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Pesquisa aponta que muitos não fazem o exame de toque retal por achar que "não é coisa de homem" e esquecem da importância do diagnóstico precoce

Depois dos 50 anos, o aposentado Maurício Mor começou a consultar regularmente o urologista. Quando tinha 63 , o médico percebeu que o nível do PSA (Antígeno Prostático Específico) estava elevado e pediu uma biópsia que constatou um tumor na próstata dele. Mor passou por uma cirurgia e há alguns anos está completamente livre da doença. Tudo foi muito simples, apesar do susto da doença, porque o câncer de próstata foi descoberto logo no início graças aos exames de rotina.

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Homens ainda têm muito preconceito com o exame que identifica o câncer de próstata, e isso dificulta o diagnóstico precoce
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Homens ainda têm muito preconceito com o exame que identifica o câncer de próstata, e isso dificulta o diagnóstico precoce


A precaução que Maurício teve serve de exemplo para muitos homens, já que o câncer de próstata é uma doença silenciosa e, segundo o oncologista Andrey Soares, do Centro Paulista de Oncologia (CPO), quanto mais cedo é diagnosticado, maior a chance de encontrar um tratamento com resultado positivo para o paciente. “O diagnóstico precoce também interrompe o desenvolvimento do tumor, evitando o aparecimento de uma metástase. A chance de cura para pacientes diagnosticados logo no início varia de 80% a 90%”, alerta o especialista.

Entretanto, quanto mais o tumor avança, menores são as chances de cura. O oncologista explica que isso acontece porque a doença pode se espalhar para outros órgãos, como linfonodos, ossos, fígado ou pulmões, ficando mais difícil de controlar. “Mas, ressalto que, mesmo nos casos aonde não há chances de cura, os tratamentos atuais prolongam a vida dos pacientes com bastante qualidade”, enfatiza.  

Preconceito é barreira

O grande problema é a barreira que o preconceito ainda cria e que impede muitos homens de cuidar da própria saúde, principalmente quando se trata do exame de toque retal. De acordo com uma recente pesquisa da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), mediada pelo Data Folha, 21% dos torcedores entrevistados em um estádio de futebol acreditam que esse exame “não é coisa de homem” e, por isso, não fazem.

“É uma realidade muito preocupante, que coloca o preconceito e o machismo como os principais entraves para o diagnóstico precoce e combate ao câncer de próstata”, expõe Andrey. “A maneira de se quebrar esta barreira pode ocorrer com as campanhas de prevenção e principalmente dentro de casa, já que as mulheres tem papel determinante em muitos casos, convencendo seus parceiros de que o exame de rastreamento é importante.”

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Foi exatamente isso que aconteceu na casa de Maurício. “No começo, tinha um pouco de receio e preconceito, mas sabia que era importante ir ao médico e fazer os exames. Na verdade, fui mais por influencia da minha esposa”, conta o aposentado. “Até onde eu sei, não tenho histórico na família. Mas, não sei dizer ao certo, porque, na época dos meus pais, os homens não faziam exames como hoje. A consciência é maior atualmente”, completa.

Ainda há muito marmanjo preconceituoso por aí, mas Maurício garante que os que ele conhece frequentam o médico regularmente. “No meu ciclo de amigos, percebo que os homens estão com a cabeça mais aberta e acho que isso acontece porque, como temos mais acesso a informações, percebemos que isso é realmente importante”, relata.  

Importância do diagnóstico precoce

Ter mais informações realmente ajuda a abrir a mente e colabora para um diagnóstico precoce. O recomendado é que homens a partir de 50 anos comecem a fazer o exame clínico (toque retal) e o teste de PSA anualmente, e aqueles que têm histórico na família devem começar um pouco antes, aos 45 anos.

Câncer de próstata é um inimigo silencioso do homem, por isso, é importante fazer o exame do toque retal
Ilustração/Reprodução
Câncer de próstata é um inimigo silencioso do homem, por isso, é importante fazer o exame do toque retal


“O PSA é uma proteína especifica produzida pelas células da próstata, que nada mais é que uma glândula presente apenas em homens. A taxa dela na corrente sanguínea, em média, deve ser entre 2,5 e quatro nanogramas por mililitro, variando de acordo com a idade e o tamanho da próstata”, explica Andrey.

“A alteração deste valor é preocupante. Um aumento muito rápido entre duas medidas ou até mesmo valores menores – em pacientes jovens e com próstata pequena – pode ser um indicativo do câncer. O exame é importante para a detecção essa condição em sua fase inicial, pois no começo o paciente não sente nada”, afirma o especialista.

Tratamento ideal

Quando a doença é detectada, é preciso iniciar o tratamento, que vai variar de acordo com o estágio e agressividade em que o tumor se encontra na próstata. Em casos iniciais, é possível conversar com o paciente e decidir junto com ele qual é a melhor solução para o problema.

Maurício, por exemplo, teve a opção de operar para retirar o tumor ou de fazer a radioterapia. “Ouvindo várias opiniões escolhi a cirurgia porque percebi que era algo mais efetivo, com mais precisão. Fiquei cinco dias internado, depois com a sonda. Não tive nenhuma complicação após a cirurgia e não afetou minha vida sexual”, expõe o aposentado.  

Nos casos de doença localizada, a cirurgia, a radioterapia (associadas ou não ao bloqueio hormonal) e a braquiterapia (também conhecida como radioterapia interna) podem ser realizadas com boas chances de cura. Portanto, os pacientes que apresentam metástases (foco tumoral) não precisam se preocupar, porque atualmente são várias as opções de tratamentos.

“Em casos mais graves, podem ser realizados, com excelentes resultados, o bloqueio hormonal, a quimioterapia, a introdução de novos medicamentos que controlam os hormônios por via oral e também uma nova classe de remédios que são conhecidos como radio isótopos, partículas que se ligam no osso e emitem doses pequenas de radioterapia nestes locais”, comenta o oncologista.

Possíveis causas

As causas do câncer variam muito e dependem do histórico do paciente, porém é sempre importante levar uma vida com dieta rica em frutas, verduras, legumes, grãos e com menos gordura possível, principalmente de origem animal.

O especialista afirma que o sedentarismo e a obesidade são apontados em pesquisas científicas como agentes que elevam as chances de desenvolver a condição. Além disso, a idade é um fator de risco importante, sendo que a maior incidência é depois dos 50 anos. Ter pai ou irmão que tiveram a doença antes dos 60 anos é um fator que pode aumentar o risco de três a 10 vezes.

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Os homens precisam consultar um médico regularmente e ao descobrir a doença há várias opções de tratamento
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Os homens precisam consultar um médico regularmente e ao descobrir a doença há várias opções de tratamento


Caso esteja passando por isso, a indicação de Andrey é não se desesperar. “Confie no tratamento do seu médico, mantenha uma rotina saudável de exercícios e alimentação e, acima de tudo, transmita para os outros homens a importância de fazer os exames de rotina para a prevenção do câncer de próstata”, finaliza.

Maurício é um bom exemplo de que vencer a doença é possível. Atualmente, ele está com 68 anos e, desde a cirurgia, precisa repetir os exames de seis em seis meses, mas garante: “Não tenho medo da doença voltar porque, se voltar, eu sei que tem vários meios para tratar”.

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