcos Nogueira e sua esposa na festa da Madame O em Cassano d'Adda, na Itália

O que vem à sua cabeça quando falamos de uma orgia "exclusiva"? As cenas com Tom Cruise no filme "De Olhos Bem Fechados", o último de Stanley Kubrick? Uma terra sem lei bizarra onde "ninguém é de ninguém e todo mundo é de todo mundo", moldada pela obra do Marquês de Sade?

"Não é um clube de tarados que vestem roupas de couro com tachinhas. São pessoas como eu, como você, que gostam de fazer isso de vez em quando", diz Marcos Nogueira, autor do livro "A Sociedade Secreta do Sexo". Para escrevê-lo, o jornalista mergulhou no mundo das orgias – foram sete, em quatro países, sem mencionar as oito casas de swing visitadas –, mas sem participar de nenhuma. Quer dizer, participar ele participou, mas como voyeur, um elemento necessário neste universo.

A primeira orgia observada, em abril de 2009, aconteceu em uma mansão no Morumbi, na zona sul de São Paulo. A última, no mês retrasado, foi em uma suíte presidencial de um hotel cinco estrelas da capital paulista, e cuja diária gira em torno de R$ 30 mil. Ambas foram organizadas pela mesma sociedade, a Madame O (o nome é inspirado em um romance erótico dos anos 50), encabeçada por um franco-italiano identificado apenas como "Jacques" e que tem nos italianos e brasileiros seu maior público entre os cerca de 1.600 membros.

Também coube ao pessoal da Madame O ser o anfitrião de outras duas "festas" visitadas pelo jornalista, uma em Saint-Tropez, na França, e a outra, esta a mais luxuosa de todas, em um palácio construído no século 18, em Cassano d’Adda, nos arredores de Milão, na Itália. Questionado se viu diferenças de comportamento entre brasileiros e estrangeiros, Nogueira revelou um dado curioso: o brasileiro, apesar daquela imagem – que é vendida para o exterior – de caloroso e quente, é mais devagar em termos de orgia.

Perfil de quem frequenta essas orgias varia. Nas casas costuma ter muitas pessoas de classe média, nas festas já começa a ter gente mais rica, e gente não muito jovem, são mais velhas. É a partir dos 35 anos até uns 50 e poucos."

"As duas [orgias] da Europa eram com a mesma trupe, foram iguais. No México, o hotel [voltado para adeptos do swing] tinha basicamente norte-americanos, e era como um resort normal com programação, era tudo organizado. No Brasil é engraçado, todo mundo acha que brasileiro é putaria, mas demora muito mais para engatar do que na Europa. Quando você vê são 5h da manhã e ninguém fez nada. Os europeus são mais diretos. Essa é a diferença."

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SOCIEDADE SECRETA

"'Sociedade secreta' é uma brincadeira, mas eles se protegem, tentam se prevenir de pessoas que possam entrar ali para sacanear. O primeiro casal que conheci eram dois evangélicos, se isso cai na boca dos outros é uma merda muito grande", diz Nogueira sobre a “rede de proteção” que os frequentadores das orgias têm em torno deles. Casas de swing existem em várias capitais brasileiras e geralmente são abertas ao público – basta pagar –, mas grupos como a Madame O têm acesso extremamente restrito.

Marcos conta que o processo de ingresso nestas sociedades libertinas conta com envio de fotos sua e da companheira, recomendações de atuais membros e entrevistas por e-mail, "mais ou menos como um clube de tênis ou iatismo, mas dedicado a um esporte diferente". É preciso ser minimamente um iniciado no meio, ou seja, dificilmente um "P&B" (preto e branco, como os adeptos do swing, que se autodenominam coloridos, chamam quem não é) entra de cara. "Não tem tanta gente, mas quem está lá se sente seguro", explica o jornalista.

Já o processo para ser expulso delas não é tão longo. Nogueira lembra que ficou meses como membro de uma rede brasileira, pesquisando para o livro, até que teve uma entrevista com o dono de uma casa de swing não transcorreu como o imaginado. Ele foi banido no dia seguinte.

Capa do livro
Divulgação
Capa do livro "A Sociedade Secreta do Sexo" (Editora Leya), do jornalista Marcos Nogueira

ELES ODEIAM CASAIS FALSOS

Você, homem solteiro, vê um clube de swing e pensa que não há jeito mais fácil – sem recorrer à prostituição – de conseguir sexo do que cobiçar a mulher do próximo, uma vez que o próximo está de acordo com isso. Pois isso "é a coisa que os caras mais odeiam", segundo Marcos.

"Você está com a mulher do outro, mas o outro está pegando sua mulher. Quando o cara leva uma amiga ou uma prostituta, ele está trapaceando", aponta o escritor. Mas, e se você for pego, passará pelo mesmo constrangimento que Tom Cruise em "De Olhos Bem Fechados"? Também não é para tanto. "Eles têm mecanismos para identificar um casal falso, as pessoas não pegam na mão, não trocam beijos. O que eles fazem não é nem expulsar, só evitam o casal."

É mais comum homens tentarem se infiltrar porque mulheres solteiras costumam ser bem-vindas, e é aí que as orgias mostram – acredite – seu lado conservador. A bissexualidade da mulher é aceita e incentivada, a do homem, não. "É um meio que usa caminhos heterodoxos para preservar uma instituição que ele considera sagrada: o casamento monogâmico entre um homem e uma mulher", escreve Marcos.

"O meio do swing tem um pouco disso. Você está lá para preservar seu casamento, seria uma alternativa à infidelidade. Você quer fazer algo diferente? Vamos fazer com todo mundo sabendo, preservando o casamento. Todo mundo tem filhos, família, eles não abrem o que fazem porque têm medo de perder os núcleos", completa.

Uma das festas fechadas aconteceu em uma cidade nos arredores de Milão, na Itália
Thinkstock/Getty Images
Uma das festas fechadas aconteceu em uma cidade nos arredores de Milão, na Itália

"É SURUBA, NÃO É BAGUNÇA"

Preencher todos os requisitos necessários não te isenta de, ainda assim, ser expulso. "É suruba, não é bagunça. Tem todo um código de etiqueta, você não pode chegar e achar que vai pegar a mulher de todo mundo. É uma comunidade, se você não obedecer, está fora. Todo mundo te trata bem, ninguém usa o celular (há áreas reservadas para isso), uma das coisas mais importantes é o casal combinar com o outro o que está disposto a fazer", diz Marcos, que anota em seu livro sete regras básicas de uma orgia, entre elas a higiene, bem compreensível, e que a negociação entre os casais seja feita pelas mulheres.

ANÃO, KEITH RICHARDS... HISTÓRIAS QUE ORGIAS PROPORCIONAM

Nogueira entrou de cabeça aberta em um mundo fechado, mas coloque um anão lambendo uma mulher e você provavelmente o surpreenderá. "Tinha essa mulher que ficou sendo lambida por uma hora. Depois participou de um 'fist fucking'. Ela não era convidada da festa, era paga. Eles têm grupos de artistas contratados para fazer shows eróticos, e estava lá o anão com roupa de pierrot. Assustava um pouco."

Outra história que o jornalista guarda aconteceu na saída da orgia de Saint-Tropez. No caminho para o carro, Marcos acabou abordado por Jacques, o anfitrião, questionando-o se ele havia visto o "velho acabado" dos Rollings Stones, de cueca, bebendo uísque. O tal velho seria Keith Richards, mas ao ver com os próprios olhos, o brasileiro certificou-se de que se tratava apenas de alguém muito parecido com sotaque britânico. Foi nesta mesma conversa que Jacques convidou o jornalista para ser seu novo sócio por aqui, visto que os antigos pularam fora. Convite declinado. Marcos sugere que a festa de março teve como objetivo atrair parceiros. "Não sei se ele conseguiu, deve ter conseguido. O cara tem lábia."

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