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Com mais de 20 passagens pela Síria, Gabriel Chaim é um dos principais nomes da fotografia brasileira de guerras. Conheça a carreira e a vida do paraense radicado em São Paulo

A ideia original já era boa e trabalhosa suficiente: formado em gastronomia e em fotografia, o paraense radicado em São Paulo Gabriel Chaim  resolveu registrar em imagens como se alimentavam refugiados de guerras. Pesquisou, escolheu ir à Faixa de Gaza para acompanhar um pouco da vida dos sírios que lá viviam e assim nasceu, em 2010, o projeto Kitchen4Life.

Mas a experiência o fez enxergar que precisava ir além. “Apaixonei-me pela questão de pessoas que fogem de seus territórios e ficam ‘presas’ em abrigos. Decidi que deveria conhecer a realidade de onde elas saíram”, conta. Gabriel não tinha noção, na época, que isso o tornaria um dos principais nomes da fotografia brasileira quando o assunto é cobertura de conflitos bélicos.

Auto-retrato do fotógrafo Gabriel Chaim em uma das zonas de conflito em que costuma trabalhar
Gabriel Chaim
Auto-retrato do fotógrafo Gabriel Chaim em uma das zonas de conflito em que costuma trabalhar

Em 2013, o fotógrafo embarcou para outro campo de refugiados, o Zaatari, na Jordânia, para procurar um formato para esse novo trabalho. Foi apenas com um rascunho na cabeça. “Não tinha nenhum projeto específico, não havia vendido um plano para nenhuma agência. Eu precisava entender, in loco, qual seria esse novo projeto”, lembra. E lá ele decidiu que queria cobrir guerras de fato.

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Paradas estratégicas
Viver o básico não custa pouco em ambientes com tantas privações quanto campos de refugiados e cidades em guerra. Um fixer (pessoa local que serve de guia e intérprete pela cidade, sabe por onde transitar com segurança e faz o meio de campo entre fotógrafo e personagens) custa de US$ 150 a US$ 300 por dia. Eventualmente, hospedagem e alimentação fazem parte do “pacote” do fixer; quando não é o caso, pode-se incluir US$ 50 por dia com um quarto de hotel e refeições. E há também os custos de passagens aéreas, equipamento e equipamento reserva.

Por isso, e por não ter contrato previamente assinado ou patrocínio, Gabriel sempre se preocupa em fazer um pé de meia para não passar necessidade. Antes de ir à Faixa de Gaza, por exemplo, passou um ano trabalhando em Dubai (Emirados Árabes Unidos) como fotógrafo de eventos e como chef de cozinha. A parada antes de ir à Jordânia e à Síria foi bem menos light: ele ficou de 2011 a 2013 cobrindo as manifestações egípcias que levaram à queda do presidente islamita Mohammed Morsi.

Finalmente, Síria
De abril a junho de 2013, a “casa” do fotógrafo foi o campo de refugiados Zaatari, na Jordânia. Voltou ao Brasil e, em setembro do mesmo ano, entrou pela primeira vez na Síria. “Escolhi uma das piores guerras da humanidade, porque o perigo é constante. Mas gosto tanto das histórias que volto sempre, quero continuar mostrando a realidade deles”, explica ele, que já entrou no país mais de 20 vezes.

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“O medo nunca passa”
Uma pessoa que já esteve tantas vezes no meio de bombardeios no mesmo país deve estar acostumada a essa realidade, pensamos nós, que nunca passamos por isso. Pois essa ideia não poderia estar mais distante da realidade.

“Cada vez que entro na Síria, fico cinco noites sem dormir, pensando que posso morrer a qualquer momento”, confessa Gabriel. “Eles bombardeiam regiões civis, casas, escolas, hospitais. Penso se vai cair uma bomba onde estou, se vou morrer. O medo nunca passa.”

Para administrar esse sentimento, ele se concentra nos benefícios que seu trabalho traz para as pessoas que retrata. Caso de uma refugiada fotografada por ele que chamou a atenção do jornal britânico “The Guardian” e de uma instituição que acabou financiando a reconstrução de seu corpo. “O medo fica menor depois de situações desse tipo”, diz.

“Cada vez que entro na Síria, fico cinco noites sem dormir, pensando que posso morrer a qualquer momento”, confessa Gabriel
Gabriel Chaim
“Cada vez que entro na Síria, fico cinco noites sem dormir, pensando que posso morrer a qualquer momento”, confessa Gabriel

E a família, como fica?
Com 33 anos de idade e 15 anos de relacionamento (entre namoro e casamento) com Daniela, Gabriel Chaim é pai de uma menina de seis anos e de um menino de nove meses. No começo, ele revela, ela naturalmente não gostava de ver seu amado partindo para lugares e circunstâncias tão perigosos. Com o tempo, porém, a família vem se acostumando.

“Hoje é mais fácil”, acredita o fotógrafo. “Eles entendem que esse é o meu trabalho. Quando nos damos conta dos resultados positivos, não tem quem diga para eu não continuar. Seria muito egoísmo da minha parte e da parte da minha mulher querer que eu ficasse parado em casa ou fazendo outro tipo de foto só para ficar no Brasil o tempo todo.”

Exército de um homem só – e de corpo aberto
É claro que, por amor, Daniela e os dois filhos não saem do pensamento de Gabriel quando ele está fora. E o fato de ele fazer tudo praticamente sozinho colabora para isso. Sua companhia sempre é o fixer da vez. E só. “Trabalho sozinho, eu sou minha equipe. Fotografo, filmo, faço o que for preciso. É difícil encontrar algum colega na Síria, porque é muito perigoso mesmo. Então, como já tenho essa imersão na cultura local, acho melhor fazer desse jeito”, explica.

Outra escolha bem pessoal é trabalhar de corpo aberto. Ele se justifica: “Não gosto de usar equipamento de segurança. Tira minha mobilidade e fico muito diferente das pessoas que lá estão. Prefiro passar despercebido, não chamar atenção.”

E assim segue com seu trabalho marcante, arriscado e único. Porque Gabriel Chaim não se espelha em nenhum fotógrafo de guerras e conflitos, como os integrantes do famoso Bang Bang Club (Kevin Carter, Ken Oosterbroek, Greg Marinovich e João Silva, que cobriram a guerra civil sul-africana nos anos 1990). Ele prefere seguir sua intuição. “Nunca me inspirei em ninguém, para não correr o risco de imitar o trabalho alheio. Deve ser por isso que levei tanto ‘não’ no começo. Mas também foi por isso que criei meu estilo. O mais importante na fotografia é cada um ter seu estilo, seu olhar”, finaliza.

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