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Não só o desemprego mas também o medo iminente de ser mandado embora podem gerar ansiedade crônica e prejudicar a saúde mental

Na segunda-feira (29), um homem chamado Nabor Coutinho, matou a mulher e os dois filhos no Rio de Janeiro, e depois se suicidou , deixando uma carta em tom de desespero. Na carta, ele declarava problemas financeiros, o medo de ficar desempregado e, consequentemente, de não conseguir mais sustentar a família, e isso pode ter afetado sua saúde mental.

Problemas financeiros e medo de desemprego podem afetar a saúde mental, fique atento
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Problemas financeiros e medo de desemprego podem afetar a saúde mental, fique atento

“Sinto um desgosto profundo por ter falhado com tanta força”, escreveu o homem que também dizia se sentir menos envolvido e procurado para os projetos do novo emprego e temia ser mandado embora. “Melhor acabar com tudo logo e evitar o sofrimento de todos”, declarou na carta. Especialistas em saúde mental afirmam que não podem dar nenhum diagnóstico sobre o que o homem sofria, mas analisam algumas possibilidades. “Uma pessoa que chega a situação de suicídio, provavelmente vem num quadro de instabilidade emocional”, explica o psicólogo clínico e coach Alessandro Vianna.

O psiquiatra Daniel Sócrates ainda informa que 93% dos casos de suicídio estão ligados a transtornos psiquiátricos ou psicológicos e traz uma hipótese: “Nós lidamos com muitos quadros psiquiátricos não diagnosticado. Ele poderia ter um quadro depressivo não diagnosticado”.

Depressão avança no mundo e desafia médicos

Muitas pessoas passam por situações financeiras ruins ou desemprego, mas após um período de instabilidade, superam a situação e começam a se reerguer, mas Alessandro revela que isso pode não acontecer com todos: “Se a pessoa está emocionalmente fragilizada ou eventualmente com o perfil depressivo, essa instabilidade pode ser mais intensa, levando até ao suicídio”, conta o psicólogo, que informa que 20% dos casos de suicídio estão ligadas de alguma forma ao desemprego.

Na situação de crise econômica do país, não há só muitas pessoas desempregadas, mas também um número maior de pessoas que vivem na expectativa de serem mandadas embora. Daniel informa que esta sensação de expectativa negativa gera um estado de ansiedade crônica: “A ansiedade faz parte do cardápio de sentimentos, mas se eu mantenho esse estado no meu corpo durante muito tempo há consequências: além do estresse prolongado, tem o desnivelamento de hormônio, perda de preso, insônia e até gerar um um quadro depressivo”.

A ansiedade também estimula o pensamento em fantasias negativas, segundo Alessandro, o que pode ter levado Nabor a acreditar tão certamente que seria demitido em breve e ter culminado com uma possível depressão.

Outro fator, de acordo com o psicólogo, que pode ter agravado o quadro de Nabor é o fato de ele ser homem. “Na nossa sociedade, o homem ainda se cobra para ter o papel de provedor na família. Por mais que a mulher muitas vezes já tenha um pouco deste papel na família, ele ainda se cobra”, explica. “Quando esse papel de provedor não se sustenta, isso mexe no emocional dele”, completa Alessandro.

Consequências para a família

Além do suicídio, o que muito chocou as pessoas ao ficarem sabendo deste caso foi o fato do homem ter assassinado a esposa e os dois filhos. Daniel diz que, pelo tom da carta, Nabor estava em desespero e tinha desejo de acabar com o problema e com o sofrimento da família: “Ele não enxergava nenhuma saída, não pensou em alternativas que podiam solucionar o problema.”

Alessandro ainda diz que nestes casos de suicidas que também tiram a vida de um familiar, eles projetam o que pensam para os familiares: “O pensamento predominante é de causar alívio para ela e para os familiares”, conta. “Como ele não consegue conviver com a dor, ele pensa, ‘vai ser menos doloroso tirar a vida dele, do que ele sentir esta dor eterna’”, explica o psicólogo.

Problemas financeiros afetam também vida emocional e familiar

O desemprego e consequente desestabilização financeira pode gerar outros problemas na saúde mental, segundo Alessandro: “Além da depressão, problemas de autoestima, situações de agressividade e problemas no relacionamento com as pessoas, que pode levar à separação e outras complicações na família”.

Por isso, o psiquiatra afirma que buscar ajuda especializada de um profissional é o ponto mais importante se você está sofrendo de algum desses ou outros males em sua saúde mental: “Profissionais estão treinados para estes casos, para quem chega com pensamentos de morte”.


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