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Entender o significado do 8 de março é importante antes de falar "parabéns"

“Parabéns”, flores e até chocolate são alguns dos presentes que as mulheres recebem no Dia Internacional da Mulher. Mas, será que essa é realmente a melhor forma de celebrar a data? Para responder a pergunta, é interessante entender como este dia surgiu e os motivos dele ser tão importante ainda hoje.

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O Dia Internacional da Mulher surgiu a partir da luta de mulheres operárias e foi oficializado em uma conferência em 1910
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O Dia Internacional da Mulher surgiu a partir da luta de mulheres operárias e foi oficializado em uma conferência em 1910

Dia Internacional da Mulher , 8 de março, nasceu a partir da luta de mulheres operárias e foi oficializado em 1910, na 2ª Conferência Internacional de Mulheres Socialistas, em Copenhague, na Dinamarca. A data surgiu com o objetivo de celebrar as lutas feministas e como um protesto contra a opressão feminina.

Em entrevista prévia ao  Delas , sociólogos explicam que o 8 de maço representa até hoje a luta das mulheres por igualdade social, política e no mercado de trabalho. Apesar dos avanços em relação à equidade de gênero, como o direito ao voto e a inserção das mulheres no mercado de trabalho, ainda há muito a ser feito.

De acordo com a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), somente em janeiro de 2019 aconteceram mais de 100 casos de feminicídio no Brasil - considera-se feminicídio o assassinato de uma mulher por um homem em razão do seu gênero.

Além disso, o Estudo de Estatística de Gênero, do IBGE, aponta que as mulheres trabalham em média três horas por semana a mais do que os homens e ganham apenas dois terços do rendimento deles.

Diante dos dados atuais e do histórico da data, o  8 de março  mostra-se como um momento de reflexão sobre o caminho que vem sendo trilhado e o que ainda precisa ser feito em relação à equidade de gênero.

Então, será que as mulheres realmente querem ouvir “parabéns”, receber flores e ganhar chocolates dos homens a sua volta no Dia Internacional da Mulher?

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O que elas querem ouvir dos homens no Dia Internacional da Mulher?

Mulheres mostram que o
Reprodução/Agência Brasil/Fabio Rodrigues Pozzebom
Mulheres mostram que o "parabéns" pode não ser a melhor coisa a se falar no Dia Internacional da Mulher

Responder a essa pergunta não é simples. Afinal, cada mulher pode encarar a data de uma forma e reagir às ações dos homens de uma maneira. Para entender o que elas pensam sobre o assunto, o  Deles  conversou algumas mulheres sobre o que gostariam de ouvir dos homens no  Dia da Mulher  e questionou se o “parabéns” é válido. Veja as respostas: 

  • Débora Elias, 45 anos, radialista

"Gostaria de ouvir 'vem cá, me dá a mão, vamos juntos (as)!' Vale pra qualquer tipo de relacionamento e me traduz união e empatia nesses tempos tão estranhos e difíceis que estamos vivendo. 

Se vale dar parabéns? Vale, sim! Somos seres sociais, fortes, ativas, participantes. E como todos que reúnem tais características, gostamos de ver nosso sucesso reconhecido. Sermos parabenizadas em um dia como o 8 de março não é demérito, é só um beijo e um abraço - muito bem-vindos - na alma feminina."

  • Júlia Terciotti, 28 anos, advogada 

“Quero ouvir que ele vai, dentro do seu círculo, incentivar homens a respeitar mulheres e repreendê-los."

  • Jennifer Mendonça, 22 anos, jornalista

“Na minha visão, dizer parabéns é colocar como uma data comemorativa, o que não é, e não refletir para o que de fato acontece. Tem gente que gosta de receber flor, eu particularmente acho que esvazia o sentido da data, até mesmo pela questão histórica.

A gente não quer receber presente, a gente quer ser respeitada em todas as esferas: dentro de casa, na rua, no trabalho, nos cargos de poder, na vida."

  • FC*, 50 anos, nutricionista (nome fictício a pedido da personagem)

"Eu gostaria de ouvir que ele valoriza a mulher que tem. E vale o 'parabéns', apesar de que atos são melhores que palavras." 

  • Lívia Sarno, 25 anos, radialista

“Não tem nada exatamente que eu queira ouvir no Dia Internacional da Mulher. Eu preferia que nesse dia algumas ações concretas fossem tomadas, seja no ambiente de trabalho, mudanças na legislação que ajudam na luta contra o machismo/ feminicídio, trabalho dentro de escolas para a conscientização... São coisas que terão de fato retorno e não acabam sendo só palavras vazias."

  • Tatiana Luz, 25 anos, educadora

 “Não gosto de ‘parabéns’. Acho que gosto de ouvir algo no sentido ‘força na luta’, ‘estou aqui’ (se realmente estiver), ‘parabéns pela luta diária’... Coisas nessa linha, mas se a pessoa realmente intencionar o que está falando. Se não, o melhor é ficar quieto e não falar nada. Acho melhor boca fechada do que ‘parabéns’."

  • Eliane Alves, 30 anos, comerciante

"O que eu gostaria de ouvir dos homens nesse dia? 'Eu te respeito, ainda que não concorde. Eu te ouço, ainda que não compreenda. Eu te apoio porque também quero me sentir apoiado. Estamos todos juntos em busca de ter uma vida melhor, de sermos melhores. Eu te respeito, te ouço e te apoio' É isso que gostaria de ouvir nesse dia."

  •  Gabriela Brito, 26 anos, jornalista

“Gostaria de ouvir ‘O que eu posso fazer para ajudar a acabar com o machismo?’.

E acho que vale falar ‘parabéns’, mas dependendo do homem. Se for um cara tipo o pai, o avô, o boy... Se for um homem que a gente sabe que ajuda a evitar o machismo, que tenta se policiar, que já está em processo de desconstrução, que entende o significado do dia, que entende a luta, os preconceitos.

Se é um cara íntimo da gente, que realmente está com uma boa intenção, aí eu não vejo problema. Tem de ser de bom coração, não um ‘parabéns’ gratuito." 

  • Tamara Cirlinas, 30 anos, arquiteta

 “Queria ouvir ‘Vocês merecem! ’, nunca ouvi nenhum homem dizer isso.” 

  • Larissa Rosa, 22 anos, mestranda em Ciências da Comunicação

“Neste 8 de março, não há nada que eu gostaria de ouvir de homem nenhum. No lugar do ‘parabéns’ — que a meu ver demonstra ignorância, pra não dizer desrespeito, sobre o contexto histórico da data e da luta das mulheres —, penso que o que haveria de mais respeitoso seria o silêncio masculino.

Não o silêncio de conivência com as injustiças sociais contra as mulheres, mas o silêncio que vem no lugar de todas as explicações sobre o mundo e sobre nossa condição que eles constantemente nos dão, o silêncio que vem no lugar da violação de nossos corpos, das cantadas de rua, enfim, o silêncio que substitui tanto que há muito os homens vêm nos dizendo em suas palavras e atitudes.

Neste dia 8 de março, bem como em todos os outros dias do ano, prefiro me abrir mais àquilo que as mulheres têm a me falar."

  • Ana Martha Barrense, 48 anos, servidora pública

"Eu gostaria de ouvir os homens elogiarem o trabalho das mulheres. Gostaria que os homens fizessem comentários sobre o talento das suas colegas e não falassem apenas sobre a sua beleza ou atrativos sexuais. Gostaria que os homens não desrespeitassem as mulheres na politica com palavras pejorativas e de baixo calão.

Acho que vale falar 'Parabéns', afinal somos guerreiras e estamos na luta por igualdade de gênero. Apesar de termos muita luta pela frente, conquistamos muitos direitos."

  • Marília Baracho, 30 anos, assessora de imprensa

"Olha, eu não gostaria de ouvir, mas, sim, de ver. Eu gostaria de ver homens deixando a teoria do feminismo de lado e começando a colocá-las der fato no dia a dia.

O mundo é muito masculino ainda. Vemos machismo o tempo todo em tudo e sim, hoje se fala bastante do direito das mulheres, mas será que de fato as pessoas estão sendo mais abertas e tentando colocar isso em prática?

Então eu não quero palavras e, sim, ações."

  • Marina Falcão, 38 anos, advogada

"Gostaríamos de ouvir o quão importante somos e ter reconhecido o que fazemos para mantermos tudo na mais perfeita harmonia e ordem ... E vale não só dar os parabéns, mas um agrado é de muito bom tom".

Os relatos mostram que no  Dia Internacional da Mulher  elas querem ações concretas e reflexão por parte dos homens. O "parabéns" pode até ser válido, desde seja com boas intenções e acompanhado pelo reconhecimento da luta diária. Para não ter erro, o melhor é parar, refletir e pensar quais ações podem ser adotadas no dia a dia para contribuir para a equidade de gênero.

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