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O primeiro emprego de Carlinhos tem tudo para ser seu último. Nascido em uma pequena cidade de Sergipe, ele começou como garçom e agora é gerente do Famiglia Mancini, uma das mais tradicionais casas de São Paulo

Com 28 anos de casa, Carlinhos é um dos gerentes que comandam o salão do Famiglia Mancini
Brunno Kono/iG São Paulo
Com 28 anos de casa, Carlinhos é um dos gerentes que comandam o salão do Famiglia Mancini

O relógio ainda não deu 7h da manhã e José Carlos Ferreira, o Carlinhos, de 48 anos, já está na rua. Ele leva alguns minutos de caminhada para ir da sua casa até o local de trabalho, no centro de São Paulo., e é por volta das 6h45 que ele abre as portas do Famiglia Mancini, seu escritório há 28 anos, para os demais funcionários entrarem.

Empregado mais antigo da casa, Carlinhos começou como garçom do restaurante italiano aos 19 anos, em 1985 – aquele era seu primeiro emprego da vida.

“Desisti de estudar na 8ª série porque tinha que pedalar 12 km todo dia para ir à escola. Parei e vim para São Paulo”, se recorda o atual gerente da casa de Walter Mancini ao falar da infância e adolescência em Aquidabã, município de 20 mil habitantes e a 98 km de Aracaju, capital de Sergipe.

O convite para ser ajudante partiu de um amigo que trabalhava no Famiglia. O amigo se mudou para o Amapá, mas Carlinhos ficou. “Eu fazia de tudo. Fiquei dois meses na cozinha, mas foi suficiente para ter uma base. Fui trabalhar na copa, servindo as bebidas que os garçons anotavam; depois passei o buffet, onde aprendi tudo de perto; fiquei mais uns oito meses ou um ano, e em 1987 eu já estava preparado para assumir um lugar no salão. Como fiz amizade com todos os garçons, eles disseram que eu ‘já podia ficar na praça’. Pedi para o gerente, ele assinou embaixo. Comecei a fazer parte da gerência em 1999.”

O cargo de garçom que Carlinhos manteve por 12 anos foi o único que ele pediu para ter. “Pedi porque precisava, queria casar, tinha que ganhar mais. A gerência veio com o tempo”, explica. No entanto, ele revela que a vida no salão não é fácil. “Cobra muito do funcionário porque ele não tem vida social. Garçom tem que gostar da profissão, é quase que uma vocação”, diz.

Após começar como ajudante na cozinha, ele assumiu um lugar como garçom em 1987
Brunno Kono/iG São Paulo
Após começar como ajudante na cozinha, ele assumiu um lugar como garçom em 1987

GARÇOM PSICÓLOGO E OS FAMOSOS

E se você pensa que o trabalho se resume a distribuir bebidas, pratos e sorrisos, é bom pensar de novo. Garçom também precisa ser o ombro amigo quando o cliente não tem nenhum. “Às vezes o cliente vem e não é o dia dele, está com problemas em casa. Tem que ser meio psicólogo. O próprio gerente vem e conversa.”

Entre tantos clientes, há os famosos, e embora as paredes do restaurante estejam decoradas com diversos murais cobertos por imagens com celebridades, Carlinhos quebrou sua regra pessoal de não incomodar os artistas quando o cantor Daniel foi lá. “Tirei [a foto] porque ele é simples, dá esse acesso. Ele já trouxe violão e tocou aqui no final da noite. Não que os outros não sejam simples”, afirma o gerente.

Apesar do assédio, alguns fogem do clique, como foi o caso do “Máquina Mortífera”, forma como ele chama o ator americano Danny Glover, presente nos quatro filmes da franquia de ação: “Esse eu não consegui fazer. Não para mim, mas para a casa. Ele levantou e foi embora”.

Carlinhos não é um sujeito que parece reclamar de muitas coisas, mas aos poucos fala o que o desagrada nos clientes, portanto, anote aí para não correr riscos: estalar os dedos ou assobiar para chamar o garçom, casal que quer sentar em uma mesa para quatro pessoas – nesse caso ele brinca e diz que é melhor deixar porque casal que senta de lado não aguenta mais olhar a cara um do outro – e os que tentam furar a espera com dinheiro.

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