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Se vestir de vermelho como simpático velhinho barbudo tem seus perrengues, com situações constrangedoras. Mas os caras que fazem isso no Natal admitem que vale muito a pena

Não deixe as crianças lerem essa reportagem para não acabar com a fantasia delas, mas Papai Noel não existe - até que se prove o contrário. Por trás daquele velhinho barbudo e bonachão de roupa vermelha que você encontra sentado no shopping sempre tem uma pessoa normal como todos nós, com uma vida comum e levada paralelamente ao Natal.

Não é tão fácil ser Papai Noel, mas vale a pena
Getty Images
Não é tão fácil ser Papai Noel, mas vale a pena


Mas quem são esses caras que se fantasiam todo final de ano para levar alegria e sonhos aos pequenos? O iG Deles foi atrás de alguns homens que largam tudo nessa época de festas para viver situações diferentes, curiosas e até certo ponto inusitadas.

DERRETENDO...

Para começar, o Natal no Brasil é celebrado no verão. E bota verão nisso. Em todas as regiões do País a promessa é de um sol para cada um, um calor de matar. Vestir a roupa de Papai Noel não deve ser nada fácil, como contou o ator Jorge Occhiuzzio, de 60 anos de idade.

As crianças encostam na gente e costumam dizer que estamos muitos quentes. Eu nem tenho o que falar, só falo 'ho ho ho'"

"Aquela roupa, olha... se existe inferno é vestir aquela roupa. Porque é muito quente, é uma coisa que ninguém imagina. É suor em cima de suor", disse o Papai Noel nas horas vagas. "As crianças encostam na gente e costumam dizer que estamos muito quentes. Eu nem tenho o que falar, só falo o 'ho ho ho'", completou Jorge.

O massoterapeuta e esteticista Artur Vettorazzo, de 61 anos, também sofre na vestimenta do velhinho simpático. "Eu derreto na roupa. Em 2013, por exemplo, em Ribeirão Pires, estava fazendo um calor de matar. Mas eu ficava embaixo de uma árvore numa praça e tinha uma corrente de vento no local e me deixava fresquinho", lembrou.

Quando o Papai Noel atende uma residência ou empresa, a média é de 30 minutos vestindo a roupa. Mas no caso de eventos na rua ou em shoppings, esse tempo aumenta e pode passar de duas horas sofrendo com o calor.

SITUAÇÕES CONSTANGEDORAS

Ser Papai Noel é ter jogo de cintura e saber sair de situações difíceis e constrangedoras. O engenheiro civil Luiz Carlos Andrade, de 57 anos, que costuma trabalhar em shoppings do Rio de Janeiro no período natalino, ficou alguns segundos sem reação quando uma criança vomitou nele em um sábado bastante movimentado.

Jorge Occhiuzzio de Papai Noel
Arquivo pessoal
Jorge Occhiuzzio de Papai Noel

"Estava um calor danado e uma fila espera de uns 40 minutos para me ver ali. O menino era gordinho, já grande até, sentou no meu colo e vomitou em mim. Era a única roupa que eu tinha na hora, então saí para o banheiro, passei uma água e voltei para continuar o trabalho. E caiu até na minha barba, que é natural. Ficou um cheiro insuportável", relatou.

Já Jorge Occhiuzzio passou por apuros quando estava a caminho de uma casa e resolveu superar o medo de uma maneira diferente. "Fomos atender um cliente, ligamos o GPS no carro e entramos numa quebrada, numa rua gigante e rolando baile funk, com aquelas meninas dançando no meio da rua. Fiquei apavorado. Falei para o motorista abrir o vidro e comecei a dançar também, vestido de Papai Noel. E eu só ouvia 'o Papai Noel é nóis, truta'", disse o ator.

Jorge também costuma trabalhar como Papai Noel para pessoas famosas. "Na casa de uma pessoa importante, o cara pegou na minha bunda e disse 'ê Papai Noel gostoso'. A esposa dele ficou super sem graça com a situação, disse que ele estava passando dos limites", relatou.

Mas existem também situações legais e prazerosas. "Me vesti de Papai Noel para o neto da minha esposa e ele ficou todo maravilhado", contou Artur. "Quando voltei, já sem a fantasia, disse que estava tomando conta das renas no telhado, para que elas não fugisse. Aí fui buscá-lo na escola no dia seguinte e vi ele contando para os amigos que Papai Noel existe e que estava em cima da casa da vó dele", completou.

PRESENTES INUSITADOS

O simpático Artur Vettorazzo
Arquivo pessoal
O simpático Artur Vettorazzo

Os pedidos de presentes são quase sempre os mesmos: boneca, videogame e carrinho. Mas existem os desejos incomuns das crianças. "Já me pediram emprego para o pai, porque eu teria alguma coisa com Deus", disse Artur Vettorazzo. "Aí disse para o menino que isso é o próprio pai é que tem que correr atrás", comentou.

Luiz Carlos também lembrou um caso engraçado. "O menino devia ter uns sete anos, não mais que isso. Aí ele sentou no meu colo com uma revista Playboy na mão, abriu numa página e falou: 'quero essa mulher pelada'. Obviamente que eu ri bastante na hora e percebi que aquilo era uma sacanagem do pai, que estava ali do lado rindo também. Dei um chiclete e falei que a mulher pelada fica para alguns anos".

E VALE A PENA?

Passar calor, situações desconfortáveis, pedidos absurdos... isso é ser Papai Noel. E vale a pena passar pelos perrengues? "Demais. Adoro fazer o Papai Noel, ver o sorriso das crianças. Financeiramente me compensa", avaliou Jorge Occhiuzzio.

Enquanto eu conseguir andar, falar e aguentar o calor, vou continuar sendo Papai Noel"

"Tenho 57 anos, comecei a trabalhar no Natal desde meus 40 e não pretendo parar. Enquanto eu conseguir andar, falar e aguentar o calor, vou continuar sendo Papai Noel. Espero que por mais uns 20 anos, pelo menos", disse Luiz Carlos. Artur Vettorazzo se veste como velhinho de vermelho há cinco anos e também adora o que faz.

*Agradecimento ao Brincando com Crianças - www.brincandocomcriancas.com.br

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