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Renan Inquérito já tem quatro discos gravados e só foi buscar um curso universitário depois de já estar consolidado na cena nacional do rap

Homem com curso superior completo, professor de geografia, não bebe, não fuma, de pele branca... estamos falando de um cantor bastante respeitado na cena brasileira do rap, um estilo musical que surgiu no final do século XX entre as comunidades negras dos Estados Unidos e já bastante difundido por todo planeta. Aos 31 anos de idade, Renan Inquérito não tem o estereótipo de um rapper, mas já está na estrada há muitos anos, bem antes de pensar em estudar e ter uma carreira paralela à da música.

Renan Inquérito, rapper e professor de Geografia
Divulgação
Renan Inquérito, rapper e professor de Geografia


"Quanto entrei na universidade, já tinha dois discos gravados e oito anos de carreira. Eu já tinha 23 anos. Eu venho do rap, não venho da universidade. Chama atenção alguém do rap que tem um curso universitário, mas na verdade esse curso veio justamente de tanto ouvir as mensagens do rap, de tanto ouvir Gog (outro rapper), em que me espelho muito. Ele tem uma frase que diz que o estudo é o escudo", disse Renan em entrevista exclusiva ao iG Deles.

"Só com rap eu não conseguia chegar em vários lugares que tinham preconceito. Eu precisava de outras ferramentas e escolhi a educação

Para Renan, líder do grupo Inquérito, o rap é uma ferramenta que consegue mudar a sociedade, mas não deixa de ser apenas uma música. "Só com rap eu não conseguia chegar em vários lugares que tinham preconceito. Eu precisava de outras ferramentas e escolhi a educação, por isso fiz o curso de licenciatura, sou formado em Geografia, sou professor, dou aula na Unesp. Isso tudo veio por conta do rap", explicou.

Ainda criança, antes da fase adolescente, Renan já vinha usando o rap até mesmo como um parente próximo, como ele gosta de falar. "Um pai ou irmão mais velho que não tive". A música e a poesia foram responsáveis pela condição de vida que o cantor leva até os dias de hoje, com muitas ações sociais e métodos diferentes de ensino.

Renan Inquérito em uma de suas apresentações
Divulgação
Renan Inquérito em uma de suas apresentações


"Todo professor tem um pouco de MC, são coisas que se completam, porque tem que ter o jogo de cintura e repertório. Mas não só repertório acadêmico, porque para dar aula não basta saber só Geografia. E isso, para mim, vem do rap. As minhas próprias letras mostram isso. Acredito muito na educação, não acredito que o rap vá salvar o mundo. As palavras não mudam o mundo, muda as pessoas", comentou Renan.

"A poesia e a música são grandes ferramentas didáticas. É claro que isso não substitui todas as pedagogias, mas enquanto for um instrumento auxiliar complementar, funciona muito. Sejam músicas que já existem ou criadas para aquele momento. Já fiz os dois", completou.

ALCOOL? SÓ NAS MÚSICAS

Renan Inquérito não fuma e não bebe. Aliás, é difícil encontrar um homem que não faz, pelo menos, umas das duas coisas. "É opção total. Meu pai morreu de cirrose e meu avô morreu praticamente disso, até poderia ser por isso. Mas antes de eles morrerem eu já não bebia, nunca bebi. Quem me conhece sabe, nem socialmente, de jeito nenhum. Não gosto do sabor, não me agrada", disse o rapper.

"É muito louco isso, porque as pessoas perguntam o motivo. O normal é beber, então quando falo que não bebo, isso espanta as pessoas

"E é muito louco isso, porque as pessoas perguntam o motivo. O normal é beber, então quando falo que não bebo, isso espanta as pessoas. Da mesma maneira que eu falo que fiz faculdade, já que existe um esteriótipo de que o rapper tem que beber, ser machista e ter um carrão. E nos mandamentos do hip hop não existe isso", explicou.

Para ele, o alcool só é usado nas letras das suas músicas. Uma delas, inclusive, ficou famosa por virar campanha de Ministério da Saúde no combate ao alcoolismo. "Em 2010 fiz uma música chamada "Um Brinde", sobre álcool em geral. Sobre etanol, a plantação de cana que acaba com o solo para servir o mercado externo. E a monocultura faz o preço do alimento subir e o primeiro a sofrer é o pobre. O álcool não é só bebida, tem a cana também. E aí remetemos a todo processo de escravidão no Brasil".

PARCERIA COM EMICIDA

Renan e Emicida
Márcio Salata
Renan e Emicida

Um dos grandes trunfos da carreira de Renan Inquérito é a parceria com o famoso rapper Emicida, com quem já tem alguns trabalhos realizados juntos. "Quando gravei um disco em 2010, chamei ele para fazer uma música comigo. Depois o Emicida foi produtor de um outro disco, escrevemos uma letra em parceria. Sempre que ele está fazendo show por perto, ele me chama. É muito parceiro, amigo, independente de música", contou Renan.

E como iniciou essa parceria? "Somos da Zona Norte de São Paulo. Um dia peguei o metrô e encontrei com o Emicida, ele nem era famoso como hoje. Mas eu já o conhecia e ele também conhecia o grupo Inquérito, eu já tinha dois discos gravados. Nós trocamos contatos e desse dia em diante nunca mais paramos de conversar", lembrou.

O RAP COMO ELE É

Existe muito preconceito com o rap nacional. Para o líder do Inquérito, existe uma deturpação criada pela mídia em cima desse estilo musical. As pessoas falam que não gostam do rap porque é uma coisa pesada, violenta, criminal e sangrenta, mas dizem que curtem 50 Cent, por exemplo.

"Ele fala coisas mais chulas do que qualquer sertanejo ou funkeiro do Brasil. O sertanejo faz apologia ao machismo, adultério, à bebida e, às vezes, até a estupros. E são veiculadas em horário nobre, trilha de novela, que embala festas pelo país. E quando o rap fala alguma coisa, é apologia", finalizou Renan.

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