Após trabalhar 12 anos na indústria do sexo, Gwyneth Montenegro escreveu um livro com a sua história. Uma história que começa com bullying, passa por estupro, superação e luxo, e "termina" com aprendizado e exemplo

Gwyneth Montenegro foi garota de programa durante 12 anos
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Gwyneth Montenegro foi garota de programa durante 12 anos

Aos 36 anos, Gwyneth Montenegro diz ter conhecido mais de 10 mil homens – 10.091, para ser mais exato, mas nem tanto, visto que a contagem segue ativa. "Mantive um diário para que pudesse ter um pouco de sanidade durante toda a experiência. Nunca esperei ou planejei ter tantos encontros. Isso (a ideia do diário) começou mais como algo inocente e uma forma de me expressar com relação a tudo que aconteceu", diz a australiana.

A "experiência" de Gwyneth foi ter trabalhado durante 12 anos como garota de programa. Neste tempo, ela contabilizou o número de clientes – que serve, inclusive, de título para o seu livro, "10.000 Men and Counting", ou "10 mil homens e contando" –, e embora não tenha – "infelizmente", lamenta – levantado mais dados para criar algo parecido com o que a norte-americana Avery Moore fez , ela conta que aprendeu muito sobre os homens.

"Você ficaria surpreso em saber quantos homens usavam o tempo para compartilhar problemas pessoais comigo. A socidade dita que o homem deve ser forte e durão, e ele se esforça para manter essa imagem com os amigos e dentro da família. Uma das coisas maravilhosas do sexo é que ele estabelece uma conexão entre duas pessoas, talvez um grau de confiança, e com frequência até o mais durão dos homens se abria comigo. Em situações como esta (a do programa), não há razão para você ser menos do que você mesmo."

Do ponto de vista financeiro, há a percepção de que valeu a pena, mas, olhando para trás, se tivesse que escolher novamente, eu não iria por este caminho. Você passa uma vida inteira longe da sociedade. Para manter seu segredo, você evita ter amigos, pode ser uma experiência solitária."

Por cada encontro de uma hora, Gwyneth cobrava entre US$ 500 e até US$ 1 mil, mas em situações ímpares, ela lembra que era possível receber US$ 20 mil por alguns dias de viagem na companhia do cliente.

"Alguns dias com um rico homem de negócios poderia ser muito lucrativo. Estas eram as exceções à regra, normalmente eu teria que sair com uma quantidade muito maior de clientes para ganhar essa quantia", pondera a australiana.

Montenegro afirma que nunca perguntou sobre a vida pessoal dos clientes, mas ao ser questionada sobre qual o perfil do homem que procura uma garota de programa, ela responde que 90% deles eram casados e geralmente homens de negócio que "valorizavam um encontro profissional e limpo".

"NÃO IRIA POR ESTE CAMINHO DE NOVO"

"Eu queria ganhar muito dinheiro. Para mim, dinheiro era igual a liberdade. O dinheiro fazia com que eu me sentisse melhor, eu comprava roupas, bons carros, joias e tinha uma vida de alto padrão. Me sentia anestesiada em um mundo no qual eu me sentia totalmenta traída", afirma Gwyneth sobre uma das razões que a levou para a indústria do sexo.

A vida de dinheiro, luxo e eventualmente drogas, no entanto, não é uma que ela escolheria novamente se tivesse a chance. "Do ponto de vista financeiro, há a percepção de que valeu a pena, mas, olhando para trás, se tivesse que escolher novamente, eu não iria por este caminho. Você passa uma vida fora da sociedade, você precisa lidar com as consequências emocionais do seu estilo de vida diariamente. Para manter seu segredo, você evita ter amigos, pode ser uma experiência solitária."

Capa do livro
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Capa do livro "10.000 Men and Counting"

Por outro lado, no livro, ela escreve que transar com tantos homens foi uma escolha de carreira, que é "difícil dizer" se faria as coisas de maneira diferente se pudesse e chama as vidas de ex-colegas de escola, de quem ouve falar de tempos em tempos por meio da mãe, como "tediosas". 

"OS PIORES ANOS DA VIDA"

Hoje com suas vidas "tediosas", os ex-colegas de escola fizeram, segundo ela, de tudo para tornar sua vida o menos tediosa possível na adolescência. "Foram os piores anos da minha vida. Eu era uma garota incrivelmente tímida e introvertida, e, por isso, era alvo de bullying. Me senti sozinha e isolada, e como consequência do bullying, perdi a fé nas pessoas. Estava determinada a, um dia, me erguer e encontrar paz e felicidade comigo mesma. Odiei cada último dia do colégio e mal podia esperar para fugir." 

Mas, como em uma daquelas típicas comédias que rotulam o colegial norte-americano em grupos estereotipados, a garota que sofria bullying cresceu, o corpo se desenvolveu e passou a chamar atenção dos jovens que até então só viam nela motivos para rir. A comédia, contudo, durou pouco e logo virou terror.

Em uma das piores passagens de sua vida, Gwyneth relata que teve sua bebida alterada durante uma festa e foi vítima de abuso sexual, aos 18 anos. Ela afirma que os responsáveis nunca foram pegos, mas, mais surpreendente, é que ela se culpou pelo estupro, talvez pelas roupas que usava, talvez por flertar com alguns rapazes naquela noite, pensou na época. "Não existe justificativa para alguém ser estuprada", pensa hoje, com razão.

A recuperação foi lenta e levou anos. "Culpada" e "sem se importar", Montenegro decidiu trabalhar como stripper, posto que tornou a transição para a prostituição, aos 21 anos, "mais fácil". "Eu estava incrivelmente deprimida e me odiava muito. Minha cabeça estava tão mal que eu simplesmente não me importava mais. Se eu tivesse a minha vida de volta, não teria tomado essa decisão desse jeito."

"O CHAMADO"

Com 24 anos, a australiana conta que recebeu um "chamado", que veio na forma de um acidente de carro. "No hospital, revelei tudo para os meus pais. Ainda hoje posso ver a tristeza em seus olhos ao me ouvirem e descobrirem o que fazia para viver."

"Cheguei à conclusão de que mesmo com dinheiro, eu estava desesperada e sentia falta de uma paixão (algo que amava fazer, não amor). Levei alguns anos, mas eventualmente descobri minha paixão por voar. Me tornei piloto, voei pelos cenários mais incríveis, mas como você vai ver em meu livro, os bons tempos não duraram e acabei voltando para o sexo", completa, sem revelar o que houve. Problemas de saúde a impediram de renovar a licença, mas não de retomar a antiga profissão, que ela viria a largar de vez aos 33 anos.

VIDA APÓS OS 33 ANOS

Muitos dirão que uma ex-garota de programa não é um exemplo para as mulheres, mas a questão não é tão simplista assim, por mais que Gwyneth sinta-se um pouco hipócrita ao dar conselhos.

"Descobri uma compaixão por jovens mulheres que sofreram bullyng ou sofrem de baixa autoestima. Entre outras coisas, as aconselho a confrontar e esquecer o passado, e focar no futuro. Para ser honesta, me sinto culpada. Como posso dizer às pessoas para confrontar o passado quando eu não fiz isso? Para mim, escrever o livro foi uma experiência terapêutica. Desde o lançamento, me vi em contato com muitas vítimas de estupro, bullyng e similares", explica.

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